Jingobel, Jingobel
(Uma história de Natal)

João Ubaldo Ribeiro


Referentemente ao Natal, podemos dizer que temos aqui muitos tipos, dependendo. Já tivemos mais, porém o Natal é uma festa que nem todos reúnem condições, aliás, verdade seja dita quase que nenhuns aqui. Diz Jocélio Budião, que o que fala não se escreve, que, na casa que ele trabalha, sempre se bota umas passas, um vinho reconstituinte, se mata um peru e umas avelãs(se bem que aqui nunca se viu um avelão voando, quanto mais uma avelã, sabendo-se que a fêmea do animal voador é mais difícil de voar do que o macho, porque tem mais o que fazer), se pega umas folhas aromadas para pendurar pelas bandeiras das portas, mas isso tudo tem que ser visto com os próprios olhos que esta aqui de baixo há de comer, porque estamos mais do que conhecendo esses chutes de seu Jocélio Budião, que o mínimo que fez foi dizer que o português patrão dele mostrou um retrato de um siri o qual siri era maior do que um prato fundo e ou esse português tem uma codaque muito retada ou então esse   siri de Budião tomou demasiadamente muito postafém com ovomaltine em pequeno, ora me deixe. Inclusive, teve outro dia que Peneluque, que é petroleiro e dispõe de recurso para adquirir todas as aves de comer, por mais grã-finas, botou dornas, dornizes, perdizes, fesões, nambus, toufracos, perus, para não falar a popular galinha que todos nós aqui criamos algumas e aqui nunca foi de fato novidade, pato, ganso, o que você pensar de aves ele botou. Porém, naturalmente que não temos nessa grande coleção nenhum avelão ou avelã. Peneluque segue a tradição do petroleiro e é maluco, gosta muito de uma pilhéria, de formas que ele me espalha aquela pratarada toda por baixo dos cajueiros, donde ele mandou fazer uma renca de mesas que vai como daqui aonde você quiser mais ou menos, e estamos sabendo que vão aparecendo a maior parte dos comilões da Ilha que Peneluque convida de propósito, pois é natural do petroleiro não esconder a riqueza e gostar de obsequiar, bem como o próprio Jocélio Budião. Muito bem, Peneluque aceita o feliz aniversário que lhe dá Budião e o sabonete todo enrolado de fitas de presente que a mulher dele, Budião, obrigou ele a levar, isto morto de acanhamento e amassando o embrulho todo, e então Peneluque diz assim, estendendo os braços dos marrecos aos perus, tudo ali na posição: Budião, desses todos aí qual é o avelão? E Budião ficou meio assim, virou e mexeu, e botou o dedo em cima de uma dorniz frita, porém, sem saber responder ao certo, tendo sido fortemente vaiado, isto porque não conheceu o avelão, que aliás não tinha lá, mas cabendo a ele dizer e não botar o dedo numa dorniz.

A verdade é que, depois que Peneluque foi transferido para Catu, o pessoal tem tido dificuldade em desfrutar até uma galinha, quanto mais aquelas belas aves. E isto mesmo assim não era Natal, era no aniversário dele, que o Natal ele passava na Bahia e depois os meninos dele voltavam cheios de patinetes e brinquedos de corda e era um grande puxa-saquismo em toda a Ilha. Bem pensando assim, descontando esses tais Natais das conversas de seu Jocélio Budião, umas conversas muito mal contadas e esses negócios dos siris portugueses, até que deve se dizer porventura que de fato justamente aqui não se observa muito Natal, hoje em dia. Inclusive, teve muita variação, depois que a televisão chegou. Hoje em dia, o povo fica todo nas janelas dos veranistas, olhando o programa que a televisão bota nessa época, que consta os artistas todos cantando e nisso se declara grande veadagem, até mesmo uns certos que a gente ouve dizer que é macho dando umas atitudes, não estou dizendo nada. A pessoa passa pela rua e o que assiste é uma carreira de rabos empinados, os cotovelos rosqueados nas janelas dos outros e aquela negrinhagem, quando aparece um artista que elas gostam. Homem daqui não presta, o que presta é esses artistas. E, de fato, a pessoa pode não ser adepta da grosseria e da ignorância, mas eu não tiro a razão de Alma de Jegue, que ontem me vai passando pela Rua dos Patos, aproveitando a estiada, e já vai meio calibrado e bastante arreliado, quando exatamente o Cão vem atentar. Alma de Jegue tem uma vida difícil e mora com a sogra, duas irmãs da sogra, a mãe da sogra, a mulher e seis filhas, e a mãe da sogra está caduca e de vez em quando bota Alma de Jegue para fora de casa e não tem santo que convença ela a deixar ele entrar, de forma que eu considero que é por essas e outras que ele costuma sempre estar meio um pouco aperreado e não aprecia muita conversação. Nisso, vem ele puto, pensando que hoje pode ser que a velha dê outro ataque, quando aquela menina de finado Nevílio, uma que vive com o rabo de fora e se esfregando nos brancos, passa toda assim por de junto de Alma de Jegue e sacode assim na frente dele um retrato de uma revísta. Olhe aqui, seu Leonardo, que o nome verdadeiro dele é Leonardo e ele só admite que chamem Alma de Jegue pelas costas, o senhor não acha Tony Ramos uma gracinha? Alma parou assim... ficou assim... e chegou a fazer que ia, mas não foi, parou de novo, bagunhou os balangandãs com a mão cheia na direção dela, balançou bastante e disse: Olhe o seu tonirramo aqui, sinha filha da puta! Só que esse daqui o cabelo não é na cabeça não, é no pé, sua desgraçada! Olhe aqui seu tonirramo, miserável! Desgraçada! Olhe seu tonirramo aqui infeliz! E ele chegou até a pular no compasso das sacudidelas, ficou muito perturbado.

Então o Natal aqui é isso mesmo, é a televisão, é Alma de Jegue sacudindo os quibas e por aí vai, ainda mais quando chove assim, porque quando a gente sai batendo os tamancos pelo meio das poças nessas horas, a gente pensa às vezes que não há nada aqui, só nós mesmos, que estamos ali batendo os tamancos. Vicente Integralista teve uns tempos que dava o Vovô Índio, quer dizer, ele dava uma festa com um velho vestido de índio, quer dizer meio assim com umas penas, que ele dizia que era para ensinar à juventude a não acreditar em Papai Noel, que era coisa estrangeira, mas sim no Vovô Índio. Então ele enchia a casa de jaca, manga, pinha, não admitia nenhuma dessas coisas que antigamente as boas casas tinham no Natal, e botava lá o Vovô Índio, geralmente Raimundo de Lasinha cheio de cana, entregando uns presentes para os meninos. Porém foi uma coisa que durou pouquíssimo, porque inclusive era cada presente marca merda que os meninos jogavam fora e uns livros com bandeiras e recitação de poesias e muita política e ninguém estava ali para comer jaca, tomar garapa e suportar o bafo de gambá de Raimundo com aquelas penas de peru por cima da culhoneira, para ganhar umas miçangas de galalite, até uns apitos que nem apitar apitavam, qualquer um se lembra disso. Quer dizer, bem pensado naquele tempo existia mais fartura, é bem possivelmente que hoje o povo até que fosse lá comer a jaca mole muito satisfeito e agradecido. Bem possivelmente.

E, além disso, tinha a festa dos velhos que finado Ioiô Pascoal, que hoje há quem chame de São Pascoal da Ilha — possa bem ser, possa bem ser—, todo ano religiosamente dava no dia 23, isto porque os velhos iam lá, dançavam, bailavam, namoravam, ganhavam presentes e comidas e, no dia 24, podiam passar o Natal com a família, se tivessem, ou os amigos — que Pascoal compreendia que o velho com presentes e comidas sempre arranja ou família ou amigos, ele sempre dizia isso. Ultimamente, ele não estava podendo mais dar a festa, por uma questão de falta de recursos, mas ele sempre conseguia um jeito. O povo dizia antes que era por causa de uma promessa, mas não era, era por causa de grandes ferimentos de amor que Ioiô Pascoal tinha sofrido quando moço. Ele era filho de espanhol, dono de um belo armazém, pessoa respeitada, mas sem qualificação de alta sociedade, de formas que, se apaixonando por uma moça, dizem que na época belíssima, que passava e os bondes paravam para o povo admirar e que a pele chegava a quase brilhar de tanta alvura e que Ioiô Pascoal ficava tão apaixonado quando ela dava o desprezo que chegava em casa e se trancava, urrava, chorava e escrevia quilos e quilos de papel que nunca mostrou a ninguém, dizia eu, enfim — eu acho esta passagem muito triste —, dizia eu que o pai dessa certa moça, tendo Pascoal declarado seu amor e ela, depois de muitos choros e urros, tendo correspondido, mandou a moça numa grande viagem de paquete para a Europa, havendo na Europa ela se casado com um duque ou senão um príncipe e mandado para Pascoal um cartão perfumado com uma frase em francês, cartão esse que dizem que Pascoal leu e se afundou na maior tristeza que se pode imaginar, sendo necessário quase que fosse internado, a família toda temendo por tuberculose ou perda da idéia — que ele sempre teve meio fraca mesmo — e enfim que até a morte nunca mais que ele podia olhar aquele cartão sem passar pelo menos uns três dias sem falar com ninguém e escrevendo quilos e mais quilos de mais papel. Essa paixão ele conservou a vida toda, vivendo ali no sobrado, só saindo de paletó e gravata e lendo e escrevendo o tempo todo e tratando todas as pessoas com gentileza, porém sem admitir intimidade.

A festa dos velhos dizem os antigos que começou em razão de um certo caso que teve aqui na Ilha, também de famílias abastadas que deixaram de ser, o qual caso se deu entre Noélio jardineiro do seminário e Dona Cristina Emília. Isto é uma coisa muito complicada, mas é que a família do pai de Noélio, que tinha coisas inclusive da pesca da baleia, no tempo da pesca da baleia, já não estava bem quando Noélio era pequeno e a família de Dona Cristina Emília era inimiga da dele, de forma que, quando Dona Cristina Emília era mocinha, a família de Noélio já tinha perdido tudo e ele acabou por caridade de um padre e porque não tinha estudo, jardineiro do seminário, na Roça dos Padres, antigamente. E, assim, o namoro que teve entre eles houve por força de ser acabado e Dona Cristina Emília ou ia para o convento da Lapa ou casava com um dos muitos rapazes de família boa que o pai botava à disposição dela, de formas que ela casou mas nunca se conformou, nem Noélio se conformou, mas a vida vai passando e, depois, ela já viúva e velha e morando aqui na Ilha e não muito bem de vida porque o marido gastou tudo, todo dia ela passava pelo portão do jardim do seminário fingindo que não estava vendo nada e Noélio, que já sabia a hora da passagem dela, ficava esperando, contudo também sem transparecer, e ali ela demorava um bocadinho olhando as flores, ele fingindo que estava ajeitando as plantas, ela fingindo que estava apreciando as plantas e aí ficavam um tempinho e depois ela ia embora e nunca falavam nada, isso anos e anos, todo santo dia.

Quando Ioiô Pascoal — que é que eu estou falando? —, quando São Pascoal da Ilha resolveu de dar essas festas de Natal para os velhos, Dona Cristina Emília e Noélio já estavam bastante entradinhos nos anos embora fortes e — como são as coisas da vida — nessa altura até que Noélio vivia melhor, com a casinha nas beiras do portão do seminário toda arrumadinha com capricho e certo conforto. Ela não, porque a neta e o marido da neta moravam na casa dela e alugaram os quartos todos, de sorte que ela fica nos fundos, num quartinho pequeno, uma caminha patente, um nichozinho e uma parede que todo inverno entrava água. Quer dizer, ela ficava, não fica mais, porque justamente já veio a falecer, inclusive em companhia de Noélio, nisso estando, segundo minha opinião, a beleza da história. A beleza da história é que, se bem que finado Ioiô Pascoal, a essa altura já não tivesse mais bem como nasceu, isto porque passava o tempo todo dentro de casa só escrevendo quilos e mais quilos de papel e quando precisava de dinheiro vendia alguma coisa que tinha herdado da família e todo mundo que pedia dinheiro ele dava, finado Ioiô Pascoal ainda podia bastante, de formas que, numa conversa com Noélio, que foi na casa dele fazer um serviço de uns jasmineiros tortos e uns lírios vermelhos que estavam morrendo, com certeza que ele tinha acabado de olhar o cartão com a frase francesa, e ficaram os dois dizem que horas e horas, cada qual contando ao outro as dores do amor e cada qual consolando o outro e muitos suspiros e lamentos de cortar o coração, não tendo Noélio feito o serviço nesse dia, mas tendo tomado bastantes cervejas com São Pascoal da Ilha e trocado muitos grandes abraços. Nisso foi que o santo resolveu a idéia da festa, que desse ano em diante era todo dia 23 e os velhos da Ilha se arrumavam todos e dançavam que pareciam uns sagüis, só a pessoa vendo para acreditar. Essas festas tinha velhos aqui que passavam o ano todo falando nela e, se soubessem que não ia ter essa festa, eles morriam logo em janeiro, por falta de ter em que falar que é como acontece com a pessoa velha. Vai ficando com falta de ter em que falar, falta de ter em que falar, e aí seca e morre.

Nessa primeira festa, Ioiô Pascoal deu uma roupa nova a Noélio, por sinal a roupa que ele foi enterrado depois, e convidou Dona Cristina Emília, que o orgulho não queria deixar ir à festa, em pessoa, fazendo uma visita à família. Tinha tudo, gambiarras, bandeirolas e um conjunto de orquestra, e o povo ia todo apreciar, porém a festa era dos velhos. Uns velhos davam ataques de safadeza no meio da festa, ficavam beliscando as velhas, havia grande alarido, mas nunca de fato problemas. Nesse dia, depois de muitas idas e vindas, Ioiô Pascoal tira Dona Cristina Emília para dançar e, no meio das valsas e canções, passa ela para Noélio e nenhum dos dois pôde fazer nada, porque Ioiô foi ligeiro. Dança essa, meu amigo, que quem assistiu diz que os dois pareciam dois pássaros, com um rodopio só atravessaram o salão. Que dançaram, dançaram, que passaram para a varanda do fundo que dá para essa coroa aí e que foi beijinhos e amassamentos, uma coisa que não se pode contar, só vendo. E que quando a festa acabou o sorriso de Noélio ia da Matriz à Fonte da Bica, bem como o de Ioiô Pascoal, e Dona Cristina Emília de braços dados com Noélio toda vermelhinha e teve salvas de palmas e tudo mais. Eu sei é que, depois dessa festa, Noélio nunca mais apagou o sorriso e com pouco os dois estavam casados, apadrinhados por Ioiô Pascoal e morando na casinha amarela junto do portão do seminário e namorando o tempo todo e passeando de mãos dadas e todo dia dando um presentinho um ao outro   — pudesse ser uma fruta, pudesse ser um santinho — e cuidando das plantas e com tanta felicidade que, quando morreram, morreram de noite de repente e encontraram eles agarradinhos, parecendo misturados, muito bonitinhos e todos dois sorrindo e sorrindo embarcaram deste mundo.

Não foi esse o único namoro forte de velhos que se sucedeu nas festas de Ioiô Pascoal, inclusive teve casos de namoros de velhos casados com velhas casadas, teve muitas coisas, porém no outro dia a maior parte dos velhos esquecia e só voltava a ter movimentos e transações na festa do outro ano. Mas foi esse o caso que mais satisfação, naturalmente, dava a Ioiô Pascoal e a última festa que ele deu foi justamente quando fez 25 anos que Noélio e Dona Cristina Emília voltaram ao namoro que o pai dela não tinha deixado na mocidade. Ele já estava velhinho e mal podendo andar e não tinha mais nada para vender, só tinha uns dois aluguéis, que assim mesmo, quando não era época do veraneio e não existia dinheiro na ilha, ele perdoava, mas resolveu que ia dar uma festa grande, porque a data merecia. E, de fato, com um retrato de Noélio e Dona Cristina Emília pendurado em cima da porta do salão, um belo retrato que Almerindo coloriu de aquarela e que era as caras dos dois uma junto da outra e Almerindo ainda pintou umas fitas artísticas na parede em redor, a festa foi das melhores que já se deu aqui, com os Brasilian Boys Jazze-Band vindo da Bahia e animação muito grande. No outro dia, Ioiô Pascoal não acordou, tinha subido aos céus. Muita gente diz que viu quando ele subiu aos céus, passando como uma fumacinha azul pelo meio das ervas da torre da Matriz e desde essa data, que foi no ano retrasado, ele tem feito milagres e já há muitos devotos nessa ilha. Nesse mesmo dia que ele subiu aos céus para ser santo, o homem dos Brasilians Boys Jazze-Band chegou de manhã e disse que ele não tinha pago pela festa e quase apanha dos devotos e nunca mais os Brasilians Boys pisa aqui.

Hoje, aliás, esta chuva aqui bem no dia 23, como no ano passado, quando se sabe que no Natal o sol está forte e não se pode passar descalço meio-dia que o couro dos pés solta, mostra que o povo tem razão e Ioiô Pascoal é de fato hoje santo milagreiro natalense. Não sei se outros dias ele faz milagres, ainda é um santo novo, deve ter ainda muita coisa para aprender nessa questão de santidade. Mas no Natal ele faz, isso ninguém aqui discute. No ano passado, os velhos mandaram rezar uma missa no dia 23, em homenagem a ele, mais ou menos na hora de festa, e estava chovendo igual a hoje. Mais, mais, estava chovendo até mais. Foi uma tristeza grande, aquela chuva forte, ninguém na rua, as goteiras na igreja e os velhos tendo de esperar para ver se melhorava um pouco, para eles poderem sair. E não é assim que, por volta das onze horas da noite, os velhos vão saindo, junto com uns parentes mais moços de uns e mais alguns devotos do santinho, tudo debaixo daquele temporal, quando, chegando bem junto do caminhão da Cobal, que estava ali parado, para, no outro dia, o povo poder fazer compras de mercadinho, que aqui não há e o governo aí manda esse caminhão para roubar a gente mais bem roubado, um raio desce com o maior estrondo, alumia tudo e a chuva pára que não cai mais uma gota. E, todo mundo ainda tonto com aquele estrondo e a claridade, uns querendo correr, outros se benzendo, o que se vê é que, devagar, devagar, as portas detrás do caminhão da Cobal vai se abrindo e balançando no vento. Tem quem diga que, nessa hora, se ouviu uma risada escrita às risadas que Ioiô Pascoal dava na hora da festa, mas a verdade é que nem os velhos nem ninguém precisava de ouvir risada, o milagre já estava feito. No outro dia, quando os homens da Cobal vieram abrir o caminhão, não tinha mais nada dentro e teve festas até depois do Ano-bom nas casas de muitos desses velhos e também dos devotos, quase como se São Pascoal da Ilha ainda estivesse vivo.

Por aí está se vendo que a chuva que vem caindo esses dias todos deve ser que o milagre vai se repetir, todo mundo tem certeza disso. A missa de Ioiô Pascoal vai ter muita gente hoje e já está tudo organizado: primeiro quem entra no caminhão são os velhos, cada qual com sua sacolinha. Depois é que os outros entram, que é para respeitar a vontade do santo, porque a festa dele sempre foi para os velhos e os velhos estão em primeiro lugar. Dizem que este ano a Cobal vai tomar providências e vai botar uns dois vigilantes lá para tomar conta do caminhão, porque no outro ano eles ficaram muito aborrecidos com o sucedido. Porém nós já resolvemos tudo e, se alguém quiser empatar o milagre, nós vamos ajudar o santo e muita gente já está preparando uns cacetes e uma coisas assim, que é para o caso do santo precisar de assistência na hora de abrir a porta do caminhão e mandar os velhos entrar. Ainda mais agora, que ele já teve o trabalho de providenciar essa chuva toda numa época que não chove para poder os velhos dele fazerem a festa. Budião vai, Alma de Jegue também vai, diz ele que só para levar o diabo da sogra, mas eu sei que ele também vai levar a sacolinha dele, ele também é filho de Deus. Cada qual tem o Natal que pode e o pobre não vai desprezar um Natal que tem um santo bom trabalhando para ele. E o Natal do ano passado, foi muito bom mesmo, até Budião disse que comeu um pedaço de avelão legítimo e que nem achou essas coisas todas. É pequenininho e, pelo nome assim, eu pensava que era grande, diz Budião.


O texto acima foi extraído do livro "
Contos para um Natal brasileiro", Relume-Dumará Rio de Janeiro, 1996, pág. 13.

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