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Arnaldo Nogueira Jr



J. Carino
Foto de Felipe Carino


Nas entranhas

J. Carino


Só quando desce às entranhas da terra sente as próprias entranhas menos revoltas. Anda pela cidade há anos, com o mesmo paletó amarfanhado, com uma cor indefinida de tão encardido. Há muito tempo anda. Desde que não tem mais ninguém, como resultado da seqüência inexorável: perda do emprego, sem conseguir outro pela condição de "velho" aos sessenta e poucos anos; afastamento do casal de filhos, que foram às suas próprias vidas; falta da briguenta, mas amorosa companheira de muitos anos; pensão miserável — incompreensível e injustíssima retribuição por tantos anos de trabalho árduo e honesto.

Andar, andar, andar. E olhar a cidade. Gosta de ver lugares e pessoas. Hoje só de ver observar. Antes ainda se deixava ficar na barbearia do Neco ou no bar do Arnaldo, ouvindo e às vezes participando das conversas que acabavam perdidas nas lamentações sem fim, na indignação verbal mais próxima do "fogo de palha", ou que descambavam para as piadas chulas e quase sempre machistas, comuns entre velhos solitários cujo sexo transferiu-se apenas para a cabeça.

Sempre gostou de observar rostos. As faces traem inapelavelmente o estado da alma, Olhares perdidos; testas franzidas; cenhos carregados; bocas banguelas; ombros curvados; lábios de onde pendem cigarros vagabundos; narizes pagando o preço da poluição...

Gente apressada ou lerda; gorda ou magra; alta ou baixa. Gosta de ver gente nesse formigueiro humano, nesse tumulto de assustadiços em que a cidade se transformou.

Transformação. Onde o bonde que vinha apinhado rangendo rodas — ferro contra ferro — nas curvas das ruas estreitas? Onde os homens com chapéus, signo do que considerava a maior elegância, a ponto de ainda manter aquele cinza dependurado atrás da porta do quarto onde mora naquela espelunca? Onde o chope gelado, tomado em pé a olhar mulheres que passavam, lindas, finas, deixando à fértil imaginação o que hoje se perdeu na pobreza do explícito?

Vida que há muito não é sua vida vivida, mais vida suportada. Cidade que não é mais sua cidade. Nesse lugar de medo que já passa a pavor não há mais lugar para velhos alquebrados, indefesos ante pivetes, frágeis no corpo para receber encontrões e no espírito para aceitar a sem-cerimônia dos mais jovens e vigorosos.

Agora chega à esquina. Vai se acalmando aos poucos, porque está prestes a descer ao seu mundo novo. 0 progresso tantas vezes abominado, e com razão — também lhe trouxe esse outro mundo, cavado nas entranhas da terra.

Desce com lentidão as escadas do metrô. Na medida em que vai descendo, o mundo da superfície fica para trás, com seus bólidos ameaçadores sobre quatro rodas, com o calor, a barulheira, o empurra-empurra nas calçadas.

Ah, vai sentindo a gostosura do ar condicionado tocando-lhe o corpo, entrando pelas narinas, deixando-o menos fatigado em seu enfisema, herança de fumante de longos anos, hábito prazeroso que também foi obrigado a abandonar há algum tempo.

Aqui há luz, ordem, limpeza. Sua sensibilidade sabe da artificialidade deste oásis submerso. Mas, não há como resistir a esta gostosura.

Passado pela roleta dos idosos, gosta de iludir-se, de pensar que todos o conhecem, que é uma família a recebê-lo: o guarda negro e fortão de sorriso branquíssimo — toda uma África na boca e no cabelo encarapinhado; a moreninha que sempre chega apressada para tomar seu lugar na cabine onde vende bilhetes, que uma vez lhe disse: "Oi, vovô!", com a informalidade inserida num belo corpo de mulher encimado por um rosto de quase-menina; o funcionário magérrimo que parece adorar ouvir a própria voz nasalada ecoando nos alto-falantes.

Há outros membros dessa confraria, como o cego que sempre o impressiona pela desenvoltura com que anda na direção certa, passa na roleta, desce ou sobe as escadas. Ou as três freiras, cujas idades lhe parecem indefinidas, sempre cochichando entre elas, como se detivessem a chave para a salvação desse mundo doido, mas só conseguissem que sua ação chegasse até os sorrisos beatíficos distribuídos generosamente aos circunstantes. Ou ainda o sessentão de cabelos ralos e pintados numa cor avermelhada de gosto duvidoso, com cara e pasta de advogado — uma pasta marrom já gasta e cansada das intermináveis visitas ao fórum, onde ajuda na solução e nas firulas jurídicas que garantem delongas, sem que clientes esperançosos de soluções rápidas sequer desconfiem.

Esses são alguns dos que fazem parte da sua "turma das nove e pouco", como gosta de pensar,

Diverte-se, imaginando-os embaralhados em seus destinos, e até em sua aparência: o advogado, vestido de freira, cochicha com outros três colegas também travestidos e desmunhecantes; as freiras, no fórum, berram diante de juízes atônitos que as vêem também arrancando os crucifixos que trazem ao pescoço e os ameaçando com o fogo do inferno; o cego, de cabelos pintados e vestindo o jaquetão de quatro botões do suposto advogado, reza uma ladainha em pleno saguão, ao mesmo tempo em que recolhe dinheiro dos fiéis ajoelhados,

Gosta também das viagens, essas vertiginosas corridas por túneis escuros que desembocam em estações iluminadas. São como artérias e veias, percorrendo as entranhas de um corpo. À luz artificial dos vagões, todos parecem modificar-se: banhados pela claridade fria, assemelham-se a seres de um outro mundo, embora parecidíssimos com os seres deste, com suas idiossincrasias que acabam por revelar-se a quem deita um olhar mais atento a esses "seres-robôs" em seu vaivém cotidiano na viagem de metrô.

Porém, gosta mesmo é das estações. Quando a composição pára, deleita-se em voltar ao espaço das chegadas e partidas. É aqui, onde destinos se cruzam, que sua observação se aguça. As estações são espaços suspensos entre a vida real, lá de cima, na azáfama da cidade, e a vida de gente conduzida à toda na capilaridade das linhas por debaixo da metrópole.

Viu-a vindo, descendo vagarosamente as escadas, com os ombros curvados como a suportar todo o peso do mundo. Rosto redondo, de pele alva, cabelos brancos, corpo ainda revelando traços da fortaleza de quem suportou muito trabalho e muitas dores, das dores físicas às dores de amor, estas muito mais devastadoras.

Um olhar, Apenas num relance seus olhares se cruzaram, antes que ela abaixasse os olhos (castanhos, negros, verdes?) e seguisse a passos lentos pela estação. Mas, nesse átimo de segundo, viu nesse olhar todo o peso do desencanto, da desesperança. E de olhares, desencanto, desesperança, ele entende.

Seguiu-a com o olhar, sem conseguir despregar os olhos, Aonde iria? Para onde estaria levando seu fardo tão pesado, numa jornada ensimesmada, diferente da dele, que sempre tenta evitar, com um olhar para fora, o cruel e quase insuportável olhar para dentro?

Nunca a vira por ali. Não fazia parte daquela fauna humana que lhe passava diante dos olhos todos os dias, massa indistinta da qual apenas alguns se destacavam merecendo sua atenção.

Hoje é um daqueles dias em que parece impossível lutar contra o vazio, o sem sentido. Por que seguir em frente? Por que permitir a presença diária das suas duas, inseparáveis e invisíveis, companheiras do passeio diário — a saudade e a solidão? Havia dias em que as duas estavam bem pertinho dele, como que encostadas em seu corpo e seguramente abraçando sua alma. Noutros, ficavam de longe, como se velassem e esperassem novamente para se achegar.

0 dia lá fora tinha uma cara ainda indefinida: tímidos raios de sol lutavam e pareciam perder a batalha contra as nuvens quase sempre mais presentes no céu da cidade. Aqui embaixo, o abrigo inalterável, desumanizando as nuances do tempo e da vida; homogeneizando; mergulhando tudo num espaço asséptico, insípido e inodoro.

Esta mesmice confortável atrai quase irresistivelmente. Por que sentir os fedores da cidade? Por que aspirar a fumaça dos carros? Por que expor-se às intempéries meteorológicas e existenciais? Por que voltar ao mundo lá de cima, que revolve as entranhas? Por que não permanecer para sempre nas entranhas da terra... talvez literalmente?

Na confusão da chegada de uma composição mais cheia, perdeu-a de vista. Agora a vislumbra novamente. Meio encoberta por um grupo, lá está, com um vestido de grandes flores azuis sobre fundo branco. Vestido simples, de estampado antigo e comum, mas esconde uma elegância que parece entranhada naquela mulher, a despeito de tudo o que tenha vivido.

"Atenção, senhores passageiros...". A voz do magrelo ecoa pelas plataformas. Ela se move, lenta, penosamente, postando-se bem próximo da linha demarcatória, como se mesmo sem pressa desejasse ser a primeira a embarcar.

Ele não resiste. Gostaria que a timidez contumaz, as maneiras corteses e polidas de sempre — às vezes objeto de escárnio entre os colegas machões e contadores de vantagens — o deixassem se aproximar. Embarcaria. Começariam uma conversa, talvez. Saberia um pouco mais dela, de sua vida. Talvez tivessem em comum as mesmas companheiras diárias de caminhada, quem sabe?

Os olhos dos trens são aqueles faróis. Grandes monstros domesticados pela tecnologia, entram na estação com os olhos de luz amarela. Saem da sombra dos túneis, reduzem sua perpétua corrida e vão parando pouco a pouco, gementes nos sons de freios.

Olha-a novamente. Desta vez os olhares se cruzam outra vez. Naquela fração de segundo, o olhar de melancolia e desesperança gela-lhe o sangue, faz com que as pernas dele, ainda tão fortes para as caminhadas, se tornem bambas. Em segundos, compreende.

Avança. É como num sonho desses em que sofremos desesperadamente tentando sair do lugar sem conseguir; é como num filme em câmara lenta. Tenta gritar, o grito não lhe sai daquelas entranhas ultimamente tão acostumadas ao silêncio, no exercício contumaz e metódico da observação que se mantém alheia, que não deseja a intervenção.

Tudo muito rápido; segundos que parecem uma eternidade. Lança-se com surpreendente vigor, sem consciência de que seu corpo cansado e envelhecido fosse capaz disso.

Gritos, confusão, corpos no chão. Um baque surdo. A dor num braço certamente partido. Gente em volta. Vozeio confuso no qual distingue "É louco”, “Coitado", "Guarda! guarda", "Ela ia se jogar".

Vai recobrando a normalidade de seus sentidos. Braços e pernas enrodilhados numa posição que lhe parece ridícula ali no meio de todos. Abre bem os olhos e repara: os olhos dela são castanho claros.

Na enfermaria da estação, está sentado num branco frio, com um braço imobilizado. 0 guarda negro e forte, de braços cruzados sobre o peito e dentadura alva como neve lhe abre um sorriso, dizendo: "Valeu, vovô! Tinha um cara do jornal aí. Acho que você vai virar herói na primeira página”.

Uma porta lateral se abre e ela aparece amparada por uma funcionária com um sorriso bonachão cheio de covinhas num rosto redondo de mulher gordinha.

Ela tem seu vestido azul levemente manchado de sangue e um grande curativo num dos joelhos, além de um esparadrapo no lado direito do rosto. Olha-o com um olhar misto de surpresa e gratidão,

É possível vê-los subindo a escada enquanto conversam, tímidos, envergonhados mesmo. Muita coisa para falar; muita vida que deseja ser contada. Muita ânsia de companhia, de convivência mergulhada em afeto, quem sabe para sempre.

Aos poucos, deixa as entranhas da terra. Aquela mão delicada apoiada em seu braço parece ter estado esperando para pousar ali. Aos poucos, o barulho da cidade, o ar poluído entrando nos pulmões, o calor invadindo o corpo...

Falam, falam. E olham ambos para cima. Um sol a pino num céu azul venceu todas as nuvens cinzentas.

Começam a chegar lá em cima, no topo da escada — duas figuras um tanto lentas, um tanto trôpegas, com passos ainda inseguros. Duas belas e dignas silhuetas contra uma ofuscante claridade do dia.

Saindo das entranhas da terra, sente que o mundo cá de cima, a vida de hoje e o futuro já não lhe revolvem como antes as entranhas.


J. Carino (1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

O conto acima foi um dos premiados entre os cerca de 900 trabalhos que concorreram ao "1º. Concurso Paulista de Contos e Poesias promovido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – METRÔ da cidade de São Paulo", tendo sido publicado no livro “Contos e Poesias – A literatura nos trilhos”, editado pela IBRASA – Instituição Brasileira de Difusão Cultural – São Paulo, 2002, pág.85.

Nossos parabéns ao amigo
J. Carino, velho colaborador do Releituras.

E-mail: carino@urbi.com.br

 

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