O alvorecer das trevas
J.
Carino
Uma lúgubre sombra desce sobre tudo, cobre ruas, invade casas, penetra até o recôndito
das almas.
A cidade já anda mergulhada num clima de tristeza, numa imensa nostalgia de luzes.
O brilho dos néons já não se reflete nas poças, onde aquele bebum urinava e sonhava
sonhos embotados, com o olhar perdido no letreiro mergulhado na água em pleno chão da
praça.
Que será do marechal — condenado a ficar empertigado por toda a eternidade
— sentado
sobre seu cavalo no jardim público deserto? A patética figura, mergulhada em escuridão,
não poderá exibir o brilho falso de suas medalhas.
O gato vagabundo não poderá ver mais, por entre seus bigodes retorcidos, a silhueta da
gata vadia que mexe com suas entranhas, que agita suas sete vidas.
O casal chique não pode mais andar, depois da festa, por medo do escuro, pelas vielas do
centro da cidade — ela de longo amarfanhado, ele de smoking — curtindo um pilequinho, na
direção do carro último modelo, e olhando de cima e com desdém os mendigos que dormem,
sob o viaduto, o sono dos justos no país das injustiças.
Na beira da praia, os jovens enamorados enrodilhados em bancos no calçadão não terão
mais o romantismo da contraluz. Estarão condenados à crueza da escuridão total
— tão
almejada, mas redutora do amor ao tato, ao cheiro, ao som, impedindo o gozo do olhar.
Hoje, o medo já corre nas veias; o prazer de sair converteu-se numa perigosa aventura.
Nas casas, não há como aproveitar o tépido langor das chuveiradas quentes; a comodidade
instantânea do que se aquece no micro-ondas; o tributo a madeixas bem cuidadas com o uso
demorado do secador de cabelos.
Dentro das áreas de serviço, cuidadas pelas domésticas domesticadas pelo cansaço, não
se pode mais ouvir o ruído surdo das máquinas de lavar fazendo rodopiar, em seu ventre,
as roupas sujas da família.
Na cozinha, a torradeira — condenada à inatividade — não fará mais saltar a fatia de
pão para a alegria do café da manhã. Ao seu lado, a geladeira ronrona surdamente, como
que envergonhada de sua condição de última máquina em atividade.
Nos prédios de apartamentos, as escadas convertem-se em lúgubres e negros abismos. Nos
escritórios, burocratas estragam os olhos em ambientes mal iluminados. Nas avenidas, o
uma-sim-uma-não das luzes apagadas parece uma boca fantástica com falhas de dentes,
projetada no negro do asfalto.
No fim da tarde, empobrece-se o espetáculo das luzes que despedem o dia e convidam para o
show da noite.
Tudo mergulha numa sombra angustiante. Vai-se a luminosidade, vem o negrume, que não
reflete nada mais — nem o brilho dos olhos dos amantes. O feérico cede lugar a uma
claridade mortiça, necessária mas intolerável.
É como se um criador — demiurgo às avessas — com supremo poder e ironia decretasse numa
voz cavernosa que vem do fundo dos tempos:
— Façam-se as trevas!
J. Carino (1945), carioca da gema nascido no bairro de
Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao
longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de
cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre
encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo
poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação
literária, transfigurando tudo em observação minuciosa,
inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de
Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com
apresentação de Ruy Castro.
O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.
E-mail: carino@urbi.com.br
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