Água alienígena

J. Carino


Chegou cansada da lida. O calor incomum daqueles dias fizera estragos: roupas empapadas de suor; o perfume caro e sedutor vencido pelo cheiro agridoce das emanações orgânicas; cansaço e calor unidos numa conspiração invencível.

Ah, quem dera agora água. Incolor, fresca, inodora, com a humildade dos elementos simples. Água comum, sem a arrogância dos líquidos complexos, compostos de tantas químicas, de tantos extratos e substratos. Água da bica, fresca e boa, com a bondade das coisas que queremos muito.

Os movimentos lentos e penosos do despir-se são acompanhados de pensamentos lentos. A infância volta com força trazendo as férias na roça. Cidade pequena e um nada fazer constante. Cidade feita de tagarelices e de cheiros: cheiro de mato, de fumaça, de leite saído direto da vaca. E cheiro de água.

Água cheira? pensa. Se não cheira, que cheiro é esse, brotando, mais que do fundo da alma, atravessando todas as camadas edipianas, se entranhando em todos os complexos, contaminando todas as neuroses? Mais que de água, cheiro de umidade que antecipa a água, qual trombeta desafinada anunciando a água benfazeja, água como aquela que descia a cântaros pelos barrancos na cidadezinha miúda de sua infância.

Se a água é boa, a umidade tem a sutileza dos grandes males. Não se mostra, se insinua; não se expõe banhando, se imiscui, umedecendo.

Barulho de água. Borbulhante, corajosamente cantante. Ecos remotos de cachoeiras do passado, sons de córregos em fundos de quintal, pequenos riachos galantes lambendo, com lascívia, branquinhas e orvalhadas flores de lírios.

Abandona-se ao cansaço e às lembranças. Sem pressa, desaba seminua sobre uma cadeira e antegoza o momento do prazer da água em contato com a pele. Por sobre essa mesma pele passaram as águas da infância e mãos de amantes, fazendo desse limite do corpo um repositório de lembranças, qual nervo exposto a sensações de prazer e de angústia. As águas — carícias líquidas — levaram tudo: a sujeira da ingratidão, o encardido da desconfiança, a lama das traições… Pés descalços, sente a umidade em contato com o corpo. Mais que no corpo, sente-a na alma, sente-a invasiva — infernal e deletério vapor de água que lhe embota os pensamentos.

De onde vêm essas sensações? Que mistério lhe desperta lembranças, inundando o espírito, e lhe toca a pele, umedecendo o corpo? Que sutis e etéreas emanações serão essas?

Tudo lhe poderia passar pela mente, menos o prosaico, que é cruel porque desperta de sonhos e aborta viagens vertiginosas pelos espaços infinitos das lembranças. O prosaico é o fel dos sonhadores — pensa —, e sorri levemente de sua filosofice. A contragosto, descerra os olhos. Seu cabisbaixo olhar vê os próprios pés: dedos finos e longos, terminados na vermelhidão contrastante de unhas pintadas. Pés brancos de veias azuis e ossos salientes, qual debochada resistência a qualquer harmonia.

Em torno dos pés, seu olhar preguiçoso vê o desbotado azul do carpete.

Susto e raiva. Eis aqui a forração se transmudando num azul profundo que lhe faz chocar-se com a crueza do prosaico: umidade, água, chão encharcado. Vão-se os sonhos, as lembranças, as fantasias.

Levanta-se de um salto compreendendo tudo. Corre à área de serviço. Do teto, arrebentado qual pele que cobre purulentas feridas, cai água. Uma água alienígena cai do céu do vizinho para o inferno de sua vida.

Volta à sala, desaba no sofá como uma triste e abandonada boneca de pano que a vida, essa menina travessa e inconseqüente, joga de lado após a brincadeira.

Chora, primeiro em seco, contidamente. Chora, depois, em convulsões, sacudindo um corpo moído de cansaço.

Chora, e de seus olhos caem lágrimas… água.

Maldita ironia.



J. Carino
(1945), carioca da gema nascido no bairro de Cordovil, é professor universitário aposentado de filosofia. Ao longo de toda a vida, em meio ao cotidiano de aulas, coordenações de cursos, orientações de alunos e à faina das pesquisas, sempre encontrou tempo para escrever. Seus textos precisos e ao mesmo tempo poéticos, combinam a racionalidade filosófica com a magia da criação literária, transfigurando tudo em observação minuciosa, inventividade e lirismo. É autor do livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro intitulado “Olhando a Cidade & Outros Olhares”, com apresentação de Ruy Castro.

 O trabalho acima nos foi enviado diretamente pelo autor.

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