A verdade também apanha
José
Cândido de Carvalho
Quando chegou em Pipeiras o delegado Nonô Pestana foi aquele zunzum, aquele mal-estar. O
delegado veio arrastando enorme palmatória. Era com muito orgulho que Nonô dizia
mostrando o instrumento de trabalho:
Comigo não tem esse negócio de confissão espontânea coisa nenhuma! Comigo todo
mundo entra no instrumental. É o único jeito da autoridade saber se o sujeito é
criminoso ou inocente.
E bem Nonô não havia arregaçado as mangas apareceu um retinto dizendo ter dado morte
por esquartejamento a um tal de Chico Cabeção. Pelo que confessou estar arrependido e
pronto a purgar, nas malhas da lei, o crime de sua lavra:
Matei e enterrei Chico Cabeção no quintal de minha casa.
De fato, o esquartejado lá estava mortinho da silva de nunca mais voltar a ser Chico
Cabeção. Foi quando o delegado, dentro dos seus princípios justiceiros, passou o
confessante por uma palmatória braba e esperta. E o sujeitinho tanto apanhou que acabou
desconfessando tudo. Jurou de mãos postas que era mentiroso e inventeiro. Que outro tinha
esquartejado Chico Cabeção. E Nonô orgulhoso:
É o que eu digo e provo. Não tem como uma palmatória para o suspeito contar a
verdade. Se não ministro esse corretivo, o delegado Nonô Pestana, que sou eu, mandava
para um cadeia de trinta anos um pobre inocente.
E soltou o homem.
José Cândido de Carvalho (1914 - 1989), foi
jornalista, contista e romancista. Filho de lavradores de Trás-os-Montes, norte de
Portugal, aos oito anos, por doença do pai, veio morar algum tempo no Rio de Janeiro,
quando trabalhou, como estafeta, na Exposição Internacional de 22. Desses tempos
fabulosos da história do mundo, os alegres anos 20, o menino guardou lembranças
inesquecíveis. Logo voltou a Campos, onde continuou a estudar em escolas públicas. Nas
férias trabalhava como ajudante de farmacêutico, cobrador de uma firma de aguardente e
trabalhador de uma refinação de açúcar. Ao anunciar-se a Revolução de 30, José
Cândido trocou o comércio pelo jornal. Iniciou a atividade de jornalista na revisão de
O Liberal. Entre 1930 e 1939, exerceu funções de redator e colaborador em diversos
periódicos de Campos (RJ). Admirador de Rachel de Queiroz e José Lins do Rego, começou
a escrever, em 1936, o romance Olha para o céu, Frederico!, publicado em 1939. Concluiu
seus preparatórios no Liceu de Humanidades de Campos e veio conquistar o diploma de
bacharel de Direito, em 1937, pela Faculdade em Direito do Rio de Janeiro. Passou a morar
no Rio, em Santa Teresa, entrando para a redação de A Noite, um jornal de quatro
edições diárias. Como funcionário público, conseguiu um cargo de redator no
Departamento Nacional do Café, mas ali ficou por pouco tempo. Em 1942, Amaral Peixoto,
então interventor no Estado do Rio, convidou-o para trabalhar em Niterói, onde vai
dirigir O Estado, um dos grandes diários fluminenses, e onde passa a residir. Com o
desaparecimento de A Noite, em 1957, vai chefiar o copidesque de O Cruzeiro e dirigir,
substituindo Odylo Costa, filho, a edição internacional dessa importante revista.
Somente 25 anos depois de ter publicado o primeiro romance, José Cândido publica, em
1964, pela Empresa Editora de "O Cruzeiro", o romance O coronel e o lobisomem,
uma das obras-primas da ficção brasileira.Foi publicado também em Portugal traduzido
para o francês e o espanhol. Obteve o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o
Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira, e o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do PEN
Clube do Brasil. Em 1970, José Cândido de Carvalho foi diretor da Rádio Roquette-Pinto,
onde se manteve até 74, quando assumiu a direção do Serviço de Radiodifusão Educativa
do MEC. Eleito em 23 de maio de 1973 para a Cadeira n. 31, sucedendo a Cassiano Ricardo,
foi recebido em 10 de setembro de 1974 pelo acadêmico Herberto Sales na Academia
Brasileira de Letras. Em 75, foi eleito presidente do Conselho Estadual de Cultura do
Estado do Rio de Janeiro. De 1976 a 1981, foi presidente da Fundação Nacional de Arte
(Funarte), cargo para o qual foi convidado por uma de suas maiores admirações
políticas, o ministro Nei Braga. De 1982 a 1983 foi presidente do Instituto Municipal de
Cultura do Rio de Janeiro (Rioarte). Estava escrevendo um novo romance, O rei Baltazar,
que ficou inacabado. Além do grande romance que o inscreveu na literatura brasileira como
um autor singular, José Cândido publicou dois livros de "contados, astuciados,
sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil" e reuniu, em Ninguém mata o
arco-íris, uma série de retratos jornalísticos. Sua obra de ficcionista é das mais
originais, graças à linguagem pitoresca e aos personagens, ora picarescos, ora populares
extraídos do "povinho do Brasil".
Em 2005, foi lançado o filme "O coronel e o lobisomem", baseado no
romance de mesmo nome, com Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula
Arósio, Pedro Paulo Rangel, Andréa Beltrão e Tonico Pereira, sob a
direção de Maurício Farias.
Bibliografia:
Olha para o céu, Frederico!, romance (1939)
O coronel e o lobisomem, romance (1964)
Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, contados, astuciados... (1971)
Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos, contados, astuciados... (1972)
Ninguém mata o arco-íris, crônicas (1972)
Manequinho e o anjo de procissão, contos (1974)
Se eu morrer, telefone para o céu, Ed. Ediouro - Rio de Janeiro, 1979
Os Mágicos Municipais, José Olympio Editora Rio de Janeiro, 1984
Texto extraído do livro "Se eu morrer, telefone para o céu", Ed. Ediouro - Rio
de Janeiro, 1979, pág. 17, que nos foi gentilmente enviado por Alberto Campos.
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