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Arnaldo Nogueira Jr





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Drinque com azeitona dentro

 Índigo


Encontrei o demônio esparramado numa poltrona de vime com almofadões. Ele bebericava um martíni com uma azeitona dentro e lia O Escaravelho do diabo. Usava seus óculos de leitura. Não ousei interromper. Eu tampouco gosto que interrompam a minha leitura. Eu acabara de devolver este livro para a biblioteca estudantil. Livrinho mixuruca. Tento avistar a contracapa para me certificar de que não ?a cópia que eu tive em mãos, mas suas unhas compridas não permitem que eu saiba. Ele abandona o livro e se espreguiça. Coloca-o no topo da pilha de livros acumulados no criado-mudo. Todos têm um marcador dentro. Ele deve ler vários livros ao mesmo tempo. Pensando bem, faz sentido — sendo ele quem ? De onde estou parada vejo passagens para outros salões. Se eu esticar o braço posso tocar a ponta de uma tremenda estalactite, mas sei que este meu gesto estúpido destruiria um processo de milhares de anos. Isto eu ouvi numa excursão que fizemos ao Parque do Petar, na quarta série. Marcelo Galvão, logo ao entrar, abraçou uma estalactite inteira para ver se seus braços se encontrariam do outro lado. O guia disse que ele acabara de destruir aproximadamente quinhentos mil anos de trabalho. E nem que ele vivesse mais um bilhão de anos ele não poderia consertar as coisas. Mas para quem conhece Marcelo Galvão, sabe que esse estrago ?caf?pequeno perto do estrago que ele causa diariamente em sala de aula. Mas uma coisa ?levar uma dura de um guia de excursão de escola, outra ?do demônio em pessoa. Enfio as mãos no bolso.

Um garçom vestido de branco me oferece uma bebida verde borbulhante que exala uma fumacinha feito gelo seco. Eu recuso. Ele toma minha mão, a bebida, e encaixa uma na outra. Retira-se por uma das passagens da gruta. Sem os óculos de leitura, o demônio tem um jeito cansado.

— O que eu posso fazer por voc? — ele pergunta.

Um homem vestido de terno aproxima-se com uma pasta. Solicita três assinaturas. O demônio alcança o criado-mudo e dentre as quinquilharias ali amontoadas, encontra uma agulha e um potinho de vidro. Enfia a agulha na ponta do dedo e vira os olhos. O potinho rapidamente se enche de um líquido vermelho escuro e pela maneira como cai, percebo que ?viscoso como uma cobertura de sorvete. Então ele mergulha uma pena branca no potinho de tinta e assina a papelada. Acho tudo isso carnavalesco demais.

— Por mim, nada não senhor.

Uma gargalhada de programa de televisão ?emitida pelo sistema de alto-falantes. O demônio continua:

— Voc?se engana. Eu posso fazer muito por voc?


A professora, Dorotéia, passa de carteira em carteira distribuindo as provas de matemática. Ela caminha vagarosamente para dar vantagem aos primeiros alunos. Eu serei a última a receber a prova porque a minha ?a última carteira da última fila. Enquanto Eliane Meirelles est?trabalhando na primeira questão, eu nem recebi a minha prova. Mas eu sei que h?um custo pela ajuda oferecida. E eu não quero me envolver com ele. Agora ele retira a azeitona do seu drinque e com um peteleco joga-a para cima. Projeta sua língua ágil para fora e pega-a no ar, naquele ponto em que ela subiu tudo que podia subir, d?uma paradinha no meio da trajetória e torna a cair. Meu drinque ainda borbulha e eu não me atrevo a prov?lo enquanto ele não se acalmar. Marcelo Galvão recebeu sua prova. Mais cinco alunos e ?a minha vez. Estamos no capítulo da Raiz Quadrada. Eu entendo perfeitamente o conceito de Raiz Quadrada. Não por mérito de Professora Dorotéia, mas de tanto pensar no assunto. Dorotéia nunca explica questões de matemática. Ela d?exemplos. Acredita que se martelar um monte de exemplos nas nossas cabeças, a coisa pode vir a fazer sentido. Vence pelo cansaço. Eu entendo que dentro de cada número mora um número menor. O numerinho est?escondido l?dentro e a Raiz Quadrada ?uma exigência para que a gente cavouque dentro do número e descubra qual numerinho multiplicado por ele mesmo, d?aquele numero de fachada. Então, quando uma pessoa diz que 3 ?a Raiz Quadrada de 9, significa que 3 ?a alma do 9. Escondido l? dentro, ele sustenta o 9. Isso tudo eu jamais poderei escrever nessa prova. Primeiro, porque não se deve escrever em provas de matemática. Segundo, porque caso voc?tenha que escrever, não deve usar a palavra "alma".

Nádia acaba de ler sua prova e vira-se para trás. Ela me encara e não diz nada. Não ? permitido falar durante a prova. Mas o principal motivo por que não diz nada, ?por não ser necessário. Aquele olhar eu conheço e diz que eu estou perdida, que jamais, em toda minha vida, serei capaz de fazer esta prova. Eu imagino o tipo de Raiz Quadrada que Dorotéia enfiou na prova. Bebo meu drinque borbulhante. O melhor ?fazer um acordo antes que Dorotéia me alcance.

No fundo do meu, também h?uma azeitona com o miolo vermelho. Atiro-a com mais força que deveria. Ela quase esbarra numa estalactite, o que seria desastroso. Eu poderia engolir dois milhões de anos de trabalho da mãe-natureza. Mas a azeitona ?esperta e não encosta. ?difícil saber onde ela vai aterrizar. H?uma corrente de vento nesta gruta e isto pode alterar seu percurso. Com a boca escancarada, caminho para a direita e para a esquerda, como um malabarista chinês. Sei que ele me observa e talvez ria de mim, mas eu me concentro no meu ato e consigo me encaixar na posição exata da trajetória. Abro a boca o máximo que posso e recebo a azeitona que bate no fundo da minha garganta e escorrega goela abaixo, sem brecar. Meus olhos se enchem de lágrimas. Estou sufocando. O garçom de branco me acode com uma garrafa de água com gás. Eu me recomponho e retorno ao assunto:

— ?apenas uma provinha de matemática. Acho que não ?necessário fazer um pacto formal. Eu não vou ganhar dinheiro com isso. Talvez nem seja um bom negócio para voc? Além do mais, quem precisa de Raiz Quadrada, nessa vida?

Eu não assinaria papel nenhum. Eu não queimaria no inferno por causa de Dorotéia. Não mesmo!

— Eu! Eu inventei a Raiz Quadrada.

Eu devia ter imaginado. A idéia de enfiar pequenos numerinhos dentro de outros números, numerinhos que se estimulados, crescem e se transformam em algo maior... Claro!

— Por que voc?fez isso? - pergunto.

Eu sei que o demônio, ao contrário de Deus, prefere conversas francas.

— ?divertido.

Recebo minha prova. Mas não vou me atirar a ela desesperadamente. Sei que Eliane Meirelles a essa altura j?deve estar na terceira questão, mas não dou esse gostinho a Dorotéia. Ela não deixa a minha carteira. Cruza os braços e aguarda minha reação. Eu espreguiço, procuro um lápis, uma borracha, reforço meu rabo-de-cavalo e agora sim, pronta para começar. Dorotéia desenha um relógio na lousa. Omite o ponteiro das horas e o ponteiro dos minutos ela risca num traço determinado que aponta para os dez minutos. Daqui ao final da prova, de cinco em cinco minutos, ela apagar?este traço e o desenhar?um pouquinho mais inclinado. ?o seu conceito de diversão. Talvez ela tenha feito um pacto.

— Tenho uma pergunta.

— Sou todo ouvidos — responde o demônio.

— A Dorotéia j?..

Por algum motivo hesito em dizer "pacto". Ele pode ficar ofendido.

— Nunca consegui coisa alguma com Dorotéia. Eu tentei, mas ela não quis.

Dorotéia quer que extraiamos raízes quadradas de números estrambóticos. São sete questões. Ao final da prova ela exigir?as raízes. No seu ver, não passamos de roedores. Ela quer beterrabas e cenouras. Dorotéia altera o ponteiro dos minutos e volta para a sua mesa. Enquanto extraímos, ela l?uma revista.

— Pensando bem, tem uma coisinha que voc?poderia fazer por mim. Um favor insignificante.

O homem de terno volta com uma prancheta e caneta. Posiciona-se ao meu lado. Eu continuo:

— Não ?tanto ajuda, ?de certo modo uma inspiração para completar esta prova, sendo voc?o criador da coisa.

O homem de terno escreve na prancheta as minhas palavras. Tira uma agulha do bolso do seu terno e pede que eu lhe empreste um dedo. Eu meto minhas mãos no bolso. Concentro-me nos números e começo a fazer as tais contas. Extraio uma raiz aqui e outra ali. A última raiz eu não encontro. Talvez ela não exista. Eu sei que alguns números não possuem nada de bom dentro deles. Dorotéia recolhe as provas. O resultado vir?s?na semana seguinte, mas eu não tenho pressa. Escapei de mais uma tentação. Ela apaga o relógio da lousa e guarda nossas provas dentro de um envelope de papelão. Fecha-o girando um barbante em torno de um botão de alumínio. Gira o barbante três vezes. Dorotéia pode muito bem ser a enviada dele e a prova foi apenas um pretexto para chegar at?mim. lembro-me das palavras de Irm?Cecília: "Somos testados em nossos atos: Desta vez eu me safei, mas foi por pouco. Na cabeça de uma professora de matemática, ética e integridade de espírito, assim como alma, não são conceitos palpáveis. Ela entende apenas de notas e números. Mas eu sei que h?mais nesta vida do que um boletim impecável.


Índigo (Ana Cristina Araújo Ayer de Oliveira), 1971, ?natural de Campinas (SP). Formada em jornalismo, tem publicados, entre outros, os seguintes livros: "Saga animal - Muita batalha por um bicho de estimação", (romance), "Caixinha de madeira" (romance) e "Festa da mexerica (contos).

O texto acima foi extraído do livro "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", Editora Record - Rio de Janeiro, 2004, pág. 153, organização de Luiz Ruffato.

 

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