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Arnaldo Nogueira Jr



Lívia Garcia-Roza


O espelhinho

Lívia Garcia-Roza


Custódio não saía sem o pente e sem o seu espelhinho. Pequeno, redondo, baratinho, comprado em camelot, como ele dizia, porque assim as coisas ganhavam outras credenciais. O espelhinho tinha no verso o escudo do seu clube do coração, o rubro-negro tantas vezes campeão. Flamengo! Flamengo!

— Ainda não foi, Custódio?

— Estou indo, estava nas preparatórias, lembrando do mais querido.

— Chega. Vai...

— Não estou parado, Clotilde, estou nos lances finais...— E Custódio se vestia, dançando sozinho, agarradinho com ele mesmo.

— Pára com isso, homem...

— Me preparando pra entrar em campo, mulher, mostrar meus dribles, voltar em grande estilo...

Custódio guardou o espelhinho no bolso, dizendo que, tirando a constelação rubro-negra, os assaltantes eram as grandes figuras da cidade. Pentacampeões mundiais! Excelsos representantes da mediunidade do país! Sempre em campo, atacando por todos os lados. E ele tinha que estar preparado para as mudanças táticas promovidas pelos craques do asfalto. Não dava as costas em nenhum lance, dizia que era como ventilador, sempre se virando, contornando o ambiente. Agia sem alarde, em busca de um final feliz. Espalhou brilhantina no cabelo, enfiou papéis no bolso, pegou o chapéu e foi se despedir de Clotilde.

— Está levando as contas?

— Ora, Clotilde.

— Vai botar esse chapéu?

— Vou, vou...

— Ninguém usa isso! Vão rir da tua cara, cara!

— Que nada, grandes finuras, altas representações, os caras quando viajam usam, pergunta só pra você ver...

— E por acaso você está viajando?

— Vou às ruas, garantir um ingresso, estamos a horas da decisão da taça, da explosão da euforia rubro-negra, Clotilde...

— Olha as contas!

— Deixa comigo.

— E vê se não vai se meter com vagabunda...

— Que vagabunda, minha rameira, onde já se viu?

— Que palavra é essa, Custódio?

— Qual?

— Rameira.

— Rameira vem das ramas, Clotilde, de ramagem, já viu coisa mais bonita do que vir antes de flor? Que pensamentos noturnos, Clotilde...

— Cuidado comigo, hein, Custódio!

— Deixa eu te contar uma coisa que muito vai lhe abismar, Clotilde.

— Agora que estou te vendo de perto, o que houve com a tua cara, está com uns cortes...

— Com a minha, nada, foi a barba, mas com a do Juvêncio, tu não calcula, deram uma coça nele, por causa de mulher, e sabe que ainda levaram a carteira dele com os documentos e a fotografia dos meninos?

— É?

— Tipo porradão.

— Porradão, Custódio? Não está vendo aqui a minha mãe? Mamãe, vai lá pra dentro, não quero a senhora aqui na sala, não, depois eu chamo.

Custódio se desculpou, dizendo que na verdade tinha sido um chute nos colhões, agora se lembrava bem. Cobrança dura, Clotilde. Lembrava até da boca torta do Juvêncio contando.

— Alguma ele deve ter feito...

— Você não sabe como ele ficou, um bico nos ovos, pelo amor de Deus!...

— Acaba logo com a sujeira dessa história!

— Foi uma jogada confusa, os caras armaram, Clotilde. Apesar dele dizer "Olha o ambiente de harmonia, minha gente", não adiantou. Na hora o atacante veio pela direita, Juvêncio driblou o adversário, fez que ia mas não foi, o cara tonteou, mas insistiu, e venceu de virada o Juvêncio. Foram três chutes, o primeiro saiu fraco, o segundo ele defendeu, mas o terceiro... Sabe quando o cara encomprida o lance? Olha só, olha aqui pra mim, Clotilde...

— Ai meu saco...

— ... ele dominou na coxa esquerda, sem deixar a bola cair, e chutou de perna direita, cobrando a falta. Chutão! Na casa do rival. Briga pelo testículo, Clotilde. E o pessoal em volta reverenciando o talento do cara. Mas eles hão de provar do veneno da empolgação...

— Chega, Custódio, cansei da sua falação.

— Mas é português castilho, Clotilde, o repinte da língua, não estou falando mal de você, não, mas o seu jeito de falar é bem manual.

— Não enrola. Sai! Vai!

Custódio saiu andando devagar, medindo os tacos, e finalmente alcançou a rua. Ficou dando voltas no quarteirão, pensando quão remotas eram as chances de conseguir pagar as contas. Era o retrato do nervosismo rubro-negro, precisava ficar tranqüilo. Afastar os receios. Dias atrás tinha sido uma odisséia. Quando descia a ladeira (camisa do Flamengo no peito) para ir ao banco pagar as contas, tinha apalpado o bolso da calça para conferir se o espelhinho estava no lugar que ele tinha posto, e sorriu, quando sentiu o volume dele. E lá se foi, descendo cada vez mais, esbanjando confiança. E tome descida. Para quem mora no alto, tudo fica muito embaixo e para trás. A molecada zombava dele, aplaudindo-o, e ele tirava o chapéu, cumprimentava e seguia em frente, rua abaixo, achando bom receber esse carinho da torcida.

Vida de ídolo é complicada porque o assédio inebria, ele pensou, alcançando a primeira esquina. Lá, sacou do bolso o espelhinho, mas só conseguiu ver retalhos de céu, recorte de roupas, e um embaralhamento de cores e vozes ao seu redor. Uma voz se elevou no meio da multidão:

— Recebeu o recado, flamenguista de merda? Vamos parar de se engraçar com a Rosinha, tá me entendendo? A flor deu no meu canteiro, rego todo dia no capricho, tá me ouvindo?

Custódio se viu cercado por um bando de gente, vendedores ambulantes, garagistas, flanelinhas, até o pipoqueiro estava lá. O clima esquentava a cada minuto.

— O que é isso? Que marcação cerrada é essa, companheiros? Olha o ambiente de harmonia, minha gente...

E o espelhinho girou no ar, se espatifando no asfalto.


Lívia Garcia-Roza, carioca, é psicanalista e autora de "Quarto de Menina" (1995), "Meus queridos estranhos" (1997), "Cartão Postal" (1999), "Cine Odeon" (2001), "Solo feminino: amor e desacerto" (2002), "A palavra que veio do sul" (2004), "Meu marido" (2006) e "A cara da mãe" (2007). Organizou a antologia "Ficções Fraternas" (2003) e integra as coletâneas "Boa companhia - Contos" (2003), "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (2004) e "35 segredos para chegar a lugar nenhum: Literatura de baixo-ajuda" (2006).

Os livros Cine Odeon e Solo feminino foram semifinalistas no Prêmio Jabuti.

Lívia é casada com Luís Alfredo Garcia-Roza, professor e psicanalista que vem se destacando ao escrever romances policiais.


Texto extraído do livro "Restou o Cão e outros contos", Editora Cia. das Letras - São Paulo, 2005, pág. 89.

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