Propaganda Realista
Barão de Itararé
Os poetas celibatários fizeram uma frase, que é repetida com entusiasmo pelos
casais sem filhos:
A criança é a alegria do lar.
Mas não é.
A criança poderia ser, de fato, a satisfação de seus pais nos seguintes casos
concretos, mesmo assim sujeitos a discussão:
1) quando não chora;
2) quando não faz sujeiras, e
3) quando está quieta.
Ora, todas as crianças choram por dá cá aquela palha. Todas as crianças cometem
inconveniências de hora em hora, e todas as crianças normais têm bicho-carpinteiro.
Logo, numa casa com crianças fungando, molhadas e irrequietas não pode haver
tranqüilidade.
Uma criança que não chora, porém, é para os pais uma constante preocupação. Uma
criança que não suja as calcinhas é uma coisa alarmante, que exige um purgativo. Uma
criança sossegada deve estar, com certeza, doente.
Em qualquer uma dessas três hipóteses, a criança é uma tortura para um pai extremoso
e, sem receio de errar, pode-se dizer que uma criança quieta é sempre motivo para
inquietação dos senhores genitores.
Uma criança que chora preocupa muito os pais, mas quando não chora preocupa muito mais.
Há, portanto, uma inverdade na frase dos poetas solteirões, quando afirmam que a
criança é a alegria do lar. Trata-se de uma falsa propaganda, que necessita ser em tempo
corrigida, em benefício da conservação da espécie e do povoamento do solo.
Apesar de todas as choradeiras e de todas as inconveniências, nós devemos ser sinceros
amigos das crianças, lembrando-nos que nós também já demos muito trabalho a quem nos
criou.
Mas o nosso entusiasmo pelo desenvolvimento da natalidade não nos deve levar ao extremo
de afirmar que as crianças são umas gracinhas, porque isso seria ilaquear a boa fé dos
candidatos inexperientes à paternidade.
Em vez de uma propaganda mentirosa, que levará o freguês, mais cedo ou mais tarde, a uma
terrível desilusão, é mais conveniente dizer toda a verdade.
O moço que se casa deve, portanto, saber, antes de tudo, que lhe será muito difícil,
nos dias que correm, ser uma boa mãe de família.
(1945)
Extraído do livro Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, Editora Record
Rio de Janeiro, 1986, pág. 60, seleção e organização de Afonso Felix de Sousa.
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