Onde estão as borboletas azuis?
José Lins do Rego
O dia hoje está uma maravilha e, aqui de minha casa, eu olho para a lagoa que tem as
águas luminosas pelo sol de maio que há pouco nascera. É uma manhã de glória como
dizem os poetas, e para gozá-la, saio a passear.
Nada nesta cidade se parece mais com um recanto de romance que esta lagoa mansa, sem
rumores de ondas, quieta, sem arrogâncias de águas raivosas. Tudo por aqui é como se
fosse domado pela mão do homem, lagoa doméstica que, pela sabedoria sanitária do
Saturnino de Brito, se transformara, de foco de mosquitos e de febres, em esplendor de
beleza, capaz de em planos de bom urbanista ser o orgulho de uma cidade. Mas, mal o
cronista apaixonado pelos recantos idílicos da natureza inicia a sua viagem lírica,
começa a sentir que os homens são criaturas sem entranhas, terríveis criaturas sem amor
ao que deviam amar, sem cuidado pelo que deviam cuidar.
Porque, mal me pus a andar pelas terras que circundam a lagoa, o que vi não é para que
se conte.
Há quem diga e afirme que o brasileiro não gosta da natureza. Que todos somos inimigos
das árvores, dos rios, da terra. E há a teoria de que o pavor da floresta nos
transformara em citadinos, em derrubadores de matas, queimadores de terras. Mas esta
teoria não corresponde à realidade, se nos voltarmos para os bosques e jardins de
outrora que por toda a parte alegravam as nossas cidades.
Aqui no Rio de tempos para cá, deu nos homens de Governo uma verdadeira doença que é
este desprezo e quase ódio pelos nossos recantos da natureza.
Há o caso das matas da Tijuca para uma exceção honrosa. Mas, por outro lado, há este
caso da Lagoa Rodrigo de Freitas, como um crime monstruoso. Porque tudo que é erros e
mais erros foram cometidos em relação à paisagem deste maravilhoso pedaço de nossa
cidade.
Isto de se conduzir o lixo do Rio para aterrar trechos e trechos de uma massa líquida que
é um regalo para os olhos, não merece nem um comentário, pela estupidez, pela
lamentável grosseria de homens que não respeitam nada.
E feito isto não há quem possa se aproximar da lagoa Rodrigo de Freitas. Lá estão os
bichos podres, uma fedentina horrível a atrair urubus como numa "sapucaia". E o
que podia ser uma atração para os que pretendessem repousar, é aquilo que nos
envergonha e nos dói.
O Sr. Hildebrando de Góis, que saneou a "Baixada Fluminense", se quiser
encontrar o que sanear, que faça este passeio a que o modesto cronista se arriscou, por
entre lixos, com urubus quase a roçarem-lhe o rosto.
Onde estão as borboletas azuis do poeta Casimiro?
José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em Pilar, Estado da Paraíba, em 03 de junho
de 1901, e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1957. Criado no engenho Corredor, de
propriedade do avô materno, fez os estudos secundários em Itabaiana e na Paraíba (atual
João Pessoa), vindo a se formar em Direito no Recife no ano de 1918. Foi também no
Recife que veio a conhecer intelectuais como Gilberto Freyre, José Américo de Almeida e
Olívio Montenegro. Tempos depois conheceria em Maceió dois grandes nomes da literatura
de seu tempo: Jorge de Lima e Graciliano Ramos. Exerceu o cargo de promotor público em
Manhaçu (MG). Publicava, desde sua tenra juventude, artigos em suplementos literários,
passando após algum tempo a escrever romances. Seu primeiro livro foi publicado em 1932:
Menino de Engenho, custeado com dinheiro do próprio bolso, e que atingiu enorme
repercussão, abrindo caminho para uma série de obras de grande importância em nossa
literatura. José Lins do Rego veio para o Rio de Janeiro em 1935. Consagrado como o
grande escritor regionalista brasileiro ao lado de Graciliano Ramos, foi eleito membro da
Academia Brasileira de Letras no ano de 1956 . Sua obra tem como característica ser
detentora de um profundo lirismo e de uma linguagem cheia de vocábulos regionais. Neto de
um poderoso senhor de engenho, José Lins do Rego conviveu com essa transição econômica
e cultural por toda a sua juventude, o que concede a seus textos um tom de biografia que
se estende desde o seu primeiro livro. Neste ano de 2001, quando completaria 100 anos de
vida, a Academia Brasileira de Letras o homenageia com uma exposição e um ciclo de
palestras sobre sua vida e sua obra. Outra homenagem foi prestada com a criação de um
prêmio literário, no valor de R$30.000,00, para a melhor obra criada em torno do autor
que escrevia guiado pelas emoções e pela memória.
Principais obras:
Menino de Engenho (1932)
Doidinho (1933); Bangüê (1934)
O Moleque Ricardo (1935)
Usina (1936)
Pureza (1937)
Pedra Bonita (1938)
Riacho Doce (1939)
Água-mãe (1941)
Fogo Morto (1943)
Eurídice (1947)
Cangaceiros (1953)
Meus Verdes Anos (1953)
Histórias da Velha Totonha (1936)
Gordos e Magros (1942)
Poesia e Vida (1945)
Homens, Seres e Coisas (1952)
A Casa e o Homem (1954)
Presença do Nordeste na Literatura Brasileira (1957)
O Vulcão e a Fonte (1958)
Dias Idos e Vividos (1981)
O texto acima foi extraído do livro "O Melhor da Crônica Brasileira", José
Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1997, pág. 40.
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