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Arnaldo Nogueira Jr



J. Carino
Foto de Felipe Carino


Livros

J. Carino


Não é à toa que os combates do mundo nos fazem ansiar para voltar para dentro de nossas quatro paredes, onde uma ilusória sensação de segurança nos aguarda.

Olhando o apartamento agora, não vê seu mundo, não se reconhece nas coisas. E, entre todas as coisas, as que lhe mandam hoje mensagens mais infiéis são seus adorados livros.

Mais do que continentes de palavras e imagens, receptáculos de idéias e explicações, acostumou-se a vê-los como referências físicas, marcos confiáveis num mundo celeremente mutável. Aquela lombada de “Os sertões” é tão familiar e protetora que não se tem necessidade nem de entrar numa luta renhida com a superlativa adjetivação de Euclides; o “Dicionário de Filosofia”, de Ferrater Mora, lança-lhe um olhar amigável, que a livra do medo das imprecisões conceituais de quem se emaranha no cipoal das escolas de pensamento. Aquele Machado, muito lido, traz-lhe a segurança de que alguém pode devassar-lhe a alma de “cara leitora”, expondo por ela as misérias humanas com um cinismo salutar. Pessoa, sentado na tabacaria, a olha com um olhar íntimo de confidente em inúmeras madrugadas. Aqueles livros das crônicas de Paulo Mendes Campos assustam com sua profundidade lítero-existencial disfarçada em comentários sobre o cotidiano.

Agora tudo mudou. Mãos calejadas e insensíveis mudaram seus amados livros de lugar. Já pensaram em Eça dando cambalhota? Já viram Dickens de ponta-cabeça? Que dizer de Shakespeare, chafurdando na poeira? Ou de Balzac, tentando perscrutar a alma de sua mulher de trinta anos enquanto procura em vão se livrar do peso de um manual de literatura? Freud, coitado, parece muito pouco à vontade imprensado entre o narcisismo de Oscar Wilde e o humor inteligente de Mário Quintana, que o olha com seu sorriso maroto, enquanto transfigura o cotidiano em poesia.

Como já sabíamos — e Hollywood nos confirmou — todos temos nossos ângulos mais favoráveis. Um rosto é diferente visto de perfil pelo outro lado. A alma do homem ou da mulher amada não parece se revelar tão bem nesta angulação quanto naquela. Todos temos nossa face oculta, nosso “outro lado da lua”.

Com os livros, é assim também. Revirados, parecem deixar de ser confiáveis, parecem mostrar-se numa inteireza cruel. Mudados de posição, exibem outra personalidade, tornam-se estranhos, ilustres desconhecidos que invadiram nossas estantes e nossas vidas.

Caminha por entre os verdadeiros escombros que restam nessa batalha da reforma que fez soçobrar seu ordenado mundo. Passeio cauteloso, amedrontado. As vozes familiares sussurradas pelos autores ao seu ouvido soam agora estranhas, esganiçadas umas, cavernosas outras; as imagens que sempre lhe surgem no pensamento ao olhar uma encadernação amiga chegam-lhe neste momento distorcidas, quase aterradoras.

Sentada na poltrona de sempre não vê o mundo de sempre à sua frente. Olha seus livros de esguelha; mira-os com um olhar oblíquo — não dissimulado como o de Capitu, mas medroso mesmo.

A madrugada avança. Uma lágrima furtiva ameaça cair, mas recua. Sabe, por certo, que, como em tantas outras madrugadas, não será colhida entre as páginas de um livro, abertas sobre o regaço de uma apaixonada leitora e operosa construtora de sonhos.

Seus adorados livros estão aí e não estão. Quantas vezes correu para suas páginas, sentindo-se como enlaçada por braços amigos: quando um amado ocasional revelou-se pura superficialidade, sem condições de partilhar com ela sua verdadeira e fiel paixão; quando, perdido um emprego, consolou-se do desespero das contas a pagar de imediato refugiando-se entre páginas amarelecidas, mergulhando no verdadeiro mundo, que é feito não de coisas, de pedra, de cal, de gente, de casas, de ruídos, vaidades e mesquinharias, mas da mais pura e inefável imaginação.

Isso: a crueza do trivial representada por uma reforma necessária no apartamento arrombou as portas de seu mundo imaginário, com suas ordenadas sutilezas, que impediam de distinguir com nitidez as fronteiras entre o real e o fantasioso; entrou assim, barulhenta e poeirenta, sem sutilezas, deixando-a à mercê da praticidade exigida no mundo comum a todos; como uma luz forte que dissolve a penumbra, invadiu cada cantinho de seu universo de sonhos.

Uma bebida. Precisa de uma. Levanta-se cautelosa, intimidada, sentindo-se sitiada. Com cuidado, medindo os gestos, olhando à volta com pavor, vai, pé ante pé, localizar a garrafa de uísque. Felizmente, ela está no lugar de sempre – fonte segura de socorro liquefeito – e não parece mirá-la com um olhar desafiante e intimidador.

Gestos medidos, abre cuidadosamente a porta do bar, como um oficiante que abrisse um sacrário. Mas o que retira é um copo bem profano, de vidro barato.

Mais um passo e a pequena geladeira fica-lhe à mão. Sua porta aberta vagarosamente faz com que a luz de seu interior inunde a sala. Porém, fecha-a rapidamente: ao mesmo tempo em que teme a escuridão, fica por ela fascinada; estabelece uma inconsciente comunhão com o mistério do apartamento quase às escuras; atração e repúdio pelo negro quase palpável da sala convivem nela, como sempre conviveram nela todas as contradições.
Pela janela entreaberta apenas uma nesga de luz, sutil, invade o ambiente, o suficiente para fazer brilhar os cubos de gelo que lança no copo, com cautela, enquanto escuta o ruído que fazem ao tocar o vidro, como se resistissem, como se lutassem contra o inexorável destino de derreterem-se, de fundirem-se para gelar a bebida.

O âmbar do líquido fica lindo nesta semi-escuridão. Enquanto olha, distraída, o conteúdo do copo, percebe sua mão tão branca, tão magra, tão trêmula. Vê-se doentia e frágil; sucumbe, sentindo-se abandonada até… por seus adorados livros.

Tateando, move-se com lentidão cautelosa, e desaba na poltrona preferida.
O primeiro gole não é o gole ideal. O gosto ainda parece forte demais; o líquido parece ter arestas que cortam a garganta; a temperatura ainda não é adequada; só depois de alguns goles é que o corpo e o espírito vão se anestesiando, abandonando-se a um gostoso torpor.

Não devia beber; está proibida, mesmo. Dane-se, pensa, já em meio a um embotamento que irá, num crescendo, livrá-la de uma realidade cruel.
Pousa o copo sobre um livro. Não sabe qual é. Uma antiga encadernação em couro mostra-se a superfície ideal: firme, sólida, regular, como uma vida monótona sem sobressaltos e sem sabor.

Livros. Vidas são como livros, pensa, sem pudor de usar a imagem tão desgastada. Sua vida é um livro. História até aqui com início e meio – enredo que aguarda um fim.

Como um livro barato, foi tomada, largada, aberta, fechada. Foi lida superficialmente. Sente que ninguém a leu com profundidade; com o espírito sagaz, a visão atenta que supera a literalidade. Seu enredo intrincado sofreu simplificações, sem que quase nada pudesse fazer. Afinal, nenhum livro consegue realmente sacudir o leitor, fazendo-o ouvir a voz que vem de suas entranhas, revelando-se em sua verdade. Cada leitor constrói o livro que lê; pouco lhe importa saber como esse livro gostaria de ser lido, de ser desvendado.

Diante de parceiros insensíveis, expôs seu corpo-livro completamente, oferecendo-se, esperançosa de uma leitura que pelo menos se aproximasse da íntima e confusa leitura que sempre fez de si mesma. Olhares, mãos e dedos superficiais, conjugaram-se sempre a entendimentos superficiais, ajudando, quase sempre sem querer, a construir um romance do sofrimento.
A noite avança, inexorável como o próprio avançar de sua vida. Em meio ao entorpecimento causado pela bebida, pensa que sua existência – esse livro tão desimportante, tão mal escrito, com tão poucas ilustrações coloridas correspondentes a tão poucos momentos bons — precisa ter seu epílogo. Essa obra pífia, que não iniciou, mas cuja co-autoria assumiu involuntariamente, também está deslocada, mal situada no tempo e no espaço; como seus amados livros estão agora, sua vida deslocou-se da estante do mundo; empoeirou-se com as falsidades; impregnou-se de um irremovível mofo contido nas traições. Muitas páginas estão rasgadas; trechos inteiros tornaram-se ilegíveis.

Levanta-se a custo, tomada por uma ainda leve embriaguez. Anda às apalpadelas, hesitante, num caminhar errante, como sempre andou pela vida. Seus queridos livros parecem ter mergulhado ainda mais na escuridão; nem um só lança-lhe hoje as luzes metafóricas da alegria, da esperança ou até da ilusão sempre encontradas em suas páginas.

A custo, chega à janela; escancara-a e olha a rua lá embaixo, que parece ainda mais distante envolta na real escuridão da noite e na névoa que povoa seu olhar.

Como se pode escrever um epílogo curto, denso, definitivo e que não cause sofrimento nem ao personagem nem ao leitor?

O que acontece a um livro que cai da parte mais alta da estante?


J. Carino
(1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.

E-mail: carino@urbi.com.br

 

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