O galo e o peixe

José Alberto Braga (JAAB)


Certa vez, um galo acercou-se de um grande aquário e ficou absorto, a olhar os peixes a deambular pela água. Depois de muito observar aquele balé, perguntou a um dos nadadores.

“— Diz-me, radioso peixe. Como consegues permanecer na água sem te constipares?”

“— É simples, meu galináceo de aviário. Nós, os peixes, já nascemos com uma constipação crônica, além da sinusite e seus desdobramentos otorrinolaringologistas. Porém, como essa doença é para nós uma forma de saúde, estamos bem assim, enquanto estamos mal. Entendeste?”

“— Mais ou menos tudo ou quase nada”, disse o galo, a acompanhar filosoficamente o enigma. “Pergunto mais à molhada criatura. Qual a razão da existência dessas asas, se é sabido que vocês não voam?”

“— Não são asas, meu ignorante cocorocó, eterno e inútil despertador das manhãs. São nadadeiras, sustentadas por meio de raios ósseos, as quais nos ajudam a movimentar nas águas. Mas, a propósito, também uso da minha modesta inquirição. Tanto quanto me é dado ver aqui deste aquário, percebo alguma coisa que poderia chamar de asas. Tu voas alto, meu galináceo de capoeira?”

“— “Voar não vôo, mas elas ajudam-me na ginástica matinal e a valorizar a estética da espécie. Mas deixa-me continuar a perguntação: e não te afogas em meio a tanta água?”

“— Santa ignorância. Pois se eu respiro pelas guelras. Acaso tu respiras quando bebes água, gritador histérico da madrugada?”

“— Respiro entre um gole e outro. Mas são minhas as perguntas, pois sou mais forte e valente. Diz-me, ondulante personalidade, quantas espécies há na tua família?”

“— Queres mesmo saber? Aqui vai: peixe-agulha, peixe-aranha, peixe-beijador, peixe-boi, peixe-borboleta, peixe-espada, peixe-espinho, peixe-lima, peixelim, peixe-frito...”

“- Não digas mais. Fico com este.”

E dizendo isto o galo deu uma rápida bicada, a levar consigo o peixe na direção da fogueira mais próxima.

Moral: Nunca faça um sermão de baixo para cima.



José Alberto Braga (JAAB) nasceu em Braga, Portugal, no dia 17 de janeiro de 1944. Aos 15 anos emigrou para o Brasil na qualidade de “trabalhador agrícola”, atividade que nunca exerceu. No Rio de Janeiro, durante cerca de 25 anos, foi trabalhador de farmácia, office boy, bancário, bibliotecário e finalmente jornalista.

Nos anos 60 e 70 tem algumas incursões teatrais, na escrita e como ator. Sob a direção de Oswaldo Loureiro, trabalhou na peça “A Capital Federal”, de Arthur Azevedo, e em “Feiticeiras de Salém”, contracenando com Mário Lago, entre outras.

Depois de passagem pelos jornais do meio português no Brasil, foi colaborador do suplemento “Idéias”, do Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa e revista “Vozes”. Trabalhou como redator do programa “Portugal sem Passaporte”, exibido na extinta TV Tupi e na TV Bandeirantes (1973-75), programa por duas vezes premiado pela crítica brasileira.

Em 1974, é licenciado em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Inicialmente como colaborador, a convite de Millôr Fernandes tornou-se redator de “O Pasquim” (1978-79), assinando à época sob o pseudônimo de “JAAB”. Também trabalhou em diversos programas de rádio no Rio de Janeiro.

Em 1982, regressa a Lisboa na qualidade de correspondente do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Nesse mesmo jornal, durante dez anos e a partir de Portugal, manteve uma coluna diária sobre acontecimentos portugueses e luso-brasileiros.

Ao longo de 20 anos, foi colaborador do “Diário de Notícias”, “Público”, “Jornal de Letras” e “TV Guia”, em Lisboa. Participou freqüentemente de programas da televisão portuguesa – RTP e SIC – na qualidade de comentarista de assuntos internacionais (telejornais e programas de atualidade, como “Acontece”, “Sinais do Tempo” e outros).

Ainda como correspondente da imprensa brasileira, presidiu a “Associação de Imprensa Estrangeira” em Portugal (1987/1989). Foi vice-presidente da Casa do Brasil em Lisboa (1993/1994).

Junto com o embaixador José Aparecido de Oliveira, trabalhou ativamente na construção da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Também por sugestão de Aparecido, elaborou a publicação “Guia Brasil”. Foi criador e diretor da revista “Lusofonia” (1997). Diretor e orientador editorial da Editora Mensagem (Lisboa), de 2000 a 2005.

Regressa uma vez mais ao Rio de Janeiro, em 2006, e retoma atividades na imprensa, especialmente no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Livros publicados:

“As treze pragas do século XX”, editora Folhetim, Rio de Janeiro, 1976, prefácio de Millôr Fernandes.

“Tira a mãe da boca”, Codecri (editora de “O Pasquim”), Rio de Janeiro, 1980, prefácio de Jô Soares.

“Como passar no vestibular sem fazer força”, editora Marco Zero, Rio de Janeiro, 1988. (*)

“O guia da sobrevivência política”, ilustrações do cartunista português Antônio, editora Pergaminho, Lisboa, 1991.

“Fábulas imorais”, editora Pergaminho, Lisboa, 1995.

“Breviário de assuntos inúteis”, Trinova, Lisboa, 1998.

“O caçador de Étês”, Trinova, Lisboa, 2001.

“Pensamentos & Reflexões”, editora Mensagem, Lisboa, 2002, ilustrações de Casimiro Barreto.

“Fábulas Imorais”, (2ª. Edição), editora Mensagem, Lisboa, 2004), capa de Millôr Fernandes.

“Fundamentalismo para Principiantes”, editora Planeta, Lisboa, 2008.

“Pensamentos e Reflexões” (2ª. edição), Ficções Média, 2008.

“Fábulas Imorais” (3ª. Edição), Gryphus editora, Rio de Janeiro, 2008. Prefácio de José Eduardo Agualusa.

(*) Os três primeiros livros foram publicados sob o pseudônimo de JAAB

Biografias:

“Os olhos da Alma – a Vida de Manuel Madruga”, Trinova, Lisboa, 1999.

“José Aparecido – o Homem que Cravou uma Lança na Lua” Trinova, Lisboa, 1999.

Teatro do autor:

“O Mistério do Queijo Desaparecido”, peça infantil encenada no Clube Ginástico Português do R.de Janeiro, 1973.

“A Funerária”, peça de humor negro, 1980.

“Purpurina’s Bar”, peça irônico-existencial, 2000.


O texto acima foi publicado no livro “Fábulas Imorais", Editora Pergaminho – Lisboa, 1995.

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