A silhueta
João Saldanha
Toda cidade que se preza tem uma esquina, uma praça, um largo onde se reúnem turmas. Em
Porto Alegre o largo do Medeiros, onde desde a revolução entre chimangos e maragatos
está o Beregaray, que veio de Uruguaiana para Porto Alegre. É o "prefeito" do
largo, onde atende seu expediente. Sempre de chapéu gelot, mas nem sempre de gravata
sobre a camisa listrada. Às vezes de sobretudo. Comanda o papo com certa soberba. Deve
ser muito amplo aquele papo do largo do Medeiros, pois resistiu a vários governos e a
algumas ditaduras gaúchas e federais. Em Florianópolis lá estão os barrigas-verdes,
fazendo onda. Aquela com o Figueiredo nasceu ali. Até ovos apareceram não se sabe como.
Em Curitiba é a famosa Boca Maldita. Importante organização, muito peculiar. E
presidida por uma carismática figura da Lapa, o Anfrísio Siqueira. A Boca ficou célebre
quando, só falando mal, derrubou o governo León Peres. Sua sede fica no largo Luís
Xavier. Ali fizeram um obelisco de mármore cinzento. E falam mal de todo o Brasil e do
mundo. Reúne gente de toda a estirpe: juízes togados e de futebol, médicos e
cirurgiões consagrados. O Félix de Almeida já operou quase todos, mas nunca recebeu de
nenhum. Esta importante organização de rua faz de escritório uma agência do
Bamerindus, onde sem a menor cerimônia entram e saem para usar a mesa do gerente e o
telefone local e interurbano. Quem quiser escrever para a Boca basta colocar o endereço:
"Boca Maldita, agência Bamerindus da praça Luís Xavier, Curitiba, Paraná,
Brasil." Para teste mandei um cartão ao Anfrísio, de Tóquio, com este endereço, e
batata: chegou lá.
No inverno eles vão para dentro do saguão de um hotel. Lá em Porto Alegre a turma do
largo do Medeiros também entra para um local daqueles. Em São Paulo o pessoal é mais
civilizado. Ou mais rico. Sentam num bar e fazem despesa. Turma de esquina era a dos
cariocas, que se reunia na esquina da São João com Ypiranga. Parece que a barra pesou
ali: um assalto em cima do outro, e saíram.
No Rio vários e vários pontos ficaram famosos. Mas nenhuma esquina seguiu a fama da
esquina da rua Miguel Lemos com avenida Copacabana. O prefeito no começo era o Cristiano
Lacorte, já falecido. Cristiano, paraplégico, usava cadeira de rodas mas comparecia a
tudo. Futebol, turfe, samba, comícios, tudo. A turma resolveu e Cristiano foi um dos
vereadores mais votados do Rio de Janeiro. Depois, aquela esquina elegeu o Paulo Alberto,
o Artur da Távola, e o Edson Khair. Nestas últimas eleições, Macaé, o atual
"prefeito", apoiou Brizola, depois Saturnino e a Alice Tamborindegui. Todos
foram eleitos. Não que a esquina tenha sido decisiva, mas de qualquer forma demonstra sua
profunda sabedoria e experiência política.
Uma série de fatos e ocorrências fizeram a esquina sempre mais famosa. Ali teve e tem de
tudo. Andou sendo proibido o carnaval organizado nos bairros. Menos ali, onde começaram
bailes infantis e depois com tablado, orquestra e tudo, bailes de marmanjos. O futebol é
um dos grandes assuntos da esquina, mas nunca saiu briga séria por este lado. Uma
democracia plena existe lá até hoje. Os mais consagrados craques do futebol, locutores
esportivos e outros fazem ponto na esquina. E personalidades de "alto bordo",
como juízes, dirigentes de clubes e das principais entidades esportivas do pais. A
esquina sempre esteve presente, ora por uns ora por outros, a todos os grandes fatos ou
eventos nacionais e internacionais. E quando apareceu no Rio de Janeiro um programa de
televisão chamado o "Céu é o limite" vários representantes da esquina foram
lá ganhar prêmios grandes. Havia piadas, apelidos sérios, e mesmo quando, após a
revolução de 64, mandaram espiões para evitar qualquer propagação de idéias, em
pouco tempo os "espiões" estavam integrados ao espírito comunitário e
democrático da esquina. Houve um importante delegado especializado em política que
dizia, quando o papo esquentava: "Bem, tenho de ir andando porque minha velha está
me esperando." E caía fora. De fato não seria conveniente ficar ali. Denunciar
quem? E depois ter de sair dali?
Um dia, a esquina inteira se mobilizou. Foi quando um edifício ali perto foi apelidado de
"edifício Silhueta" . Já era mais de meia-noite quando chegou na roda um
garoto, com os olhos maiores do que um pires e disse, gaguejando: "Ali naquele
edifício tem um casal... eu acho. Estão lá dentro, mas se vê tudo da rua." Era
sábado e a roda estava imensa. Até dividida em duas ou três rodinhas de papo. Um
fundador do Botafogo, um dirigente atuante do Fluminense, ex-jogadores do Flamengo, do
Botafogo, e do Vasco, médicos, advogados, dentistas dentistas então sempre
estavam uns três ou quatro estudantes de várias escolas, comerciários e
comerciantes, todo mundo. Casa cheia. Todos correram na direção que o tal garoto
indicara. A avenida Copacabana encheu. Veio o ônibus e teve de parar. Passar como? O
chofer ia entrar na bronca, mas um dos organizadores da pequena multidão, que já estava
se acotovelando, com gestos bem significativos, fez ver ao chofer do ôn1bus o que se
passava. O chofer entendeu logo e ficou na paquera do lance. Algum passageiro estrilou,
mas ele, sem tirar os olhos do lance, mostrou o que se passava. E o casal mandando brasa.
A porta estava fechada. Mas a luz do saguão ou hall de entrada estava acesa. Bem acesa e
forte. A porta era vidro fosco. Ora, a luz por trás do casal transmitia para a turma da
rua a mais perfeita silhueta que se poderia desejar. E foi juntando gente. Um gaiato quis
fazer onda, mas um tremendo e severo "psssssiu" lhe tapou a boca. Parecia uma
tropa de comandos ou de assalto pretendendo pegar o inimigo desprevenido. Com o ônibus
parado e mal parado, os carros iam parando e as indicações sempre diretas apontando para
o evento e pedindo silêncio. Todos compreendiam logo e até casais que iam passando
paravam para olhar a cena inédita. De repente, o casal lá de dentro parou rapidamente. A
mulher, que estava sempre abaixada, meio de quatro, se arrumou depressa. A rua ficou no
mais profundo silêncio. Um segurando o outro para ninguém invadir o lugar privilegiado
de alguém que chegara primeiro. Mas não era nada de mais. O elevador fora acionado, o
casal atuante teve de parar e de dentro do prédio saiu um cidadão. Uma vaia chegou a ser
ensaiada, mas o "sinal" de silêncio foi mais forte. O cara saiu, ficou meio
atônito de ver a rua tão cheia. E, ante os gestos e vozes surdas de "cai fora...
cai fora..." , olhou para trás e entendeu tudo. Procurou se ajeitar ali pela frente,
mais foi energicamente barrado. Arrumou um lugar mais atrás e toda aquela pressa da
saída do edifício desapareceu. O casal lá dentro engrenou de novo. Do começo. Fizeram
tudo e de repente terminou. Um "oh...oh!" se fez ouvir. O cara do casal se
arrumou, ela também. Ele deu um beijinho e veio para a rua. Mal a porta se abriu, uma
tremenda ovação. Bateram palmas e saudaram o cidadão. Ele, meio aturdido, tomou a rua e
se mandou, sumindo na primeira esquina da rua Miguel Lemos em direção à rua Barata
Ribeiro. Desapareceu na noite e o papo bem entusiasmado voltou para a esquina. O ônibus
foi embora e os carros puderam passar.
João Saldanha era gaúcho e nasceu em 1917 na cidade de Alegrete. Jornalista
combativo, treinador, apaixonado pelo futebol, conseguiu unir o Brasil então
politicamente dividido em 1969, por ocasião das eliminatórias para aquela que
seria a Copa do tricampeonato no México. De temperamento difícil, extremamente corajoso,
fez muitos inimigos na vida. Mas todos admiravam aquele homem (ainda que muitas vezes não
o perdoando pelas aventuras que dizia e acreditava ter vivido) que assistiu
a todas as Copas do Mundo de futebol; que, como jornalista, cobriu a guerra da Coréia;
que desembarcou na Normandia com Montgomery e que fez a grande marcha com Mao Tse-Tung.
Faleceu no dia 12 de julho de 1990, durante a Copa do Mundo.O texto acima, extraído do
livro "Futebol e Outras Histórias", edição especial para a agência de
publicidade MPM, São Paulo, 1988, pág. 139, é bem uma mostra de sua reconhecida
capacidade de bem escrever e nos foi enviado pelo amigo Custódio, cartunista e
autor do livro "Manual do Sexo Virtual".]
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