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Arnaldo Nogueira Jr



Joaquim M. Macedo


Mas acontecem coisas neste mundo!...

Joaquim Manuel de Macedo


Mas acontecem coisas neste mundo!...

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário do Marquês de Lavradio em seus passeios noturnos, era casado e tinha em sua companhia uma cunhada, Josefa, chamada em família Zezé, viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais moça, mais bonita ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da dos Ouvires, e sua casa de um só pavimento tinha além da porta de entrada uma outra em curto muro contíguo, a qual só se abria para o serviço dos escravos.

Ora, no último ano do seu vice-reinado o Marquês, apanhado uma noite na Rua do Padre Homem da Costa por súbita e grossa chuva, aceitou o oferecimento do Tenente, recolheu-se à casa deste, e viu Leonor, ou Lolora, como o marido e parentes a chamavam, e a Zezé, sua irmã.

O Marquês ficou encantado, e creio que só em lembrança dos serviços que devia ao Amotinado não pensou em apaixonar-se por ambas.

Enamorado da Zezé, e castigando assim e sem idéia de castigo as vis cumplicidades do Tenente, fez chegar seus recados e proposições amorosas à linda viuvinha, conseguindo comovê-la com a ternura prestigiosa e com a sua singular beleza de Vice-Rei.

Não sei como o Amotinado descobriu o namoro e os projetos do Marquês, e pôs-se alerta para impedir que o vice-real namorado penetrasse em sua casa.

O cem vezes baixo e aviltado cúmplice de entradas noturnas em casas alheias não queria graças pesadas na sua: com outro qualquer teria logo posto fim à história, rompendo em escandaloso conflito do seu costume; como o vice-rei, porém, o caso era outro, e o Tenente sabia que a mais pequena cabeçada leva-lo-ia à forca ou pelo menos ao desterro, ficando não só Zezé mas também Lolora indefesas e à mercê do Marquês, e de outros depois dele.

O Amotinado não fez bulha na família, guardou o seu segredo; e esperou, zelando vigilante e desconfiado a casa.

O Marquês tinha, no entanto, chegado a sorrir a mais terna esperança:

Uma noite o Tenente achou o Vice-Rei de cama em conseqüência de um resfriamento e em uso de sudoríficos.

— Tenente, disse o Vice-Rei com voz trêmula, eu hoje não posso sair; vão rodar até à meia-noite, e vigia bem o Jogo da Bola e a cadeia. Amanhã às oito horas vem dar-me parte do que houver

O Amotinado saiu.

Às onze horas da noite em ponto, o Marquês, disfarçado em oficial de marinha, parou na Rua do Padre Homem da Costa junto à porta do muro contíguo à casa do Tenente e bateu de leve cinco vezes.

Uma voz comprimida e como ansiosa perguntou de dentro.

— Quem é?...

O Marquês respondeu sorrindo:

— Sou o Tenente Amotinado.

O portão abriu-se, e o Marquês recuou um passo, vendo o Tenente que trazia na mão uma lanterna, e disse logo:

— Perdão, Sr. Vice-Rei! Eu sei que há dois Amotinados na cidade, mas nessa casa só entra sem pedir licença o Amotinado verdadeiro.

E trancou a porta.

O Marquês quase que se encolerizou, mas faltou-lhe, o quase, porque imediatamente desatando a rir voltou sobre seus passos e foi dormir e sonhar com a linda viuvinha Zezé.

No outro dia recebeu às oito horas da manhã o Tenente, tratou-o com a maior bondade, riu-se, lembrando-lhe o desapontamento por que passara no portão, louvou-lhe o zelo pela honra da Zezé, e, a rir ainda mais, recomendou-lhe que tivesse cuidado com o falso Amotinado.

Continuaram como dantes em noites determinadas os passeios noturnos do Marquês e do Tenente, este, porém, velava sempre em desconfiança daquele.

Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo o toque das dez horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a essa hora que o Marquês costumava sair. Chegou, bateu à porta que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia entrando, o Tenente sentiu leve ruído... voltou a chave, fingindo ter trancado a porta e esperou...

Quase logo a porta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.

O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando com os dentes cerrados:

— Sr. Vice-Rei! ...

— Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês; há dois homens; mas, se o achas melhor, há o falso Amotinado a sair pela porta do muro, quando o verdadeiro entra pela porta da casa. E vê lá! não ofendas aquela que protejo!...

O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva estéril.

Um vice-rei deveras fazia medo.

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com a[dor a patente de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

— Pobre Amotinado!... os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa, e eu não posso pagá-lo senão com o meu dinheiro. Veio que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lhe, e o miserável aceitou-o.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.


Joaquim Manuel de Macedo nasceu em São João de Itaboraí (RJ) no ano de 1820 e faleceu na cidade do  Rio de Janeiro (RJ), em  1882. Formado em Medicina pela Escola Médica do Rio de Janeiro em 1844, no mesmo ano publicou seu primeiro romance, "A Moreninha", que alcançou grande êxito; nas décadas seguintes escreveria mais 16 romances. Em 1849, tornou-se Professor de História e Geografia do Brasil do Colégio Pedro II, cargo em que permaneceria até 1870. Foi sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e fundou, com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista cultural "Guanabara". Elegeu-se várias vezes Deputado pelo Partido Liberal (ala conservadora). Colaborador do Jornal do Comércio, com a crônica "A Semana", em 1856. Em 1857 publicou "A Nebulosa", considerado pelo crítico Antonio Candido “o melhor poema-romance do Romantismo”. Macedo publicou 12 peças de teatro (em 1858 foi montada, no Rio de Janeiro (RJ), a peça "O Primo da Califórnia", pela Companhia de Joaquim Heliodoro no Ginásio Dramático e, em 1860, também no Rio foi montada a peça "Luxo e Vaidade", pela Sociedade Dramática Nacional, no mesmo local).  O autor é considerado um dos maiores prosadores do Romantismo brasileiro. Em sua poesia encontram-se traços românticos bastante característicos,  como amores fatais, cenários de tempestade, imagens de donzelas angelicais e sonhadoras.

Obras do autor:

A Moreninha, 1844
Poemas Avulsos, 1850/1852
O Cego, 1851
O Fantasma Branco, 1851
Cobé, 1852
A Nebulosa, 1857
O Sacrifício de Isaac, 1859
Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro, 1862
A Torre em Concurso, 1863
Memórias da rua do Ouvidor, 1878
]

(Dados obtidos no sítio "Itaú Cultural")


Texto extraído do livro "Memórias da rua do Ouvidor", Tipografia Perseverança - Rio de Janeiro, 1878. pág. 99.

 

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