Minha flor

 Lívia Garcia-Roza


Que agitação é essa, Heloísa? Cantando, afinada... Já passou por aqui várias vezes. É por gosto que está atrapalhando a leitura do meu jornal? Hein? Que roupa é essa? Por que está vestida desSe jeito? Para ir à casa de sua mãe? Isso é coisa que se vista? Vai trocar. Por quê? Porque eu disse que é o que você vai fazer, Heloísa. O que você está pretendendo? Diz, Heloisa... Alguma coisa brotou no vazio dos seus miolos, o que terá sido? Namorou o vestido. Sim. Tem certeza de que foi ele mesmo quem você namorou? Agora conseguiu comprar, sem fazer prestação, como eu gosto... Bem, bem... Bem porra nenhuma! Ainda me chama igual ao cachorro! Que aliás, está uma fera, já falei, qualquer dia come alguém aqui dentro. Vai trocar de roupa, Heloísa! Você ia à casa de sua mãe almoçar com ela e com a sua titica. Ia, Heloísa, porque agora você não vai nem vestida de freira. Como se chama mesmo a roupa dos urubus? Hábito! Você podia contrair esse hábito, de vestir coisas decentes, mas o sangue fala mais alto, não é mesmo? A rota da depravação familiar. E não vou parar de sacudir o seu braço! Não estou te machucando porra nenhuma! Além do mais, o material é meu, ou não é? Lágrima de filhote de jacaré não comove; caladinha, Heloísa. Responde pra mim: você acha que eu sou otário? Olha bem pra minha cara e vê se eu sou um panaca. Tenho feições de corno? Aparência de veado? Perfil de trouxa? Pois saiba que você tem ao seu lado um macho da mais alta estirpe da zona da praia e da periferia! Grande Rio, Heloísa! Sou seu Redentor, minha flor. Vai trocar de roupa! Não quero mulher nenhuma parada no meio da sala. Aliás, Heloísa, gosto de te ver trabalhando. Me dá tesão. Ouviu bem? O garotão desperta instantaneamente. Falando sério, sabe o que eu acho que aconteceu? Sua cabeça caiu em completo desuso, se é que algum dia teve utilidade. Mas agora faz um esforço, Heloísa, raciocina: caso eu concordasse em que você fosse à casa da puta pioneira, como você passaria pelas ruas? Voando? Já pensou nos porteiros, nos garagistas, nos ambulantes, seus colegas de trabalho se aglomerando para te verem passar? Já? Um quitute para o povo, Heloísa! Babel gastronômica! Tira esse vestido de merda!! O que disse? Vestida desse jeito você se sente mulher? Pois é, Heloísa, é isso: sua cabeça é um deserto onde rolam pulseiras, colares, vestidos... Não estou batendo na sua cabeça, só dei uns cascudos. E pára de reclamar, que eu estou tentando te ajudar. E também não estou dando esporro! Esclareço certas coisas que você não alcança. Estou te fazendo um bem. Cumprindo corretamente o meu papel. Como poucos. O pessoal aí fora diz não e não explica. Por falar nisso, tenta me explicar: o que você pensa que é? Sou todo ouvidos, Heloísa. Você acha que é uma samambaia? Uma hortaliça? Uma esponja? Até que de vez em quando você lembra uma, não é mesmo? Você bebe bem, minha flor. Está esperando o que pra mudar de roupa?? Grito sim, pra ver se derreto a cera do seu ouvido! Escuta bem, Heloisa, enquanto você estiver casada com o campeão — sabe ao que eu me refiro, não sabe? Ou precisa de explicação? — do seu marido, você jamais vai sair de aperitivo, está entendendo? Jamais! Não vai esbandalhar o nosso lar, porra! E acho bom dar esse paninho de puta pra sua irmã! Pra piranhinha. Falo assim da sua irmã, sim. É o que ela é! Está se esforçando na carreira, tem de ser incentivada. E não estou xingando ninguém, apenas reconheço um talento. Uma aptidão rara. Arranca esse vestido de bosta, Heloísa!! Estou perdendo a paciência... O que vou fazer com você?... Santa Maria, o cacete! Não tiro a mão, não! Já disse que o material é meu, não vou largar, e não adianta gritar porque sua mãe não dá conta do cardume, quatro já dá pra falar assim, não é mesmo?... Que ninguém nos ouça, Heloísa, mas você tem um certo complexo pela sua família de origem, não tem? Porque na minha família, não nasceu nenhum veado. Não, não estou dizendo que todos os homens são veados... Heloísa!! Acabei de citar uma linhagem de machos! Entende tudo errado... Continua surda, Heloísa? A cera ainda não derreteu? Na minha família não nasceu nenhum menino mole. Homens, todos, sem exceção. Uma estirpe de machos. Dá gosto ver os garotos engrossando a voz, encorpando os músculos, estufando as veias; o cacete a quatro. Porque hoje em dia a coisa se alastrou de tal maneira... grassou uma verdadeira epidemia de tobeiros; não acha? É só olhar ao redor. Lá fora, não é, Heloísa!? Mas isso não diz respeito ao campeão. Venha cumprimentá-lo. Tomar a bênção. Está saudoso. É um sentimental, você sabe. Vem cá, Heloísa... deixa eu sentir o seu cheiro, assim, se ajeitando, com calma, devagar, sem pressa, perfeito; observe o ritmo, isso, saboreando, é papa fina, minha flor... Que entendimento, hein? Conjugação total! Dinamizando, Heloísa! Puta que a pariiiuuu!!

Agora põe o vestido, vamos pra rua, comemorar!


Lívia Garcia-Roza, carioca, é psicanalista e autora de "Quarto de Menina" (1995), "Meus queridos estranhos" (1997), "Cartão Postal" (1999), "Cine Odeon" (2001), "Solo feminino: amor e desacerto" (2002), "A palavra que veio do sul" (2004), "Meu marido" (2006) e "A cara da mãe" (2007) e "O sonho de Matilde" (2010). Organizou a antologia "Ficções Fraternas" (2003) e integra as coletâneas "Boa companhia - Contos" (2003), "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (2004) e "35 segredos para chegar a lugar nenhum: Literatura de baixo-ajuda" (2006).

Os livros Cine Odeon e Solo feminino foram semifinalistas no Prêmio Jabuti.

Lívia é casada com Luís Alfredo Garcia-Roza, professor e psicanalista que vem se destacando ao escrever romances policiais.


Texto extraído do livro "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", Editora Record - São Paulo, 2004, pág. 137, organização: Luiz Ruffato.

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