Cordel do bom Malaquias, "paulisteiro" ou "mineirista"


J. Carino


Do mineiro Malaquias,
esta estória vou contar.
Veio cedo pra São Paulo
procurando trabalhar.
Aqui construiu a vida.
Como foi? Vou relatar.


Em São Paulo a vida inteira,
esse filho das Gerais
foi pedreiro, motorista,
camelô e coisas mais.
Enricou, venceu na vida
sem se acovardar, jamais.


Malaquias, bom mineiro,
virou paulista também.
Agüentou as gozações,
daquelas de comprar trem.
Nunca fez um inimigo,
nunca fez mal a ninguém.


Dos seus tempos sem dinheiro
tem lembrança bem guardada:
dos seus passeios de bonde,
feitos c’o a rapaziada.
Desde a Sé a Santo Amaro…
Êta saudade danada!


Lembra da cidade antiga,
ainda com pouca gente.
Dos prédios em construção…
De uma vida diferente…
Quase vida sem maldade,
quase só gente contente.


Aqui conheceu Maria.
Aqui o amor bateu forte.
Mulherzinha destemida,
uma flor vinda no Norte.
Com ela fez sua vida,
criou filhos, teve sorte.


Muita gente gostaria
de ver aqui outra vez:
O Juca da Padaria,
Kashimura, o japonês…
Zé do Brás, barbeiro amigo,
de quem foi sempre freguês.


Ah, as tardes de domingo,
do futebol, da sinuca,
das serenatas no Brás…
A saudade lhe cutuca
c’o espinho do nunca mais,
pondo o peito em arapuca.


Malaquias, muito esperto,
chegou aqui sem tostão.
Trabalhou como pedreiro.
Fez muito calo na mão.
Construiu prédios bonitos,
morando num barracão.


A vida na malandragem.
podia ter entortado.
Preferiu ficar honesto,
preferiu o outro lado.
Nos momentos de sufoco,
podia até ter roubado.


Por estar sem documento,
foi preso só uma vez.
Mesmo tendo se explicado,
foi levado pro xadrez.
Pobre e sem advogado,
ficou preso quase um mês.


Tava quase desistindo
de São Paulo, certo dia.
Mas o destino traçado
logo mostrou que não ia.
E, num dia abençoado,
ganhou seu amor: Maria.


Essa mulher arretada,
essa flor vinda do Norte,
se chegou na sua vida,
se juntou à sua sorte.
E essa coisa bem juntada
só se separou na morte.


O mineiro Malaquias
trabalhou de motorista.
Nas estradas do Brasil,
que a gente perde de vista,
comeu muita da poeira,
correu por tudo que é pista.


Maria ficava em casa,
quase sempre barriguda.
Trabalhando de empregada,
nunca lhe negou ajuda.
Deu pensão, lavou pra fora,
fez de tudo essa miúda.


Os filhos foram chegando:
Malaquias, Beto, Lia,
José, Ladislau, Fernando,
Mário, Rita e Luzia.
E a caçula, seu xodó,
c’o nome da mãe: Maria.


Mineiro trabalhador,
agarrado no volante,
Malaquias dava duro
numa labuta constante.
O dinheirinho pingava,
mas nunca era bastante.


Ter seu próprio caminhão,
Malaquias desejava
O lucro era do patrão,
assim como ele estava.
Mas Deus ia dar um jeito.
Malaquias confiava.


Numa noite bem escura,
c’o céu parecendo breu,
Malaquias viajava
e o milagre aconteceu.
Vamos ver na nossa estória
o que foi que assucedeu.


No meio de muita chuva,
pros lados de Lumiar,
Malaquias viu um carro
com as quatro rodas pro ar.
Parou, correu pela estrada,
pra aquela gente ajudar.


Ninguém morreu, felizmente,
socorridos com amor.
No carro, era gente rica,
uma senhora e um senhor.
Ele era industrial,
pai de um grande senador.


Por esse gesto tão nobre,
Malaquias nada quis.
Era só um homem pobre,
mas mesmo assim bem feliz.
O doutor insiste, insiste
e a certa altura lhe diz:


— Malaquias, meu amigo,
homem de bom coração.
Ouça bem o que lhe digo:
considere a gratidão.
Vou lhe emprestar o dinheiro
pra comprar um caminhão.


Com a ajuda do doutor,
o caminhão foi comprado.
Foi pago cada tostão
do tal dinheiro emprestado.
Depois desse caminhão,
o rumo tava traçado.


A frota foi aumentando,
e Malaquias na lida.
Estrada e muito trabalho:
essa era a sua vida.
Foi chegando, pouco a pouco,
a riqueza merecida.


Mas, na vida, a gente sabe
que nem tudo aqui são flores.
Nem tudo sempre deu certo.
Malaquias sofreu dores.
Teve um filho assassinado,
morto por dois malfeitores.


Na vida comercial,
Malaquias só deu sorte.
Em pouco tempo já tinha
sua empresa de transporte.
Pegava cargas no Sul
e levava até o Norte.


Outros negócios montou:
três postos de gasolina;
comprou um supermercado
na cidade de Andradina;
e também uma fazenda
pros lados de Planaltina.


Malaquias comprou coisas
lá pros lados das Gerais.
Plantou café em Sobrado
e soja em Silveira Pais.
Cada negócio comprado,
ele enriquecia mais.


Malaquias ficou rico,
mas jamais ficou posudo.
Ajudava a quem podia,
partilhava quase tudo.
E sempre foi bonitão,
alto, forte e bigodudo.


Quando fez 50 anos,
deu uma grande festança.
Todo mundo, riu, dançou.
Todo mundo encheu a pança.
Malaquias adorou;
parecia uma criança.


Com sessenta repetiu
a dose com outra festa.
Esta em Minas, sua terra,
na cidade de Floresta.
Malaquias, de pileque,
até cantou na seresta.


Reencontrou seus parentes,
gente velha e gente nova.
Foi muito homenageado.
Até lhe fizeram trova.
Ganhou um boizão parrudo
com u’a mancha na corcova.


Entre Minas e São Paulo,
construindo sua vida,
Malaquias viveu sempre
nessa sorte dividida:
“paulisteiro” ou “mineirista”?
Êta coisa mais sofrida!


Paulista por adoção,
sem deixar Minas de lado.
Pode-se ter dois amores…
É só viver com cuidado.
Malaquias “paulistou-se”,
mesmo amando o seu Estado.


Nem só de luta e trabalho
viveu Malaquias, gente.
Mesmo depois de enricado,
continuou diferente.
C’os ricos, contrariado;
com a gente pobre, contente.


Mesmo com muito trabalho,
todo dia, sol a sol,
Malaquias se manteve
adorando futebol.
No gol, seu peito explodia
como fogo no paiol.


Foram entrando nos negócios
seus filhos, todos formados.
Engenheiros, professores,
vários como advogados.
Dava emprego pra seus filhos,
inda evitava os safados.


Passear pela cidade
de bonde, gostava à beça.
Lembrando de quando a vida
era só uma promessa.
Ia pra lugar nenhum,
sem ter destino e sem pressa.


Ah, São Paulo, quantos bairros!
São Mateus, Tucuruvi,
Santo Amaro, Jaraguá.
Penha – morou aqui.
Pirituba, Parelheiros,
Sapopemba e Anhembi.


Moca e Lapa, quanta farra…
Campo Limpo e Butantã.
Tremembé e Jabaquara.
Itaquera e Jaçanã.
Ah, cidade do progresso!
Ah, cidade do amanhã!


Viu muita casa cair,
muito prédio aparecer.
A poluição chegar.
Muita árvore morrer.
Viu São Paulo, sobretudo,
crescer, crescer e crescer.


Hoje, sentado na Praça,
lembra amigos do passado:
Chico Alonso, “Pé-de-couve”,
Tonho, Jorjão e Calado.
Muitos, sem dar nem aviso,
viajaram pro outro lado.


Levanta logo do banco.
Hoje a coisa é diferente.
Um velho em banco de praça,
vendo o passado de frente,
é alvo muito adequado
de quem vem e assalta a gente.


Quanta pobreza, meu Deus,
em meio a tanta riqueza.
No farol, crianças pedem
comida, em sua magreza.
Ricos exploram os pobres.
Meu Deus, quanta malvadeza!


Malaquias correu mundo,
mas só fez isso uma vez.
País melhor que o Brasil,
o bom Deus nunca que fez.
Tem serra, tem mar, tem rio,
tudo ao gosto do freguês.


Já no Brasil, viajou
por cá, por lá, por ali.
Cidades grandes, pequenas,
viu de tudo por aqui.
Percorreu o Brasilzão,
do Oiapoque ao Chuí.


Ocorreu um episódio
que precisa ser contado.
Malaquias, viajando,
na chuva, meio atrasado,
tombou seu carro na estrada,
rodas pro céu, revirado.


Preso no carro, na chuva,
mas sem muito ferimento,
Malaquias pensou muito
no outro acontecimento.
Toda a vida num segundo
passou no seu pensamento.


Como obra de algum santo,
ou de Deus, que é brasileiro,
surgiu logo um camarada
pra ajudar, nesse aguaceiro.
Do carro foi retirado
por um bom… caminhoneiro.


Muito, muito agradecido
a quem lhe estendeu a mão,
Malaquias fez o mesmo
que alguém fez há um tempão:
deu dinheiro a esse homem
pra comprar seu caminhão.


Metido em tanto trabalho,
nessa vida atribulada,
Malaquias sempre teve
saúde bem regulada.
Mas, agora, paga o preço
com essa idade avançada.


Mantendo-se sempre alegre,
com um jeito todo seu,
Malaquias, descuidado,
tomou um susto e aprendeu.
Passou mal, foi socorrido,
enfartou, quase morreu.


Desse dia em diante,
mudou seu jeito de vida.
Diminuiu o trabalho,
tem cuidado com a comida.
Até passear consegue
nessa cidade querida.


Sempre que pode, sai cedo
sem ligar pra onde vai.
Certos dias vai mais longe;
outros de perto não sai.
Vai andando e recordando…
Às vezes suspira um “Ai!”.


Maria saiu do mundo,
morreu dando-lhe um sorriso.
E Malaquias pensou:
Viver mais, não é preciso.
Vou já me encontrar com ela.
Deve estar no paraíso.


Mas, Maria veio em sonho
e lhe disse, com carinho:
Meu querido, meu Malaca,
fique aí mais um pouquinho.
Seus netos ainda precisam
contar com o seu avozinho.


Desde esse dia em diante,
Malaquias, confortado,
resolveu não chorar mais.
E a tristeza pôs de lado.
Mas o amor por Maria
tem no peito aconchegado.


Depois que se aposentou,
não fica nunca parado.
Pra não ficar rabugento.
Se mantém sempre ocupado.
Não quer ficar remoendo,
só lembrando do passado.


C’o dinheiro acumulado,
ajuda velho e criança.
Um asilo construiu
para idosos em Bragança.
E mantém dezoito escolas,
apostando na esperança.


Seus netos são sua vida,
sua luz de todo dia.
Mariana, José Pedro,
Roberta, Cíntia e Luzia.
Felipe, Miguel, Marcelo,
Malaquias e… Maria.


A vida passou ligeira.
Malaquias fez oitenta.
Por causa da tal artrose,
uma bengala o sustenta.
Mas, pra brincar com os netos,
seu corpo velho ainda agüenta.


O mineiro Malaquias
não volta pro seu Estado.
Mantendo Minas no peito,
por São Paulo é apaixonado.
Quer ficar aqui pra sempre.
Aqui quer ser enterrado.


O bonde, boa lembrança,
da cabeça não lhe sai .
Roda de ferro no trilho,
cobrador no estribo vai…
Do bonde da linha “Tempo”,
quem tem cuidado não cai.


Mas, no coração mineiro
— e coração nunca erra —
um bonde novo anda agora
e na memória se encerra.
Seu nome? É Metrô, uai!
E anda no fundo da terra!


J. Carino
(1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

Com o cordel acima e sob o pseudônimo de "Sabiá da Serra", Carino concorreu ao "2º Concurso de Literatura de Cordel", promovido conjuntamente pelo Metrô e pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) de São Paulo, realizado em 2003. É sua primeira experiência nesse gênero. O trabalho nos foi enviado diretamente pelo autor.

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