Zicartola
Recordações de uma Casa de Samba

João Antônio


Com licença. Vou me valer dos poetas, essa gente rara e bem topada.

A filosofia, neste século, já recomendou que a essência da arte é a poesia e a essência da poesia é a instauração da verdade.

E se Mário Quintana cantou:

“Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha..."

também cantou Nélson Cavaquinho:

"Mas o sambista vive eternamente
No coração da gente".

A roda reunida no segundo pavimento do velho casarão da Rua da Carioca boquejava boatos num à-vontade macio, enquanto rolavam cachaça e cerveja gelada nos intervalos dos números musicais. Falou-se, que me lembro, de um patriarca de Madureira, vida de murros e porradas, Natal da Portela. Que teria dito:

— Você não canta mais aqui. Você é feio demais, canta feio e espanta os turistas.

Claro que era uma suposta intimação de Natal da Portela ao sambista Joãozinho da Pecadora, autor de um partido-alto proibido pela censura que dizia:

"Foi mulher de deputado
Pouco antes de ser minha
De autores laureados
E de um oficial da Marinha”.

Natal surpreendia os distraídos e bisonhos, inda mais nas entrevistas. Numa delas, por aquele tempo, lhe perguntaram como é que se sentia como bicheiro. Contraventor do jogo do bicho. Ele bateu:

— O samba deve muito à minha profissão e se eu quisesse ser senador da República teria sido.

Esse lero assim aceso, sapecado de picardia, catimbado, corria nas noites do Zicartola, casa de samba da Rua da Carioca, chamado "Templo do Samba" nos cinco primeiros anos da década de sessenta.

Havia a mulata Vitória que, quando cantava, fazia a cozinha parar.

Havia Nilo Bom Cabelo trazendo Chico Alves e os barcos perdidos e os faróis da alegria (1).

Inda mais: havia Cartola. Era um alma boa, nascido e criado nas rodinhas, forjado no samba, pelo samba, na pureza, sem maiores embelecos. Pontificava havia já uns trinta anos. Tinha no espírito alguma coisa daquela renúncia rara da música pela música, coisa não aprendida em bancos escolares, e sem objetivos outros — viver na sua reserva de sonhos.

Compunha porque gostava. Isso era tudo. Como era da Manga compunha para a Mangueira. A escola saía à avenida, anos e anos, cantando ritmos de Cartola. Muita vez, o crioulo de nariz de couve-flor — a evidenciar um entornador de cachaça — foi premiado nos carnavais. Querido, cortejado, admirado no meio das escolas todas.

Bom, lá de dentro, lá no íntimo. Sensível, dolente, harmônico, humano, musical. Tinha uma linha melódica rica e própria, agradava em cheio. Diferente de um talento desnorteante como o de Nélson Cavaquinho, diferente do desvario e do ímpeto de Geraldo das Neves. São exemplos. Cartola sempre fez a sua coisa, independente e, assim, fazia a noite de qualquer um, com suas músicas contando seus casos, no rebolado da conversa jeitosa. Era nobre na sua singeleza. Vamos dizer. Suas peças teriam o fascínio deslizante e o desenho dos movimentos de um mestre-sala, quando em quando, em câmara lenta. E um papo e tanto, na batida calejada e nas implicações da malandragem.

Amou Zica, cabrocha lá da Estação Primeira, com ela vivendo já não se sabia mais há quanto tempo. Havia gente que falava, por baixo, baixo, que aquela união tinha uns vinte anos. Zica era cabrocha de molejo, jogo de cintura, cozinheira cutuba. Tempero de rainha. Porreta.

Quem comeu um feijão de Zica, no Morro de Mangueira, não esquecerá tão cedo. Havia nele o dom mágico de fazer riqueza da coisa pobre, havia nele mãos de propriedade, sabedoras.

Zica pinta na vida de Cartola não como primeira mulher. O mestre de Mangueira teve outros amores e, pelo menos, um grande ("Tive sim"). O samba "Divina dama" (que Zica detestava, enciumada) é anterior a ela.

Tudo isso é papo de candinha faladeira. Zica pintou no pedaço e Cartola amou Zica. Pronto. Aquele lero de João e Maria.

Bem. Resolveu o sambista Cartola aproveitar comercialmente os dotes seus e de Zica. Abriu uma casa de samba, de comes e bebes. Chamou-a Zicartola. A mulher providenciava os comes. Ele fazia escorregar os bebes, com sua conversa, seus casos, sua música, sua charla. Era bom, era gente, era muito morro. Tinha fricote, não; não tinha quiquiricagem. Ambiente pra lá de gostoso.

Cartola foi isso, no começo. E assim era o Zicartola.

A ambiência da casa de samba estava disposta na base de proporcionar autênticos contrastes fotogênicos. Aquelas paredes apenas poderiam abrigar cantores e poetas do povo. A iluminação não lembrava nada que parecesse boate. A excelência dos trabalhos de Heitor dos Prazeres — o traço preto sobre fundo branco e amarelo — fazia desfilar pelas paredes do Zicartola um bom bocado. Lindas pastoras, passistas esguios e safos, porta-estandartes rodopiantes. Uma carioquice dosada e bom em termos de samba, africanidade, carnaval.

Era o Zicartola ainda do sambista Jorge dos Cabritos que, além de bom, trazia consigo, dando de lambujem, alguns companheiros lá da Portela e da Mangueira.

Se Nélson Cavaquinho cantava, excelia. E Manuelzinho da Flauta serelepava no tablado. O regional atacando de "Trem das onze", do admirável e universal Adoniran Barbosa, que o Rio de Janeiro soube prestigiar.

Mas baixou fariseu na jogada. Os "cronistas" da noite , os falsos escribas, descobriram o Zicartola. Então, os bem-comportados lambuzaram a casa de samba da Rua da Carioca. E acabou-se.

Não mais a onda gostosa do samba pelo samba, conversas maneiras e cabrochas aparecendo sem compromisso, na base do chega pra cá. Desmoronou-se o ritmo calmo, mataram a chegança, emporcalharam o pedaço. Os bem-comportados, os festivos, os "politizantes" e os "participantes", os sabidos da classe média começaram a freqüentar. Invadiram, encheram tudo. O aperto do espaço, que era íntimo e quente, ficou chato e incômodo. Passou a ser bem fazer a noite no Zicartola.

Aí, os ares mudaram e ficou ruço. Em lugar do cheirinho gostoso das cocadas suado no repinicado do samba quente, havia perfume francês e uísque. Tudo passou a exibicionismo estereotipado, bestices do tipo pra turista ver. Falso, truncado, comercializado. Vendável e vendido. Cego de um olho, capenga de uma perna, furado, contrafação, joguinho de interesses. Conversa de Cartola, agora, era cheia de dedos, dosada conforme a importância social do freguês. Uma falência.

A ratatuia (2) de falsos sabidos levou o seu populismo a ponto extremo. Conseguiram até, olhem só, armar o casamento de Cartola e Zica. Os dois haviam vivido, até ali, por mais de quinze anos e, no caso, foi uma presepada dispensável. Mas os bem-comportados da classe média acharam que não era bem apreciar e relacionar-se com um casal amigado. Então, forçaram a barra e, mais uma vez, cantou-se acima do tom. E o casal, no despreparo para a situação, resolveu dar uma satisfação às rodas de novatos que se meteram no Zicartola.

Pegou bem, já que deu reportagem em segundo caderno das folhas da imprensa chamada de grande. Pegou mal e atravessado — camaradinhas decentes entenderam tudo e houve constrangimentos. Afinal, casar para dar satisfação aos outros, a uma corriola mal chegada, de novo... Zica e o sambista Cartola estavam cercados por uma parranda da Zona Sul, uma gente colonizada, entre babaquara e deslumbrada e sem emulação cultural nenhuma. Esses sujeitinhos eternamente na moda e que sequer conhecem a diferença entre um pagode e um gurufim (3). A mesma cambada de bobalhões perniciosos que, hoje em dia, por um nada, vive dizendo: "a nível de".

Mais fizeram. Trataram de convencer Cartola a fazer uma operação plástica no nariz couve-flor. Também deu reportagem.

Antes de desmoronar, o Zicartola dava saudade prévia. Não era mais o Zicartola de Zica e Cartola, de Nélson Cavaquinho, de Geraldo das Neves, do serelepe Manuelzinho da Flauta, pulando e repulando no tablado com seu requintadíssimo instrumento importado de Paris na mocidade. Também não era mais de Preto Rico, todo vestido de verde, sapatos brancos carregando as quebras de corpo e cujos sambas falavam da Vista Chinesa (4) e de Maria. Especialmente uma. A da Glória.

O Zicartola dos últimos anos já não tinha a presença lá atrás do microfone, de um papagaio cuja função era malhar uns gritos roucos quando a turma saía do ritmo ou perdia um pouco o rebolado, cantando ou tocando feio. A gente não o via, que a ave se escondia lá no seu canto. Escondidinho no seu mocó de papagaio. Mas os gritos chegavam até as mesas da gente.

— Cartola, Cartola, Cartola!

Para encurtar conversa, já em 65, a gente decepcionada saía da casa de samba e ia tomar um conhaque lá na Praça Mauá, num botequim xexelento, cheio de marinheiros estrangeiros, tatambas no falar, se mexendo nas caras vermelhas, mais vermelhas de bebida entre marafonas caxinguentas. Ficávamos lá pelo frege onde, pelo menos, não tinha fricote de perfume francês ou uísque falso e as criaturas eram definidas — mulher era mulher, homem era homem e até os invertidos do amor eram viventes mais respeitáveis.

Não havia flosô. Queimava-se o pé (5) na cana, na uca, na cerveja, no chope, no conhaque. Pronto. O povo da nossa terra diz que o que não tem remédio, remediado está.

Morreu o Zicartola, das cores de Mangueira e de todas as outras escolas. Puro e bom, não havia mais.

Depois, anos depois, Angenor de Oliveira aconteceu à grande, quando versejou que as rosas podem roubar o perfume de uma mulher e entregá-lo todo à sensibilidade de um poeta (6).

Cartola soube embalar corações. Sua obra é um hinário, lances sublimes. Em marras de malandragem e em assunto de coração era professor, tinha um quê inexplicável também chamado talento. Ele tinha uma relação de vida com o samba e não uma aflição artística. Uma lástima que o país o tenha reconhecido com quatro décadas de atraso.

Mas o Zicartola. Às vezes, hoje em dia, a gente ainda goza de alguns momentos de completa liberdade e a casa de samba nos renasce no coração. Em cada pagode que o Rio ainda sabe fazer nos fundos de seus quintais da Zona Norte, na beleza indizível de cada partido-alto e nessa coisa tão espontânea que é o nó que as mulheres do samba dão nas cadeiras!


(Junho de 1989)

(1) Referência a um samba de autoria de Nilo Bom Cabelo, em que ele imitava a voz de Francisco Alves.

(2) ratatuia = corja, bando; gente mal-intencionada.

(3) gurufïm = ,passatempo praticado durante os velórios de pessoas queridas (com jogos do anel e de adivinhações), típico dos morros do Rio de Janeiro.

(4) Vista Chinesa = ponto turístico na serra do Rio de Janeiro, com um quiosque em estilo chinês, e de onde se avista a baía da Guanabara; foi um recanto apreciado pelos namorados.

(5) queimar o pé (em) = beber muito.

(6) Referência à composição "As rosas não falam" que, gravada pela primeira vez em 1976, deu popularidade a Cartola ([...] "Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti" [...]).



João Antônio
 Ferreira Filho (1937-1996), nasceu de uma família de imigrantes portugueses de poucos recursos, na cidade de São Paulo (SP). Em 1949 publica seus primeiros contos no jornalzinho infanto-juvenil "O Crisol". Sem deixar de ler e escrever muito, em 1954 começa a freqüentar os salões de sinuca da cidade. Em 1958, ganha os concursos de contos da revista "A Cigarra" e do jornal "Tribuna da Imprensa", ambos do Rio de Janeiro. Inicia o curso de jornalismo. Em 1959, ganha o concurso de contos do jornal "Última Hora", de São Paulo. Os originais de seu livro "Malagueta, Perus e Bacanaço" são destruídos no incêndio de sua casa, em 1960. O livro só será publicado em 1963, totalmente reescrito. Ganha o Prêmio Fábio Prado e dois Prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos do ano). Muda-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar no "Jornal do Brasil", em 1964. Em 1966 volta a São Paulo, onde fará parte da equipe criadora da revista "Realidade". Tem contos publicados na Alemanha, Venezuela e, naquela época, Tchecoslováquia. De volta ao Rio, em 1968, passa a colaborar com diversos jornais. Publica, em 1975, "Leão-de-chácara" (Prêmio Paraná de 1974) e "Malhação do Judas carioca". Edita o "Livro de cabeceira do homem" e cria a expressão "imprensa nanica" no jornal "O Pasquim". Ainda nesse ano, é agraciado com o Prêmio Ficção da APCA (SP). Em 1977, seu conto "Malagueta, Perus e Bacanaço" é adaptado para o cinema, recebendo o nome de "O jogo da vida". Outro prêmio: em 1983, seu livro "Dedo-duro" recebe o Troféu Calango do Prêmio Brasília de Ficção. Ganha também o Prêmio Pen Club. Nos mais de quinze livros que deixou mostra sua extrema habilidade em fundir a linguagem falada nas ruas e a escrita literária. Atuou intensamente na imprensa e foi um ardoroso defensor dos direitos do escritor no Brasil. Premiada, sua obra é objeto de análise dos mais importantes críticos literários brasileiros.

Outras obras do autor: "Casa de loucos" (1976), "Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de lima Barreto (1977), "Lambões de caçarola" (1977), "Ô, Copacabana" (1978), "Noel Rosa" (1988), "Meninão do caixote" (1983), "Dez contos escolhidos" (1983) e "Abraçado ao meu rancor" (1986).

Sobre o autor:

RIBEIRO, Joana Darc. "Entre  o lirismo nostálgico e o rancor violento: As percepções da cidade no conto de João Antônio". In. Revista Humanidades - n.5-Série Letras -n.3-São João da Boa Vista. UNIFOEB - Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos, 2004, p.73-84.

SEVERIANO, Mylton. "Paixão de João Antônio", Editora Casa Amarela - São Paulo (SP), 2005.
 


Texto extraído do livro “Zicartola e que tudo mais vá pro inferno!”, Editora Scipione – São Paulo, 1991, pág. 25..

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