Do Diário de Mamãe
João Ubaldo Ribeiro
QUERIDO DIÁRIO,
Hoje eu não ia escrever. Você sabe que eu sempre digo que não vou escrever nada na
manhã do Dia das Mães, mas acabo mudando de idéia, acho que é um preparo psicológico
importante. A análise não adiantou nada, só me forneceu algumas palavras para designar
as minhas neuras, que por sinal agora atendem todas as vezes em que são chamadas por seus
nomes freudianos. Antigamente, quando eu não as conhecia tão cientificamente, elas eram
menos metidas, tinham pelo menos um certo pudor, não ficaram tão assim emergentes,
minhas neuras hoje são umas peruas emergentes insuportáveis. Diário é muito melhor do
que análise, não dá palpite nem fornece status à nossa maluquice. Aconselho.
Sim, querido, Dia das Mães novamente. O do ano passado parece que foi ontem. Ele, como
sempre, está entusiasmadíssimo, é o rei do Dia das Mães. Aliás, é o rei de todos
esses dias, porque sempre ganha presentes. Como hoje, por exemplo. Oficialmente, é
o meu presente, claro. Ele acha que eu não sei, mas vi a nota de venda no bolso do
paletó dele e a caixa mal-disfarçada, meio escondida por trás das almofadas velhas, na
prateleira de cima do armário do quarto. É uma filmadora de vídeo altamente avançada,
dessas que exigem diploma de engenharia eletrônica para começar a operar e de que eu
preciso tanto quanto de uma temporada de camping no Haiti. Ele sabe que eu não suporto
máquinas, botões e luzinhas debochadas, mas vai me dar a filmadora. Vai botar na minha
mão, vai me chamar de tecnófoba, dizer que eu vou acabar virando uma Spielberg, pegar o
manual para ler tudo e me ensinar, tomar a máquina para o resto da vida e obrigar a
família e os amigos a me assistir correndo de um caranguejo em Maceió, com close na
celulite. Mas ele é assim, que é que se vai fazer, já nasceu assim. Até no Dia da
Criança ele dá um jeito de receber um presente da mãe, preferivelmente ela pagando,
mas, quando ela resiste, ele mesmo paga, acho que o sonho dele é morar no free shop e dar
expediente diário em Miami. No ano passado, ele me deu um celular que eu nunca usei, não
sei pra quê botar ainda mais uma coleira em mim e adivinhe quem é que usa o
celular.
Sim, e eu sou uma anormal. Não anormal de psicanalista, que todo mundo é, mas anormal
mesmo, dessas de cinema americano de tevê de assinatura. Bem verdade que tenho minhas
razões. Não há normalidade que resista a seis netos numa mesa de churrascaria. Agora
são oito anos. É isso mesmo, Marcelinho, o mais velho, tem oito anos, tenho oito anos de
avó e oito anos que ouço seiscentas vezes "agora é mãe duplamente, hem?" e
tenho que responder com um risinho. Como dizia minha mãe, que eu agora compreendo muito
melhor, é por essas e outras que eu não ando armada. E o Marcelinho, tudo bem, deixou de
ser catarrento e de chutar e morder as pessoas. A Duda, mãe dele, é moderna e acha
ótimo tudo o que ele faz, mas agora ele simplesmente chega à churrascaria, enche o
pandulho de lingüiça e picanha e não fala mais nada, deve ter um vocabulário de umas
15 palavras, grande Marcelinho, excelente neto. Mas os outros não, os outros eu
sinceramente acho que deviam ser congelados até passarem da adolescência. Quando
passassem, fazia-se o descongelamento. Se voltassem a manifestar o mesmo potencial
infinito de enervar o próximo, novo congelamento até os 20. Aí, descongelava, mais
encheção de saco, mais cinco anos de freezer e assim por diante.
É, devo ser anormal, mas não tem quem me faça acreditar que não haja muitas outras na
mesma condição que eu. Admito que não estou de bom humor, mas é natural. As flores já
começaram a chegar, vão acabar os jarros, acho que vou montar uma banquinha de florista
na portaria, pelo menos assim eu me dou um presente razoável e amenizo os ímpetos
homicidas que me atacam, quando vejo nos comerciais de tevê o fogãozinho ideal para a
mamãezinha. Felizmente eles já sabem disso, mas é bom sempre lembrar que eu pego a
cabeça do infeliz que vier me dar um fogãozinho de presente de Dia das Mães, boto no
forno e acendo. O mesmo, modus in rebus, com os dedos de quem me der liquidificador. Mas
acho que não há risco. Ninguém tem grana e todo mundo se lembra do que eu fiz, no dia
em que o Marcito me deu um descascador de batata de presente, até hoje ele deve ter
trauma de batata. Você também teria, se passassem um descascador de batata no seu
cabelo.
Estou pronta para a churrascaria e a família. Não que isso seja motivo para foguetes,
mas vou poder ver o Leo novamente. Só vejo Leo entre espetos e uma vez por ano. Acho que,
sem os espetos, o pão de queijo e as tulipas de chope, eu talvez tivesse dificuldade em
reconhecê-lo. Olhando para minha cara, ninguém diz, mas eu sou mãe de um indivíduo que
ficou careca e mandou fazer aquele trançadinho grotesco na careca e ainda pinta o resto
de cabelo que tem e o bigode. E troca de mulher o tempo todo, ou elas o trocam, nunca sei
bem. O que eu sei é que ele sempre aparece com uma diferente, sempre com nome
estrangeiro, Ingrid, Shirley, Uta, umas coisas assim, todas sorridentes, empetecadas e
dizendo que eu estou bem, estou muito bem, estou ótima fico indignada, só se diz
isto a velho, nem agradeço.
Estou pronta, querido Diário. Para não encherem o saco outra vez, fiz o cabelo e as
unhas, vou usar a blusa nova (que eu comprei, com meu dinheiro) estou bem, estou
muito bem, estou ótima. Acho que este ano, aconselhada pela experiência, vou levar um
livrinho para ler na fila da churrascaria e montar um sorriso permanente na cara, para
todas as finalidades. Me olhou, eu estou lá com um sorriso. Longe de mim querer estragar
a festa da família, que diriam eles aos amigos, se não pudessem contar que levaram
mamãe e vovó para almoçar fora no Dia das Mães. Ser mãe, todo mundo sabe, é padecer
num paraíso, se bem que ainda não me mostraram direito o paraíso. Mas cumpro o meu
papel de centro da festa, sei o que se espera de mim, nunca falhei em meu dever, vou
encarar esse almoço com coragem e serenidade. Só não garanto é me conter se o Leo
resolver fazer discurso outra vez e me chamar de matriarca. Almoço sim, mas matriarca é
a mãe.
Texto extraído do livro "O Conselheiro Come", Editora Nova Fronteira
- Rio de Janeiro, 2000, pág. 166.
Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".
|