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Arnaldo Nogueira Jr



J. Carino
Foto de Felipe Carino


O alvorecer das trevas

J. Carino


Uma lúgubre sombra desce sobre tudo, cobre ruas, invade casas, penetra até o recôndito das almas.

A cidade já anda mergulhada num clima de tristeza, numa imensa nostalgia de luzes.

O brilho dos néons já não se reflete nas poças, onde aquele bebum urinava e sonhava sonhos embotados, com o olhar perdido no letreiro mergulhado na água em pleno chão da praça.

Que será do marechal — condenado a ficar empertigado por toda a eternidade — sentado sobre seu cavalo no jardim público deserto? A patética figura, mergulhada em escuridão, não poderá exibir o brilho falso de suas medalhas.
O gato vagabundo não poderá ver mais, por entre seus bigodes retorcidos, a silhueta da gata vadia que mexe com suas entranhas, que agita suas sete vidas.

O casal chique não pode mais andar, depois da festa, por medo do escuro, pelas vielas do centro da cidade — ela de longo amarfanhado, ele de smoking — curtindo um pilequinho, na direção do carro último modelo, e olhando de cima e com desdém os mendigos que dormem, sob o viaduto, o sono dos justos no país das injustiças.

Na beira da praia, os jovens enamorados enrodilhados em bancos no calçadão não terão mais o romantismo da contraluz. Estarão condenados à crueza da escuridão total — tão almejada, mas redutora do amor ao tato, ao cheiro, ao som, impedindo o gozo do olhar.

Hoje, o medo já corre nas veias; o prazer de sair converteu-se numa perigosa aventura.

Nas casas, não há como aproveitar o tépido langor das chuveiradas quentes; a comodidade instantânea do que se aquece no micro-ondas; o tributo a madeixas bem cuidadas com o uso demorado do secador de cabelos.

Dentro das áreas de serviço, cuidadas pelas domésticas domesticadas pelo cansaço, não se pode mais ouvir o ruído surdo das máquinas de lavar fazendo rodopiar, em seu ventre, as roupas sujas da família.

Na cozinha, a torradeira — condenada à inatividade — não fará mais saltar a fatia de pão para a alegria do café da manhã. Ao seu lado, a geladeira ronrona surdamente, como que envergonhada de sua condição de última máquina em atividade.

Nos prédios de apartamentos, as escadas convertem-se em lúgubres e negros abismos. Nos escritórios, burocratas estragam os olhos em ambientes mal iluminados. Nas avenidas, o uma-sim-uma-não das luzes apagadas parece uma boca fantástica com falhas de dentes, projetada no negro do asfalto.

No fim da tarde, empobrece-se o espetáculo das luzes que despedem o dia e convidam para o show da noite.

Tudo mergulha numa sombra angustiante. Vai-se a luminosidade, vem o negrume, que não reflete nada mais — nem o brilho dos olhos dos amantes. O feérico cede lugar a uma claridade mortiça, necessária mas intolerável.

É como se um criador — demiurgo às avessas — com supremo poder e ironia decretasse numa voz cavernosa que vem do fundo dos tempos:

— Façam-se as trevas!


J. Carino
(1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.

E-mail: carino@urbi.com.br

 

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