Tatão, o esquartejador
José
Cândido de Carvalho
Era domingo que pita cachimbo e Tatão Chaves
aproveitou para pedir Lili Mercedes, mestra de letras, em casamento. A cidadezinha de
Monte Alegre, sabedora da novidade, botou a cabeça de fora para presenciar Tatão em cima das botinas de lustro e por baixo dos panos
engomados. Para avivar a coragem, Tatão bebeu, no Bar da Ponte,
meio dedo de licor, coisinha de aligeirar a língua e aromar a boca. Como achasse o licor
educado demais, mandou cruzar a bebidinha com cachaça de fundo de
garrafa. E recomendativo:
Daquele parati mimoso que até parece flor de jardim.
De talagada em talagada Tatão perdeu a mira da cabeça. Embaralhou
o pedido de casamento com negócio de disco-voador, imposto de renda e busto de moça. A
essa altura, gravata desabada e camisa fora da calça, Tatão
preveniu:
Sou o maior dedilhador dos desabotoados das meninas já aparecido em Monte Alegre.
Sou Tatão Chupeta!
Gritava que era monarquista, que era a favor da escravidão e que o prefeito de Monte
Alegre não passava de uma perfeita e acabada mula-sem-cabeça. E para arrematar, ganhando
a porta do Bar da Ponte, garantiu:
Só queria que aparecesse neste justo instante um boi cornudo para Tatão esfarinhar o chifre do sem-vergonha a bofetada!
Nisso, um boizinho desgarrado apontou na esquina da Rua do Comércio. Tatão cumprindo a promessa, armou o maior soco do
mundo. E atrás do soco saiu Tatão, atravessou a Praça 13 de
Maio, entrou no Mercado Municipal, desmontou duas barracas, esfarelou um comício de
tomates e só parou no Açougue Primavera. E meio adernado sobre um quarto de boi que
sangrava em cima do balcão:
Soco de Tatão é pior que canhão de guerra. Mata e
esquarteja!
José Cândido de Carvalho (1914 - 1989), foi
jornalista, contista e romancista. Filho de lavradores de Trás-os-Montes, norte de
Portugal, aos oito anos, por doença do pai, deixou Campos(RJ) e veio morar algum tempo no
Rio de Janeiro, quando trabalhou, como estafeta, na Exposição Internacional de 22.
Desses tempos fabulosos da história do mundo, os alegres anos 20, o menino guardou
lembranças inesquecíveis. Logo voltou a Campos, onde continuou a estudar em escolas
públicas. Nas férias trabalhava como ajudante de farmacêutico, cobrador de uma firma de
aguardente e trabalhador de uma refinação de açúcar. Ao anunciar-se a Revolução de
30, José Cândido trocou o comércio pelo jornal. Iniciou a atividade de jornalista na
revisão de O Liberal. Entre 1930 e 1939, exerceu funções de redator e colaborador em
diversos periódicos de Campos (RJ). Admirador de Rachel de Queiroz e José Lins do Rego,
começou a escrever, em 1936, o romance Olha para o céu, Frederico!, publicado em 1939.
Concluiu seus preparatórios no Liceu de Humanidades de Campos e veio conquistar o diploma
de bacharel de Direito, em 1937, pela Faculdade em Direito do Rio de Janeiro. Passou a
morar no Rio, em Santa Teresa, entrando para a redação de A Noite, um jornal de quatro
edições diárias. Como funcionário público, conseguiu um cargo de redator no
Departamento Nacional do Café, mas ali ficou por pouco tempo. Em 1942, Amaral Peixoto,
então interventor no Estado do Rio, convidou-o para trabalhar em Niterói, onde vai
dirigir O Estado, um dos grandes diários fluminenses, e onde passa a residir. Com o
desaparecimento de A Noite, em 1957, vai chefiar o copidesque de O Cruzeiro e dirigir,
substituindo Odylo Costa, filho, a edição internacional dessa importante revista.
Somente 25 anos depois de ter publicado o primeiro romance, José Cândido publica, em
1964, pela Empresa Editora de "O Cruzeiro", o romance O coronel e o lobisomem,
uma das obras-primas da ficção brasileira.Foi publicado também em Portugal traduzido
para o francês e o espanhol. Obteve o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o
Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira, e o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do PEN
Clube do Brasil. Em 1970, José Cândido de Carvalho foi diretor da Rádio Roquette-Pinto,
onde se manteve até 74, quando assumiu a direção do Serviço de Radiodifusão Educativa
do MEC. Eleito em 23 de maio de 1973 para a Cadeira n. 31, sucedendo a Cassiano Ricardo,
foi recebido em 10 de setembro de 1974 pelo acadêmico Herberto Sales na Academia
Brasileira de Letras. Em 75, foi eleito presidente do Conselho Estadual de Cultura do
Estado do Rio de Janeiro. De 1976 a 1981, foi presidente da Fundação Nacional de Arte
(Funarte), cargo para o qual foi convidado por uma de suas maiores admirações
políticas, o ministro Nei Braga. De 1982 a 1983 foi presidente do Instituto Municipal de
Cultura do Rio de Janeiro (Rioarte). Estava escrevendo um novo romance, O rei Baltazar,
que ficou inacabado. Além do grande romance que o inscreveu na literatura brasileira como
um autor singular, José Cândido publicou dois livros de "contados, astuciados,
sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil" e reuniu, em Ninguém mata o
arco-íris, uma série de retratos jornalísticos. Sua obra de ficcionista é das mais
originais, graças à linguagem pitoresca e aos personagens, ora picarescos, ora populares
extraídos do "povinho do Brasil".
Em 2005, foi lançado o filme "O coronel e o lobisomem", baseado no
romance de mesmo nome, com Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula
Arósio, Pedro Paulo Rangel, Andréa Beltrão e Tonico Pereira, sob a
direção de Maurício Farias.
Bibliografia:
Olha para o céu, Frederico!, romance (1939)
O coronel e o lobisomem, romance (1964)
Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, contados, astuciados... (1971)
Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos, contados, astuciados... (1972)
Ninguém mata o arco-íris, crônicas (1972)
Manequinho e o anjo de procissão, contos (1974)
Os Mágicos Municipais, José Olympio Editora Rio de Janeiro, 1984
Este miniconto faz parte de "Três histórias do interior" e está entre
"Os 100 melhores contos de humor da literatura universal", Ediouro Rio de
Janeiro, 2001, pág. 494, uma seleção de Flávio Moreira da Costa.
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