Mesa farta para todos
João Ubaldo Ribeiro
Leio no Guinness que o francês Michel Lotito, nascido em 1950, come metal e vidro desde
os 9 anos de idade. Um quilo por dia, quando está disposto. Informa-se ainda que, de 1966
para cá, ele já comeu dez bicicletas, um carrinho de supermercado, sete aparelhos de
televisão, seis candelabros e um avião Cessna leve este ingerido em Caracas,
embora o livro não revele por quê. Sim, e comeu um caixão de defunto, com alça e tudo,
a fim de garantir um lugar na História como o primeiro homem a ter um caixão de defunto
por dentro, e não por fora.
Se é chute, não sei, mas não deve ser, levando em conta o rigor do Guinness. E esse
tipo de coisa é menos raro do que se pensa. Nunca participei de comilanças de cacos de
telha ou de torrões de barro, mas muitos amigos meus, na infância; às vezes traçavam
até um tijolinho. E um outro amigo, poeta etíope que conheci nos Estados Unidos, me
contou que, na tribo dele, os Galinas, todas as famílias tinham pelo menos um maluco, de
quem se orgulhavam muitíssimo, porque maluco é visto como uma pessoa superior. Na sua
própria família, havia diversos, embora um primo fosse favorito, pelo seu alto nível.
Qual é a maluquice dele?
Ah, ele come qualquer coisa. Você bota um troço na frente dele, ele pergunta se
é para comer, você diz que é e ele come. Ele come comida normal também, mas se, depois
de ele esvaziar o prato, você diz que pode comer o prato, ele come o prato. Come pneu,
chifre, couro, madeira, qualquer coisa, nunca decepcionou.
Um certo Dr. Buckland, inglês do século XIX, ficou, digamos, famoso por sua
determinação em comer amostras de todo o reino animal. Morava perto do zoológico de
Londres e, quando um animal adoecia, entrava em prontidão. Se o bicho morria, ele comia e
dizem que, certa feita, durante uma ausência dele, um leopardo morreu e ele, ao
regressar,. não vacilou: desenterrou o leopardo e comeu um filezinho. Afirmava que o pior
sabor era o da toupeira, mas depois mudou de idéia, porque achou a mosca-varejeira pior.
Em algum lugar do mundo ou outro (geralmente a China não há quem tenha ido à China e
não traga uma história culinária provocante), são itens do passadio, ou finas
iguarias, lagartas, larvas, sangue fresco, banha derretida, gafanhotos, ovos de cobra com
cobrinhas dentro, caça em decomposição, fígado de foca cru, baba de andorinha, ovo
podre e assim por diante. Para não falar nos esforços de cientistas mais ou menos
renomados, que se bateram seriamente contra os tabus alimentares. Mero preconceito, manter
excelentes fontes de proteína escandalosamente ignoradas, a exemplo de ratos, baratas e
gente morta de causas não contagiosas, como propôs outro inglês, cujo nome agora
esqueci. Na Bahia, não faz muito tempo, apareceu um japonês com amostras de vinho de
como direi? , é isso mesmo, vinho de cocô. Segundo ele, era coisa da melhor
qualidade, da mesma forma que bife de cocô, cuja tecnologia ele já dominava. Depois de
higienizado e processado, o bife, garantia ele, era mais nutritivo e gostoso do que muita
picanha aí. Besteira desperdiçar tanta comida boa por causa de uma ojeriza sem
fundamento científico.
Por aí vocês vêem as dificuldades que o povo causa. Se fôssemos um povo de mente mais
aberta, não existiria o problema da fome, que tantos embaraços traz aos nossos
governantes em conferências internacionais. Temos ratos, baratas, piolhos, capim (outro
japonês sugeriu capim, que também dá um bife de truz), temos tudo em abundância,
notadamente a matéria-prima daquele vinho. Meu único receio é que, se der certo.
tabelem o rato, a barata e o capim, cobrem IPI e ICM de todo mundo que for ao banheiro e
regulamentem a captura de moscas com fins alimentícios. Mas vamos ter fé nos homens.
Talvez eles livrem a cara do pequeno produtor, o que já é um grande passo e mostra
sensibilidade para com os problemas da maioria do bravo povo brasileiro. Agora, sem boa
vontade para colaborar e aceitar alguns pequenos sacrifícios, não se resolve nada.
Texto publicado na revista Veja Paulista, Editora Abril, São Paulo,
edição do dia 21/10/1992, encontrado nos Arquivos Implacáveis do amigo
João Antônio Bührer.
[ Voltar ]
RESPEITE OS
DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS.
É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site. |