Aventuras no Calçadão

João Ubaldo Ribeiro


AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ, quem te viu, quem te vê, nada como um dia depois do outro, nunca diga "desta água não beberei" — tudo isso me ocorre, ao ver-me no calçadão da praia, fazendo em passo acelerado o percurso de ida e volta do Leblon ao Arpoador. Com exceção de futebol, quando eu era desses fominhas de bola que não queriam parar nem depois que escurecia, sempre tive horror visceral a qualquer tipo de exercício físico. Uma vez, na Bahia, por pressão de amigos e insegurança amorosa, matriculei-me numa academia de ginástica, para tirar a barriga — o famigerado e pouco atlético brama-peito. Disseram-me que, no começo, eu ia ficar cansado, os músculos iam doer, mas depois eu ia ver que magnífico bem-estar sentiria, depois da ducha pós-malhação. Freqüentei a academia uns cinco meses e, invariavelmente, me sentia um farrapo humano, antes, durante e depois (quanto à barriga, prefiro não fazer comentários).

Tendo abandonado o rude esporte bretão quando, na condição, como se dizia naquela época, de beque direito, qualquer ponta-esquerda passou a me parecer ter a velocidade de um fórmula 1, dei para, no máximo, disputar, com singular incompetência, torneios de futebol de mesa, palitinho, sinuca e xadrez. Fazer força, me agitar, pegar peso, nunca. Mas eis que a mão cruel do destino interferiu e, ao examinar-me, um médico concluiu que minha energia era equivalente à de um cágado cheio de Lexotan. "Você vai andar no calçadão", disse ele. "Ou então vai acabar tendo dificuldade em se levantar de uma poltrona”.

Como, embora não lhe tivesse contado, eu já andava mesmo com preguiça de me sentar, quanto mais de me levantar, resolvi heroicamente enfrentar o calçadão. Foi uma decisão dura, várias madrugadas de dúvida e relutância, mas, numa bela sexta-feira, surpreendo-me atravessando lepidamente a praça Antero de Quental, para demandar o calçadão. Não deixaram de ser emocionantes esses primeiros momentos, porque um diabinho baiano que não cessa de acompanhar-me garantia que eu cairia duro para trás, depois dos primeiros 300 metros.

O primeiro problema foi a adoção de um estilo. Observando pela primeira vez meus companheiros de luta, notei que faz parte do calçadismo ter um estilo. Não queria parecer um calouro ou talvez ser até alvo de comentários desairosos sobre meu porte. Fiquei parado no ponto de partida algum tempo, em busca de inspiração com alguém. Não, não, andar assoprando e batendo os braços feito um galo cocoricando, como aquele senhor de barba, não. Talvez o peito erguido e o semblante condoreiro do senhor de cabelos revoltos. Não, não, até porque me faltam cabelos e não quero insultar a memória de meu conterrâneo Castro Alves. Os pulinhos e assovios esvoaçantes do cavalheiro de camisa fluorescente, nem pensar. E já estava até disposto a adotar o estilo caminhar abrindo e fechando as mãos (não sei para quê, mas tanta gente faz isso que deve obrar maravilhas circulatórias em todo o organismo), quando lembrei minhas raízes nordestinas e resolvi adotar o estilo Lampião, marchando em frente sem frescuras, vencendo mais essa légua tirana, na esperança de que ninguém estivesse olhando.

Tenho aprendido muito. Aprendi, por exemplo, que não se deve tentar desafiar um capenga no calçadão, é derrota certa. Incomodado porque, apesar de achar que estava andando depressa, era sempre ultrapassado e não ultrapassava ninguém, a não ser os caquéticos e os que vão lá para bestar, achei que podia pelo menos restaurar parcialmente meu brio ferido, pegando o capenguinha que ia à minha frente. O capenguinha marchava firme, arrastando um bocadinho a perna esquerda, mas mantendo um ritmo respeitável. Contudo, era capenga. Não é possível que eu não ultrapasse um capenguinha — pensei, tomando fôlego e engatando uma terceira, para encaixar uma quarta nos momentos seguintes.

O capenguinha era mais difícil de alcançar do que eu pensara e, antes de eu chegar a ele, duas senhoras vigorosíssimas me ultrapassaram airosamente. Mas persisti, emparelhei com ele e o deixei para trás. Contudo, nesse instante, devo ter cometido meu erro fatal, porque o olhei, certamente denunciando uma certa presunção pela aparente vitória. O capenguinha não me deu ousadia. Levantando mais a perna esquerda do que antes e, paradoxalmente, capengando de maneira mais acentuada, acelerou tão bruscamente que quase senti um ventinho, quando ele me passou. Aquilo não ia ficar assim. Chamei o Carl Lewis em mim e fui ao combate com todas as forças. O capenguinha, nem aí. Toda vez que eu chegava perto, ele levantava mais a perna esquerda e me deixava comendo poeira. Além disso, como dizem os narradores de automobilismo, fui atrapalhado várias vezes pelo tráfego, que ele evitava como Romário evita zagueiros, mas que me bloqueava à exasperação, como o pessoal com camisetas de um tal Clube dos Safenadinhos, que resolveu flanar na minha frente. Desisti pela altura do Jardim de Alá, na hora em que ele já devia estar chegando ao posto 8. ("É isso mesmo", disse depois meu analista, que foi o inventor dessa minha nova atividade. "Ultrapassar capenga é dificílimo”.) Vivendo e aprendendo.

Sim, vivendo e aprendendo. Por exemplo, de modo geral, nós, calçadistas, estamos ali para a mens sana in corpore sano, no meu caso mais aquela do que este. Há, no entanto, notáveis exceções. Um cidadão atarracado, de chapéu de feltro e óculos escuros panorâmicos, passa sempre por mim de chinelo, arrastando os pés e pitando um charuto enorme. A dele não é propriamente andar no calçadão e muito menos entrar em forma, a dele é fumar charuto no calçadão e manda a democracia que defendamos seu direito de fazê-lo. Outro exemplo é o pessoal viradão, que está encerrando o expediente (ou começando o outro) entre chopes, caipirinhas e transes amorosos. Lembro o tempo em que já fui capaz de fazer essas coisas, tenho arrepios.

Finalmente, aprendi que calçadão também é cultura. Venho retornando do Arpoador, perguntando a mim mesmo se conseguiria voltar para casa ou se chamava logo uma ambulância, quando deparo a figura distraída de meu confrade acadêmico embaixador Sérgio Paulo Rouanet, vestido quase do jeito com que vai à Academia. Mas que surpresa! Pois é, estava vindo da Alemanha de férias, resolvera matar as saudades do Rio, dando uma andadinha no calçadão. Mas trazia um livro na mão, era algum manual do calçadistas? Não, não era, era um romance de nossa confreira Rachel de Queiroz que ele, lamentavelmente, ainda não tinha lido e aí, enquanto andava, tirava o atrasado. Gostei do estilo dele, que passarei a chamar de acadêmico e que estou pensando seriamente em adotar, só que com um objetivo talvez menos edificante. Meu plano é sair carregando a obra completa de Machado de Assis e jogá-la toda em cima do capenguinha.


Texto extraído do livro “
O Conselheiro Come”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2000, pág. 82.

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