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Arnaldo Nogueira Jr



João Antônio


Antes que o poeta fizesse
oitenta anos

João Antônio


E como estou em Passo Fundo e minha volta inclui uma passagem por Porto Alegre, aproveito para lhe fazer uma visita antes que ele faça oitenta anos.

O poeta ainda anda. Vai bengalando, apesar do atropelamento que sofreu e que preocupou algumas gentes de alguns lados da cidade. Lúcido, meio doente, uma secretária por perto. Sempre. Que secretária, que nada... é parenta ou amiga de parenta. Mora, todos sabem, por um favorecimento de um jogador de futebol, vitorioso aqui no país e lá na Itália. Tanto que, tornou-se técnico do nosso selecionado.

Camões comeu de amigos; ele mora de um amigo no apartamento 204, do Hotel Royal, da Rua Marechal Floriano, em Porto Alegre.

Porto, vá lá. Mas alegre, por quê?

Um de seus amigos, Erico Verissimo, disse que ele era "anjo disfarçado de homem". Seria possível concordar, não tivesse o poeta ao lado de um lirismo espontâneo uma veia de espírito irreverente, irônico, irrequieto que me fez lembrar uma frase tão carioca em torno da capital do Rio Grande do Sul.

— A cidade cresceu e ficou confusa. Eu já não sei mais andar em Porto Alegre.

Já não tem a ironia do homem que há uns dez anos me ofereceu uma água mineral na Rua da Praia, dizendo que de alguma forma era necessário confirmar que o homem da terra era hospitaleiro. Mas eu que tomasse cuidado ao me sentar naquele puleiro. O puleiro era o tamborete do bar. Agora ele é uma vela se extinguindo, passarinho cansado e não tem jeito. Ganhou cabelos brancos; não ganhou juízo. Vai bebendo muito café e fumando, desobediente ao médico, no apartamentinho com seus retratos, livros, recordações, bagunça. Tem um espelho como o de algumas cortesãs antigas e lá em cima da cabeceira da cama um poster de Greta Garbo, em que ela abusa de seus mistérios em preto-e-branco. A Garbo que foi dele e de toda a sua geração, um dia, rapazes e, claro, brasileiros e sonhadores. Ela é bela fora de conta até no poster.

Há mulheres infinitas. As de Machado de Assis, as de Robert Musil e há aquelas em que, além da beleza, carregam uma enciclopédia de vida na cara.

Saímos. Tocamos de carro à Praça da Alfândega e olhando para os lados de onde foi o Correio do Povo, lembrei que ele fez durante 31 anos o seu Caderno H. O poeta me olhou fingindo seriedade:

— Puxa, como o tempo passa! Vai ver que é por isso que eu já tenho quase oitenta anos.

Deu para um chuvisco repentino no sábado. A secretária, alerta, ralhou:

— Saia da chuva, Mário!

Tenta uma ironia, teimosa:

— Por quê?

Ele mesmo responde:

— Porque chuva faz mal aos passarinhos. Como lhe dou trela, ele expande uma qualidade acima de todas. Jamais aborrece quem o ouve. Gosta bem, falando claro, que o pajeiem até a praça da Alfândega, a famosa, que tem lá uma homenagem, o seu poema em bronze numa placa. Depois que publicou, com sucesso de público, livros infantis, demonstra apreciar a popularidade. Não se casou; as crianças o alegram. Confessa-me a certa altura, que se esforça para ter de novo uma ótica infantil. Conseguir, é raro; conseguindo, vibra.

Nos mais recentes dez anos, tem aceitado ir a debates. E num desses, mulheres perguntaram porque não se casou. Afinal, levou fama de boa pinta na mocidade.

— Porque as mulheres são muito perguntadoras.

Perduráveis, alguns versos desse homem. Olhando para ele, quase oitentão, neste sábado, fico pensando. É um poeta. Momentos de peso pesado:

Da primeira vez que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...


Fez um nomaço nacional sem ter saído do Rio Grande; provincianismo teria sido sair do seu Estado. Logo, rebate:

— Sou gaúcho mas não sou fanático. Sou contra o gaúcho de fantasia.

Teme que vá, que vá me parecer cretino. Mas a poesia de Baudelaire força a barra. O poeta francês fala um tom acima de sua voz. É infantil a sua aflição com Satã e o satanismo. O diabo já ficou chato; afinal, é uma figura da Idade Média.

Ele é mais Apolinaire. E Lorca — que pronuncia com a primeira vocal fechada.

Se lhe dou canja, ele deságua em frases inteligentes, fortes e de humor. Não confia na inspiração. Não basta esperar que o santo baixe. É preciso puxar o santo pela perna. A criança é o pai do homem. Não foi Aristóteles quem disse? Pois eu estou procurando ser criança outra vez. Afinal, tenho escrito para elas. Não me sinto bem fazendo poesia social. Por que a poesia social de Castro Alves é boa? Ora, ele tinha gênio. Nós só temos talento.

Nunca conseguiu trabalhar todos os dias. Olavo Bilac trabalhava todos os dias. Das dez da manhã ao meio-dia:

— E bebendo leite, que barbaridade!

Vou deixá-lo, de volta. No hotel da Rua Marechal Floriano, vai bengalar até a porta do elevador. Sorrirá antes da despedida. Que eu conte a seus inimigos, ele está fazendo sucesso.

Não conheço nenhum inimigo do poeta e tenho andado por este país.

Faz aqueles olhos claros que sorriem detrás dos óculos e parecem armar uma marotagem qualquer.

Mário Quintana, com malícia, me segreda:

— Se eu não me gabo, quem é que vai me elogiar?


João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), nasceu de uma família de imigrantes portugueses de poucos recursos, na cidade de São Paulo (SP). Em 1949 publica seus primeiros contos no jornalzinho infanto-juvenil "O Crisol". Sem deixar de ler e escrever muito, em 1954 começa a freqüentar os salões de sinuca da cidade. Em 1958, ganha os concursos de contos da revista "A Cigarra" e do jornal "Tribuna da Imprensa", ambos do Rio de Janeiro. Inicia o curso de jornalismo. Em 1959, ganha o concurso de contos do jornal "Última Hora", de São Paulo. Os originais de seu livro "Malagueta, Perus e Bacanaço" são destruídos no incêndio de sua casa, em 1960. O livro só será publicado em 1963, totalmente reescrito. Ganha o Prêmio Fábio Prado e dois Prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos do ano). Muda-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar no "Jornal do Brasil", em 1964. Em 1966 volta a São Paulo, onde fará parte da equipe criadora da revista "Realidade". Tem contos publicados na Alemanha, Venezuela e, naquela época, Tchecoslováquia. De volta ao Rio, em 1968, passa a colaborar com diversos jornais. Publica, em 1975, "Leão-de-chácara" (Prêmio Paraná de 1974) e "Malhação do Judas carioca". Edita o "Livro de cabeceira do homem" e cria a expressão "imprensa nanica" no jornal "O Pasquim". Ainda nesse ano, é agraciado com o Prêmio Ficção da APCA (SP). Em 1977, seu conto "Malagueta, Perus e Bacanaço" é adaptado para o cinema, recebendo o nome de "O jogo da vida". Outro prêmio: em 1983, seu livro "Dedo-duro" recebe o Troféu Calango do Prêmio Brasília de Ficção. Ganha também o Prêmio Pen Club. Nos mais de quinze livros que deixou mostra sua extrema habilidade em fundir a linguagem falada nas ruas e a escrita literária. Atuou intensamente na imprensa e foi um ardoroso defensor dos direitos do escritor no Brasil. Premiada, sua obra é objeto de análise dos mais importantes críticos literários brasileiros.

Outras obras do autor: "Casa de loucos" (1976), "Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de lima Barreto (1977), "Lambões de caçarola" (1977), "Ô, Copacabana" (1978), "Noel Rosa" (1988), "Meninão do caixote" (1983), "Dez contos escolhidos" (1983) e "Abraçado ao meu rancor" (1986).

Sobre o autor:

RIBEIRO, Joana Darc. "Entre  o lirismo nostálgico e o rancor violento: As percepções da cidade no conto de João Antônio". In. Revista Humanidades - n.5-Série Letras -n.3-São João da Boa Vista. UNIFOEB - Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos, 2004, p.73-84.

SEVERIANO, Mylton. "Paixão de João Antônio", Editora Casa Amarela - São Paulo (SP), 2005.


Texto extraído do livro "Dama do Encantado", Editora Nova Alexandria - São Paulo, 1996, pág. 51.

 

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