Minicontos 2

Jorge Timossi


Prólogo autocrítico


Quando confidenciei a um narrador amigo que estava escrevendo contos curtos, em uma única frase, perguntou-me qual a razão, se era devido à grave escassez de papel, e não lhe respondi, quem sabe não ia aproveitar a ocasião para trazer à baila o velho tema das medidas e magnitudes, grande ou pequenas, nas idéias de um escritor.

Dedicação

Aos seis anos ergueu um castelo de areia na praia e hoje, muito depois, pode-se ver ali um homem que, com mãos decrépitas, defende aquela construção contra os eternos embates do mar.

A aranha

Ficou tão bonita minha teia que já não desejo que caia em sua fúlgida trama nenhuma outra vítima além de mim mesma.

Última função

A Morte estendeu sua longa mão, roçou com um dedinho a corda bamba, e o Equilibrista precipitou-se em seus braços, são e salvo, entre estremecidos aplausos, sucesso que talvez demonstre que o Artista deve descartar de seus atos toda rede de proteção, mesmo que seja, como neste caso, a última função de sua vida.

Parênteses


(Aquele escritor era tão respeitoso para com seus leitores que colocava tudo que escrevia entre parênteses para que eles pudessem escolher (livremente) entre lê-lo ou não, incorporar o texto completo ou tomá-lo como uma (simples) intercalação, ou ficar só com os parêntese que (como se sabe) às vezes são muito mais úteis na vida que na literatura).


Jorge Timossi Corbani nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1936. É, hoje, cidadão cubano. Um dos fundadores da agência de notícias Prensa Latina, foi correspondente jornalístico em diferentes países (no Brasil, em 1959 e 1960) . Em 1979, recebeu o Prêmio da Organização Internacional de Jornalistas pelo conjunto de seu trabalho jornalístico testemunhal. Em 1999, foi agraciado com o Prêmio Nacional de Jornalismo "José Marti", concedido pelo governo cubano.. Atualmente, é vice-presidente do Instituto Cubano do Livro e dirige a Agência Literária Latino-americana, fundada por ele em 1984. Apesar de curtas, as histórias de Timossi são intensas de poesia e, em outras vezes, carregadas de um refinadíssimo humor, na medida certa para os leitores que apreciam os rápidos relatos. Os minicontos acima foram extraídos de seu livro "Continhos e outras alterações", Casa Jorge Editorial - Niterói (RJ), 1997, tradução de Sieni Marcia Campos, e parece ser o único de seus trabalhos publicados no Brasil. Esse livro tem ilustrações do cartunista Quino, criador de Mafalda. Velhos amigos, Quino se inspirou em Timossi para criar Felipe, companheiro de Mafalda em suas peripécias. Além desse, é autor de "Poesia Actual de Buenos Aires" (1964); "El Desafio Cubano" (1968); "Grandes Alamedas, el Combate del Presidente Allende" (1974); "Poemas de un Corresponsal" (1981); "Palmeras" (poesia, 1982); "Um perfume para Lam" (1988) e "Las cosas como son" (poesia, 1991). Fez, também, o posfácio do livro "O sonho de Salvador Allende" (1998).

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