Pequenos Choques - A Bandejinha
João Ubaldo Ribeiro
Os alemães não notam. Sei disso porque já tentei conversar com diversos deles sobre o
assunto e eles não compreendem o que quero dizer, não vêem nada do que vejo. Em
compensação, outros brasileiros notam, logo não devo estar inventando coisas. Refiro-me
a dinheiro, mais precisamente a pagamentos. O relacionamento dos alemães com dinheiro é
muito diferente do nosso. Claro, dirão os mais bem-informados, na Alemanha existe
dinheiro e no Brasil existem apenas uns papeluchos engraçados que mudam toda semana e que
o governo insiste em dizer que é dinheiro, mas ninguém acredita. Verdade, verdade, cruel
verdade, e certamente isto tem qualquer coisa a ver com o problema, mas há algo mais,
porque já estive em muitos outros países onde também há dinheiro e insisto que os
alemães são diferentes. No começo, a gente se assustava e eu atribuía tudo a minha
aparência de contrabandista paraguaio foragido da Interpol. Mas depois percebi que o
fenômeno é genérico e cheguei mesmo a inventar maneiras de me divertir com ele. Repito
que isso é imperceptível para os próprios alemães, assim como um peixe deve achar que
o mundo é feito de água, mas a primeira coisa que a gente nota, na hora de pagar, é que
se estabelece um imediato clima de ansiedade e tensão, que só se dissipa depois que
tiramos o dinheiro do bolso, pagamos e recebemos o troco, tudo rigorosissimamente contado.
"São dezoito marcos e vinte e dois", diz a mocinha do balcão, e um silêncio
carregado se estabelece, enquanto os olhos dela acompanham nervosamente o desenrolar da
operação. A impressão que se tem é que, se alguém der um tiro de canhão lá fora,
ela só vai perguntar o que houve depois de ter certeza de que tudo foi feito
corretamente. Pagamento completado, tudo certo, o ambiente se desanuvia, há sorrisos,
quase suspiros de alívio que barulho foi esse lá fora, alguém deu um tiro de
canhão?
Num táxi carioca, o passageiro é quem pergunta quanto foi a corrida, enquanto o
motorista se queixa dos buracos no asfalto ou indaga se não é nesta rua que mora uma
famosa cantora. Na Alemanha, o motorista pára, desliga o taxímetro e, antes que outra
palavra seja pronunciada, anuncia o custo. Não me lembro de ter perguntado, na Alemanha,
o preço de qualquer coisa ou serviço. Assim que se torna evidente que vou comprar, o
atendente me diz quanto devo, sem esperar que eu pergunte (e o tal clima ansioso se
instaura instantaneamente). Se eu nunca tivesse ouvido falar na Alemanha e de repente me
visse vivendo aqui, ia passar algum tempo achando que uma das coisas mais comuns aqui é o
sujeito entrar numa loja, pedir uma coisa e sair sem pagar daí o nervosismo que
envolve os pagamentos.
Finalmente, a bandejinha. Agora já sabemos que, quando Deus criou o mundo, criou a
bandejinha e que sem ela a civilização é impossível, mas levamos algum tempo para nos
habituarmos. A bandejinha me pegou logo nos primeiros dias de minha vida em Berlim, na
tabacaria aqui da esquina. Pedi um maço de cigarros, fui imediatamente informado do
preço, estendi o dinheiro para a senhora do balcão e ela não o tomou da minha mão, mas
apenas me encarou em silêncio, com um ar severo e talvez um pouco impaciente. Não
entendi, me atrapalhei, conferi o dinheiro qual era o problema? Só então observei
que o olhar dela ia de meu rosto para a bandejinha ao lado da registradora. Já conhecia a
bandejinha de breves estadas anteriores na Alemanha, mas havia esquecido dela. Claro, a
bandejinha! Depositei o dinheiro na bandejinha, ela fez a cara satisfeita de quem havia
acabado de dar uma lição, agradeceu e pôs o troco na bandejinha.
Depois disso, ainda tive alguns problemas por esquecer da bandejinha, como no dia em que
entreguei o dinheiro da passagem ao motorista de um ônibus e ele me disse algumas coisas
que não entendi, mas que tenho certeza de que não eram para me elogiar. Agora não
esqueço mais, cumpro os usos da terra e não discuto. Não sei por que os alemães não
gostam de que lhes entreguem o pagamento diretamente nas mãos, não sei nem se é uma
exigência do Bundesbank, mas nem esmola eu dou mais na mão, aqui em Berlim. Jogo
a moeda no chapéu ou na caixinha do pedinte, não quero ser espinafrado em plena Breidscheidplatz.
E, de qualquer forma, como disse antes, a bandejinha às vezes me diverte. Vingo-me todo
dia do motorista de ônibus que me disse desaforos por causa da bandejinha. Conto
cuidadosamente moedas, fazendo questão de incluir muitas de dez pfennig, junto o
preço exato da passagem e ponho uma pilhazinha na bandeja. E Deus há de
perdoar-me tenho um prazerzinho sádico em ver o sobressalto do motorista e o gesto
ansioso com que ele espalha as moedas para contá-las e, dois segundos depois, quase
despenca na cadeira, aliviado em ver que a conta está certa e que, no meio das moedas,
não há nenhum zloty, ou qualquer coisa assim. Mas vou parar com isso, tenho medo
de algum dia matar um de enfarte.
Texto extraído do livro "Um Brasileiro em Berlim", Editora Nova
Fronteira - Rio de Janeiro, 1995, pág. 109.
Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".
|