Lá está, suando em bicas, em pleno sol, na calçada movimentada. Carrega com dificuldade
sua obesidade, que pelo menos agora tem uma vantagem: dar-lhe o biótipo do Papai Noel,
permitindo-lhe ganhar uns trocados, a salvação da lavoura para completar o minguado
orçamento doméstico, onde sempre sobra mês no fim do salário.
Gente, gente, gente na rua. Todos contagiados pelo tal espírito do Natal, que
parece um espírito muito peculiar, pois só se encarna, se corporifica onde o vil metal
permite, na anual loucura da troca de presentes.
Apesar do calor, apesar da miséria que lhe pagam, bem a contragosto, os lojistas
pães-duros, gosta do que faz. A eterna magia de contemplar rostinhos alegres, ou
assustados, ou sonolentos, ou perplexos ou tudo isso junto numa carinha só
compensa qualquer sacrifício. Tanto que, pensando no improvável de um dia ficar muito
rico, imagina-se assim mesmo, travestido de bom velhinho, distribuindo
presentes, às suas custas, para crianças pobres.
Entre a luva e a manga comprida da roupa de veludo vermelho, o pedaço de braço revela um
pouco do ser humano que se esvai em suor debaixo daquelas vestes quentíssimas, no
contra-senso do figurino imaginário imposto pelas tradições do hemisfério norte, tão
distantes da brasilidade.
Esse pouco de pele que aparece, no braço e no rosto, revela uma surpresa: é um Papai
Noel de pele negra, de um negro realçado e mais luzidio ao sol do meio-dia.
Agrada-lhe que seja assim. Ainda que isso possa parecer a muitos uma concessão
demagógica ao politicamente correto, sabe que essas brechas no estabelecido acabarão por
dissolver a montanha aparentemente inamovível do preconceito racial, tão
eufemisticamente suavizado por palavras e gestos cordiais.
Quando consegue se sentar, acomodando sua obesidade mórbida, doentia, no
trono instalado na calçada, gosta de ver a criançada que o cerca; adora
tê-los no colo, quase todos sorridentes, mas alguns tomados de tremor, enquanto balbuciam
os pedidos fundados na eterna esperança dos milagres de Natal materializáveis por um
Papai Noel onipotente.
Desejaria estar em casa, com a família, nesta véspera de Natal.
Ah, como gostaria de ganhar um presente! Sim, porque Papai Noel também deseja presentes.
Muitos querem presentes materiais: uma casa, um carro, uma gravata, meias ou uma cueca,
que seja! Ele não pensa nesse tipo de presente.
O calor aumenta. O vapor que sobe do asfalto confunde a visão, fazendo aparecer na rua
imagens distorcidas, como aquelas que vêem no deserto os viajantes atormentados pela
sede.
Gente, mais gente, correndo, esbaforida, na azáfama de última hora, para conseguir
comprar um presente, pagando o necessário tributo à sociedade de consumo.
Segue agora pela calçada, a passos lentos, com o saco lotado de presentes fictícios
contidos em caixas vazias. Um sorriso aqui, uma carícia numa cabecinha acolá, um
Ho! ho! proferido com a garganta ressequida mais adiante...
Súbito, seu coração dispara. Não pelo calor, ou em decorrência do cansaço, nem por
causa do ronco do estômago sem almoço.
Sim, não resta dúvida. Em meio ao mar de pessoas, com as ondas que batem, formadas por
levas de transeuntes, lá vem ela, no colo da mãe.
Olhinhos brilhantes num lindo rostinho negro diria o escritor que como as
asas da graúna , abre um sorriso e estica os bracinhos na direção do Papai
Noel exausto e inundado de suor.
Ela está chegando perto, pensa Papai Noel, minha linda, minha adorável Ana Paula, a
menina mais linda e carinhosa do mundo. A ela, esse Papai Noel gostaria de dar todos os
presentes possíveis e imagináveis, todos os brinquedos que seu coraçãozinho deseja.
A menina aproxima-se. Quando chega mais perto, um misto de alegria, curiosidade e medo faz
com ela avance mas, ao mesmo tempo, se encolha no colo da mãe.
De repente, num milagre de Natal, Papai Noel ganha seu desejado presente. Apesar do
disfarce; apesar da barba; apesar dos enchimentos, do inusitado da vestimenta, Aninha
pára, aperta os olhinhos, para enxergar melhor, pensa, sorri, estica os bracinhos e se
joga para a frente, dizendo, pela primeira vez:
Papai!
O dia descamba para o ocaso. Papai Noel, extenuado, ainda está na rua. Porém, agora, com
seu corpo e sua alma invadidos pelo verdadeiro espírito do Natal.
J. Carino (1945), carioca da gema nascido no bairro de
Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao
longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de
cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre
encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo
poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação
literária, transfigurando tudo em observação minuciosa,
inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de
Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com
apresentação de Ruy Castro.
O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.