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J. Carino
Foto de Felipe Carino
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Sobrevôo
J.
Carino
Olho do alto a grande cidade. Essa imensa maquete nem parece prenhe de vida. A esta
distância, em sobrevôo, não me chegam as verdadeiras proporções das coisas: ruídos,
cheiros, texturas não existem.
Demiurgo, posso criar minha própria cidade imaginária.
Desenho ruas com caprichosas sinuosidades de rios: nada me impõe as angulosidades
funcionais.
Crio praças, muitas praças - círculos para encontros, espaços para o povo.
Semeio verdes generosamente: tapetes e mais tapetes de grama; árvores grandes e pequenas,
antecipando-as pejadas de flores e frutas, pouso certo dos passarinhos.
Construo prédios, uns grandes outros pequenos. Neles, sem pressão e azáfama, há gente
que faz coisas não esperadas: recita poesia pelas salas; dança pelos corredores; faz dos
elevadores câmaras de eco ideais para os assovios
Ergo casas pequenas em terrenos grandes, cercando-as de jardins. Trepadeiras firmam-se nos
beirais e sobem aos telhados; samambaias curiosas se metem pelas janelas, num doce
voyeurismo em verde; flores saturam o interior das moradas com infinitas variedades de
perfumes.
Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total
liberdade. Há crianças despreocupadas brincando sob as árvores. Ninguém se sufoca nas
casas sob o jugo hipnótico da parafernália eletrônica.
Daqui de cima, em meu sobrevôo, não distingo o que dizem, mas sei que se conversa muito
nesta minha cidade imaginária. Fala-se livremente: de amor, de solidariedade, de
cooperação. As palavras são as únicas armas para convencer, nunca para impor,
humilhar, ordenar. Ri-se muito; o humor perpassa os contatos humanos, dando à vida um
sabor inigualável.
Ah, como se canta nessa cidade! Melodias e harmonias embalam o cotidiano. Cantos
singulares e cantos conjuntos fazem-se ouvir todo o tempo; todos amam a música que, em
seu milagre sonoro, suaviza o viver e destrói a rudeza, penetrando pelos ouvidos e
chegando às almas.
Ama-se total e exuberantemente nessa cidade: do amor carnal, físico, sensual, ao amor
platônico, tímido ou incapaz de declarar-se. Mãos, lábios, corpos inteiros
aproximam-se, tocam-se, entrelaçam-se.
Labora-se muito na minha cidade imaginária. Trabalho e lazer são quase indistinguíveis,
dado que cada um faz o que lhe cabe com prazer, exercitando, de modo feliz, um labutar que
resulta no benefício de todos.
Daqui desta altura, posso sentir a paz que reina em minha cidade. Uma paz que penetra em
tudo, que a tudo e a todos envolve. Pacíficos são os objetivos, os empreendimentos e os
modos suaves embora determinados de alcançá-los. Não há guerras em andamento ou em
perspectiva: sejam as grandes carnificinas que lançam a raça humana no lodaçal da
indignidade, sejam as pequeninas guerras do dia a dia - as disputas miúdas pelo poder, os
embates para sobrepujar o outro, os duelos de prestígio, as brigas em torno de
questiúnculas que tanto tempo roubam à possibilidade da vivência plena da vida.
Sobrevôo minha cidade. É linda, me faz feliz e
melancólico, por sabê-la tão
bela; por vê-la como um fruto perfeito da engenharia imaginária de que nosso espírito
é capaz; por contemplá-la em sua singeleza e felicidade; mas igualmente por sabê-la
utópica e irrealizável.
Realizador fracassado diante da impraticabilidade do que foi concebido, sinto-me, porém,
eufórico com a dimensão poética de meu sonho. Lanço mais um olhar à minha querida
cidade, lá embaixo. Cubro-a de nuvens brancas, com as quais desenho caprichosamente
carneirinhos, buquês de intensa alvura, flocos de brancura imaculada e outras formas
comuns ou estranhas, ao sabor de meu delírio.
Sigo voando, célere, pelo céu quase absurdamente azul, em cujo horizonte vislumbro a
vermelhidão de um intenso pôr-de-sol. Quem sabe, lá longe, no
infinito, existirá, nalgum lugar, nalgum tempo, uma cidade assim!
J. Carino (1945), carioca da gema nascido no bairro de
Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao
longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de
cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre
encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo
poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação
literária, transfigurando tudo em observação minuciosa,
inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de
Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com
apresentação de Ruy Castro.
O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.
E-mail:
carino@urbi.com.br
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