Espírito de Natal

José Alberto Braga


Dia 24 de Dezembro. Viagem Lisboa – Rio de Janeiro, sem escala.

O avião engoliu o trem de aterragem, driblou a capital sonolenta e voou rápido, rumo ao Atlântico. As hospedeiras ostentavam o sorriso postiço, a maldizer o plantão no dia de Natal. E, na medida do possível, começaram a evitar os chatos de primeira viagem.

Com quinze minutos de vôo o avião iluminou-se como um presépio. E os passageiros logo tiveram que mergulhar fundo no surrado espírito de Natal.

— “Boa noite, senhoras e senhores. Quem vos fala é o comandante Eleutério. Em meu nome, das hospedeiras e comissários de bordo, quero lembrar-lhes que são onze horas e quarenta e dois minutos. Dezoito para a meia-noite de Natal, data em que nasceu aquele que veio para nos salvar...”, etc., etc.

Depois de desejar um “Feliz Natal cheio de empreendimentos aos homens de boa vontade”, o comandante Eleutério anunciou a figura da noite — o Pai Natal — especialmente convidado para animar “esta maravilhosa viagem”. O meu olho detetivesco logo caiu em cima do sujeito vestido de branco e vermelho, o homenzinho que até então tinha sido meu vizinho de viagem. Estava tudo combinado, deduzi. E o Pai Natal assim falou:

— “Hoje, como podem constatar, estou sem presentes (e mostrou o saco vazio). Quero propor uma brincadeira diferente. Passarei ao lado de cada uma das senhoras e dos senhores, de olhos vendados, naturalmente. Cada passageiro colocará no meu saco as suas jóias, anéis, colares, pulseiras, relógios... Mas atenção, tudo menos dinheiro. Depois regresso ao meu lugar, fecho os olhos, conto até três, meto a mão no saco e prometo devolver os objetos, um a um, aos respectivos donos. Vocês perguntarão: “E se eu errar? Bem, nesse caso serei obrigado a pagar mil dólares de toda a vez que entregar um objeto errado. Combinados?”

E, para espanto e aplauso de todos, logo meteu a mão no bolso da calça, a exibir um gordo pacote de dólares. Em seguida, o Pai Natal começou a recolher os objetos e a colocá-los no saco com todo o cuidado. Encerrada a tarefa, voltou ao seu lugar e retirou a venda:

— “Vejamos se ainda estou afiado”. Mais do que depressa meteu a mão no saco, de onde retirou um anel de prata. “De quem será?”, disse com ar malicioso. E, naquele estilo show de terceira categoria, fingiu procurar na platéia, enquanto algumas mulheres expeliam risinhos de excitação.

Quase omiti um detalhe. Ao recolher as jóias, o sujeito manteve-se sempre acompanhado da loira, uma Marilyn tirada a papel químico. Notei que o Pai Natal evitou-me deliberadamente, a cumprir a velha máxima: “Dois bicudos não se beijam”.

Depois de percorrer todo o avião, o Pai Natal voltou-se para mim, disparando um olhar frio e gélido. Feita a tentativa de intimidação, ele continuou o show e logo escolheu uma velhinha, ao fim do corredor:

— Este anel é seu, Dona Clotilde!

Os mais precipitados aplaudiram. Após o fim das palmas, Dona Clotilde reverteu as expectativas:

— Lamento, caro Pai Natal. Pelo visto o senhor não tem a mesma habilidade de antigamente. Nem a jóia me pertence, nem me chamo Clotilde, por isso tenho direito aos mil dólares. Aplausos redobrados para a D. Clotilde, que aliás não o era. E logo se ouviu o coro dos passageiros:

— Paaaaga! Paaaaga!

Silêncio. Pai Natal fez um sinal à loura e, sem deixar de me vigiar, meteu a mão ao bolso de modo lento. Depois, mais rápido de que um corrupto a sonegar um documento incriminador, puxou de um revólver 38.

Fiquei gélido na cadeira. Eu poderia ter sacado primeiro, se tivesse optado pela ação (sempre entrei e saí armado nos aviões, mas o leitor não está à espera que eu confesse aqui a minha mágica).

— “Estou muito nervoso e não gostaria de pôr a vida dos passageiros em risco”, disse o falso Pai Natal. “Portanto vamos ficar quietinhos, o senhor também”, disse-me com um olhar desafiador.

Notava-se que a falsa loira estava desarmada. O negócio era atrair Pai Natal para perto de mim. Assim que ele se descuidasse, eu o agarraria e tomaria a arma, a exemplo daqueles filmes de ação. O resto ficaria por conta do comandante do avião.

Entretanto os passageiros permaneciam quedos e mudos, petrificados pelos acontecimentos. Quando o Pai Natal se aproximou mais do que devia, imobilizei-lhe o braço. Ele deu um grito engraçado — “ugh!” —, um som que mais parecia o grito de Perez Prado, quando o velho maestro era rei e senhor de sua famosa orquestra.

Fora dado o sinal e eu não sabia. Entrou imediatamente uma música forte, velho prefixo dos filmes de James Bond. E o comandante do avião logo esclareceu: tudo não passara de uma brincadeira para divertir os esvoaçantes passageiros. Todos se levantaram, quase todos ao mesmo, tempo para aplaudir entusiasticamente o show, enquanto o comandante Eleutério recolhia o saco e devolvia as jóias aos seus respectivos donos.
No que foi muito cumprimentado por todos “pela alegria que nos propiciou”.

O Pai Natal, esse abraçou-me de modo artificial, enquanto a falsa loira beijava-me com visível autenticidade. E sentaram-se os passageiros, a queixarem-se do calor e das horas de vôo que ainda tinham pela frente. Ao mesmo tempo, meia dúzia de passageiros cumprimentavam-me com a cabeça. Eu fora impecável no involuntário papel de ator secundário.

Logo que as hospedeiras começaram a distribuir doces a todos, perguntei ao Pai Natal e à falsa loira:

“Quanto é que vocês costumam cobrar por um espetáculo destes?”

Ambos riram sem graça. Cobravam baratinho.


José Alberto Braga (JAAB) nasceu em Braga, Portugal, no dia 17 de janeiro de 1944. Aos 15 anos emigrou para o Brasil na qualidade de “trabalhador agrícola”, atividade que nunca exerceu. No Rio de Janeiro, durante cerca de 25 anos, foi trabalhador de farmácia, office boy, bancário, bibliotecário e finalmente jornalista.

Nos anos 60 e 70 tem algumas incursões teatrais, na escrita e como ator. Sob a direção de Oswaldo Loureiro, trabalhou na peça “A Capital Federal”, de Arthur Azevedo, e em “Feiticeiras de Salém”, contracenando com Mário Lago, entre outras.

Depois de passagem pelos jornais do meio português no Brasil, foi colaborador do suplemento “Idéias”, do Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa e revista “Vozes”. Trabalhou como redator do programa “Portugal sem Passaporte”, exibido na extinta TV Tupi e na TV Bandeirantes (1973-75), programa por duas vezes premiado pela crítica brasileira.

Em 1974, é licenciado em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Inicialmente como colaborador, a convite de Millôr Fernandes tornou-se redator de “O Pasquim” (1978-79), assinando à época sob o pseudônimo de “JAAB”. Também trabalhou em diversos programas de rádio no Rio de Janeiro.

Em 1982, regressa a Lisboa na qualidade de correspondente do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Nesse mesmo jornal, durante dez anos e a partir de Portugal, manteve uma coluna diária sobre acontecimentos portugueses e luso-brasileiros.

Ao longo de 20 anos, foi colaborador do “Diário de Notícias”, “Público”, “Jornal de Letras” e “TV Guia”, em Lisboa. Participou freqüentemente de programas da televisão portuguesa – RTP e SIC – na qualidade de comentarista de assuntos internacionais (telejornais e programas de atualidade, como “Acontece”, “Sinais do Tempo” e outros).

Ainda como correspondente da imprensa brasileira, presidiu a “Associação de Imprensa Estrangeira” em Portugal (1987/1989). Foi vice-presidente da Casa do Brasil em Lisboa (1993/1994).

Junto com o embaixador José Aparecido de Oliveira, trabalhou ativamente na construção da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Também por sugestão de Aparecido, elaborou a publicação “Guia Brasil”. Foi criador e diretor da revista “Lusofonia” (1997). Diretor e orientador editorial da Editora Mensagem (Lisboa), de 2000 a 2005.

Regressa uma vez mais ao Rio de Janeiro, em 2006, e retoma atividades na imprensa, especialmente no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Livros publicados:

“As treze pragas do século XX”, editora Folhetim, Rio de Janeiro, 1976, prefácio de Millôr Fernandes.

“Tira a mãe da boca”, Codecri (editora de “O Pasquim”), Rio de Janeiro, 1980, prefácio de Jô Soares.

“Como passar no vestibular sem fazer força”, editora Marco Zero, Rio de Janeiro, 1988. (*)

“O guia da sobrevivência política”, ilustrações do cartunista português Antônio, editora Pergaminho, Lisboa, 1991.

“Fábulas imorais”, editora Pergaminho, Lisboa, 1995.

“Breviário de assuntos inúteis”, Trinova, Lisboa, 1998.

“O caçador de Étês”, Trinova, Lisboa, 2001.

“Pensamentos & Reflexões”, editora Mensagem, Lisboa, 2002, ilustrações de Casimiro Barreto.

“Fábulas Imorais”, (2ª. Edição), editora Mensagem, Lisboa, 2004), capa de Millôr Fernandes.

“Fundamentalismo para Principiantes”, editora Planeta, Lisboa, 2008.

“Pensamentos e Reflexões” (2ª. edição), Ficções Média, 2008.

“Fábulas Imorais” (3ª. Edição), Gryphus editora, Rio de Janeiro, 2008. Prefácio de José Eduardo Agualusa.

(*) Os três primeiros livros foram publicados sob o pseudônimo de JAAB

Biografias:

“Os olhos da Alma – a Vida de Manuel Madruga”, Trinova, Lisboa, 1999.

“José Aparecido – o Homem que Cravou uma Lança na Lua” Trinova, Lisboa, 1999.

Teatro do autor:

“O Mistério do Queijo Desaparecido”, peça infantil encenada no Clube Ginástico Português do R.de Janeiro, 1973.

“A Funerária”, peça de humor negro, 1980.

“Purpurina’s Bar”, peça irônico-existencial, 2000.


Texto extraído do livro “Breviário de Assuntos Inúteis”, Trinova, Lisboa, 1998.

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