O lobisomem
"A vida com moela é..."
(escreve Lenson Ridrogues)
Barão de Itararé
O PAVOR DO MENINO
O menino era taludo mas meio bocó. De maneira que o pai não estranhou quando, muito
afobado, o garoto, com voz tremula, lhe disse:
Papai! Papai! Foi bom teres chegado agora! Estou morto de medo! Lá em cima, no
quarto, tem um lobisomem!
Não seja bobo, menino! Que tolice é essa? Então você não sabe que lobisomem
não existe? Lobisomem é só conversa fiada!
Não é papai! Quando tu bateste a campainha, ele saiu correndo e se meteu dentro
do guarda-roupa. A mamãe ficou assustada e se fechou dentro do banheiro!
TREMENDA SURPRESA
0 chefe da família, homem resoluto e destemeroso, que voltava inesperadamente de uma
viagem, decidiu subir as escadas, rapidamente, encontrando a sua alcova em desalinho.
Abriu energicamente o guarda-roupa e recebe um impacto de surpresa. Encolhido, imóvel,
cosido no fundo do móvel, estava o chefe do seu escritório, muito pálido e com a
respiração suspensa:
REVOLTA E DESILUSÃO
Bonito, seu Antônio! balbuciou afinal, o dono da casa. E,dando à sua voz
uma entonação de profunda, revolta e desilusão, prosseguiu:
Parece mentira! Custa-me crer no que vejo! Então, o senhor, que veio me bater à
porta, morto de fome, sem roupa, sem dinheiro e a quem eu atendi com a melhor boa vontade
proporcionando-lhe trabalho honrado, com. um ordenado magnífico, dando-lhe um posto de
inteira confiança no meu escritório, justamente no momento em que deveria estar
trabalhando; fiscalizando os outros empregados, atento a seus deveres de chefe da firma, o
senhor, aproveitando a minha ausência, o senhor vem a minha casa para assustar as
crianças e a minha querida esposa? Acha que é correto esse seu procedimento? Vamos! Saia
daí e vá cumprir as suas obrigações no escritório, antes que eu me zangue e lhe
rebaixe o ordenado!
HUMILHAÇÃO E VERGONHA
O Sr. Antônio saiu muito humilhado do guarda-roupa, baixou a cabeça e retirou-se,
profundamente envergonhado de seu mau procedimento.
LIÇÃO DE ALTA MORAL
O dono da casa, com o filho pela mão, vai, em seguida, ao banheiro, bate com força na
porta e ordena à sua esposa para que abra ! A senhora transida de pavor, obedece. E,
então, o marido tranqüiliza-a, explicando:
Não sejas tola! Tamanha mulher com medo de lobisomens... Não vês que era
"seu" Antônio o chefe do escritório que, em vez de estar trabalhando, veio
fazer essa brincadeira besta de vir assustar vocês? Também ele ouviu poucas e boas...
Moral: Em mulher ordinária e porta de
lotação só batendo com força.
Como podemos notar, nada escapava à pena do Barão de Itararé. No texto acima,
publicado no jornal A Manha no primeiro semestre de 1955, ele parodia a coluna
de Nelson Rodrigues A vida como ela é....
Texto extraído do livro Almanhaque 1955 1º Semestre, edição
fac-similar publicada por Studioma/Kraft Comunicação/Letra & Imagem São
Paulo, com a participação da Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo,
1990, pág. 188.
Saiba mais sobre o Barão de Itararé
e sua obra visitando Biografias.
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