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Arnaldo Nogueira Jr



Barão de Itararé
(Apparício Torelly)

 


O lobisomem

"A vida com moela é..."
(escreve Lenson Ridrogues)

 

Barão de Itararé

O PAVOR DO MENINO


O menino era taludo mas meio bocó. De maneira que o pai não estranhou quando, muito afobado, o garoto, com voz tremula, lhe disse:

— Papai! Papai! Foi bom teres chegado agora! Estou morto de medo! Lá em cima, no quarto, tem um lobisomem!

— Não seja bobo, menino! Que tolice é essa? Então você não sabe que lobisomem não existe? Lobisomem é só conversa fiada!

— Não é papai! Quando tu bateste a campainha, ele saiu correndo e se meteu dentro do guarda-roupa. A mamãe ficou assustada e se fechou dentro do banheiro!


TREMENDA SURPRESA


0 chefe da família, homem resoluto e destemeroso, que voltava inesperadamente de uma viagem, decidiu subir as escadas, rapidamente, encontrando a sua alcova em desalinho. Abriu energicamente o guarda-roupa e recebe um impacto de surpresa. Encolhido, imóvel, cosido no fundo do móvel, estava o chefe do seu escritório, muito pálido e com a respiração suspensa:


REVOLTA E DESILUSÃO


— Bonito, seu Antônio! — balbuciou afinal, o dono da casa. E,dando à sua voz uma entonação de profunda, revolta e desilusão, prosseguiu:

— Parece mentira! Custa-me crer no que vejo! Então, o senhor, que veio me bater à porta, morto de fome, sem roupa, sem dinheiro e a quem eu atendi com a melhor boa vontade proporcionando-lhe trabalho honrado, com. um ordenado magnífico, dando-lhe um posto de inteira confiança no meu escritório, justamente no momento em que deveria estar trabalhando; fiscalizando os outros empregados, atento a seus deveres de chefe da firma, o senhor, aproveitando a minha ausência, o senhor vem a minha casa para assustar as crianças e a minha querida esposa? Acha que é correto esse seu procedimento? Vamos! Saia daí e vá cumprir as suas obrigações no escritório, antes que eu me zangue e lhe rebaixe o ordenado!


HUMILHAÇÃO E VERGONHA


O Sr. Antônio saiu muito humilhado do guarda-roupa, baixou a cabeça e retirou-se, profundamente envergonhado de seu mau procedimento.


LIÇÃO DE ALTA MORAL


O dono da casa, com o filho pela mão, vai, em seguida, ao banheiro, bate com força na porta e ordena à sua esposa para que abra ! A senhora transida de pavor, obedece. E, então, o marido tranqüiliza-a, explicando:

— Não sejas tola! Tamanha mulher com medo de lobisomens... Não vês que era "seu" Antônio o chefe do escritório que, em vez de estar trabalhando, veio fazer essa brincadeira besta de vir assustar vocês? Também ele ouviu poucas e boas...


Moral: Em mulher ordinária e porta de lotação só batendo com força.


Como podemos notar, nada escapava à pena do Barão de Itararé. No texto acima, publicado no jornal “A Manha” no primeiro semestre de 1955, ele parodia a coluna de Nelson Rodrigues — “A vida como ela é...”.


Texto extraído do livro “Almanhaque 1955 – 1º Semestre”, edição fac-similar publicada por Studioma/Kraft Comunicação/Letra & Imagem – São Paulo, com a participação da Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo, 1990, pág. 188.

Saiba mais sobre o Barão de Itararé e sua obra visitando “Biografias”.

 

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