O crime do Storkwinkel
João Ubaldo Ribeiro
Não sei quanto aos alemães, mas todo brasileiro tem medo da polícia. Muita gente que é
furtada não procura a polida. A principal razão é que não adianta, pois a polícia
brasileira, de modo geral, não resolve nada. (Ninguém resolve nada no Brasil, pensando
bem; antigamente, resolvíamos no futebol, mas nem isso mais). A outra razão é que todo
mundo tem medo da policia e suspeita que, se for lá dar queixa, ela pode se aborrecer e,
quando ela se aborrece, o melhor é estar a uma distância segura.
No meu caso, há razões ainda mais fortes. Quando estudante, andei fazendo protestos e a
polícia se sentia ofendida, manifestando sua mágoa por meio de cachorros, gás,
cassetetes, cachações e outros meios de diálogo. Quando jornalista militante, a
polícia também se chateava com comentários que considerava injustos para com o regime e
me dava telefonemas preocupados, sugerindo que talvez fosse melhor para minha saúde que
eu, em vez de política, escolhesse como tema a criação de galinhas, ou um campeonato de
bridge. Como escritor, tampouco fiz sucesso com a polícia, se bem que hoje vivemos tempos
bem mais brandos. Nos tempos não tão brandos, a crítica literária da polícia era
severa e sou obrigado a confessar que prefiro a New York Times Book Review. Bem
verdade que sempre estive em boa companhia. Recordo um policial que, diante de uma
encenação de Antígona, repreendeu a todos com energia, mas benevolentemente.
Compreendia que estivessem montando tal porcaria contra o regime, afinal eram jovens
desorientados, levados ao pecado pelas ideologias malsãs e pela incúria dos mais velhos,
que, em vez de cuidar de nossa educação física e moral, nos expunham àquele lixo
mal-escrito. Sim, não tinham culpa os jovens, ele os perdoaria, embora, é claro, não
permitisse a encenação. Mas como é o nome desse sujeito que escreveu a peça?
ah, sim, esse tal Sófocles ele não perdoaria, esse iria em cana de qualquer
jeito. Lembro que, na ocasião, fiquei meio aborrecido porque não fui preso e perdi a
chance de ser companheiro de cela de Sófocles.
Se essa história parece exagero, lembro que, certa feita, a polícia proibiu que o Balé
Bolshoi se apresentasse na tevê brasileira, temendo nossa bolcheviquização, a cada vez
que um russo fizesse ha-ha-ha-ha com uma espada entre os dentes e desse um daqueles pulos
de pernas abertas. A possibilidade de que os brasileiros passassem a andar com uma espada
entre os dentes, fazendo ha-ha-ha-ha e dando pulos de dez metros, era certamente
alarmante. O catálogo é infindável e o fato é que eu tenho medo de polícia e costumo
atravessar para o outro lado do Ku'damm, quando chego perto da delegacia aqui do bairro.
Mas destino é destino e estou eu ainda mal acordado, por volta das oito horas da manhã,
aqui em Berlim, quando toca a campainha, vou abrir e quase morro de susto. Dois
cavalheiros sisudos me dizem "guten Tag", exibem distintivos e anunciam:
"Kriminalpolizei"! Só não morri por razões genéticas na minha
família não há cardíacos e morrer de velho é uma questão de honra entre nós, mas
meu primeiro impulso foi correr à sacada, gritar "sou inocente", pular e
procurar asilo na embaixada do Gabão. Minha mulher, que estava atrás de mim e também é
brasileira, disse "fique calmo, querido, eu vou fazer sua mala, eles aqui não batem,
fique calmo".
Fiquei calmo e apenas pernas trêmulas, suor frio, gagueira, queixo batucando e outros
sinais discretos traíam minha apreensão. Alguém havia me denunciado por jogar um
cigarro na calçada? Teria cometido um crime ao olhar com excessivo vagar uma gordinha nua
no Hallensee? Comer uma Bratwurst sem mostarda, como fiz outro dia, seria uma grave
ofensa? Estaria sendo confundido com um terrorista? (Sou rotineira-mente confundido com
qualquer coisa, menos com alemão e brasileiro).
"Escritor!" disse eu, no meu alemão oligofrênico. "Uso
meus dedos assim!", acrescentei, mostrando com as mãos a diferença entre acionar um
gatilho e datilografar.
A Polizei não pareceu divertida. Exibiu os distintivos outra vez, pediu algo que
eu não entendia e, lá atrás, minha mulher não facilitava as coisas, perguntando
quantas cuecas eu queria que ela pusesse na mala. Finalmente, quando eu já ia estender os
pulsos para as algemas, descobri que eles falavam inglês e, graças a Deus, entendiam
inglês gaguejado. Queriam a chave do sótão. Que chave do sótão, eu nem sabia que aqui
havia um sótão. Mostrei todas as minhas chaves, nenhuma chave de sótão. Eles sorriram,
despediram-se, foram embora.
Nós, contudo, ainda não nos recuperamos, talvez nunca nos recuperemos dessa visita.
Passamos a noite em claro, imaginando hipóteses horrendas, cadáveres no sótão, duas
toneladas de cocaína no sótão, um vampiro no sótão, as piores coisas no sótão,
nunca chegaremos nem perto do sótão durante toda a nossa estada na Alemanha. Mas, no dia
seguinte, descobrimos uma carta, pregada no quadro de avisos de nosso prédio. Um vizinho
queixava-se de que sua churrasqueira (Lattenroste) tinha desaparecido do sótão e pedia
que a devolvessem, ou pusessem 85 marcos em sua caixa postal, para pagá-la. Ah, então
era esse o crime do Storkwinkel, o mistério da churrasqueira desaparecida! Ficamos
aliviadíssimos, nunca nem vimos uma churrasqueira, aqui na Alemanha. Mas a lembrança da Kriminalpolizei
ainda estava muito viva e, como se diz no Brasil, seguro morreu de velho.
Mulher disse eu, depois de ler a carta acho que
vou comprar uma churrasqueira e deixá-la na porta desse vizinho.
Boa idéia disse ela. E, por via das dúvidas, bote também 85 marcos
na caixa postal dele.
A João Ubaldo Ribeiro, que aniversariou no último dia 23 de janeiro de
2002, um grande abraço do Releituras.
Texto extraído do livro "Um brasileiro em Berlim", Editora Nova
Fronteira Rio de Janeiro, 1995, pág. 57.
Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".
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