Já podeis da pátria filhos
João Ubaldo Ribeiro
Sabe-se que o estrangeiro, ao jogar futebol, ataca o balão de couro como se fosse
inimigo. Há quem diga que o joelho empedrado é natural do gringo, variando uma
besteirinha de acordo com a espécie. Isto devido à comida que eles comem, que e muito
melhor do que a comida que o brasileiro come, com exceção de que o joelho fica
empedrado. Porém a comida dá enormes sustanças e além disso eles usam foguetes e o
raio leise. Ninguém me diga que a Hungria não usou o raio leise em cinqüenta e quatro,
quando eles davam de 11 a 8 e 19 a 15 e 48 a O em quem aparecesse, eles não facilitavam.
Disse seu Góes, que não esteve nessa copa, aliás não esteve em copa nenhuma, mas
esteve com Pongó que o primo esteve nessa copa, que eles vinham lá de baixo do campo
parecendo uns cavalos, tudo falando hurunguês e dando aqueles passes de joelho empedrado,
situque-situque. Pela cara de abestalhado que eu vi numa revista, pela cara de abestalhado
que ficou um beque, quando esse cabeceador pulou de um jeito que quase amunta nas costas
do beque e olhe que o beque tinha subido e era maior do que Chico do Correio, a gente via
que o beque só podia estar estontecido pelo leise, eles usam todos os recursos, a copa é
uma guerra. No Brasil mesmo enfiaram 4 a 2, se não me engano, assim mesmo porque o
comprido cabeceador deles não estava cabeceando bem naquele dia, visto que o americano
foi lá e roubou o leise e ficou com a invenção para ele, mas não quero saber
dessas coisas porque não suporto política. Estólei Mattos, o grande ponteiro inglês,
enfiou uma bola pelo meio das pernas do Nilton Santos, coisa que só foi possível porque
o inglês guarda o segredo do espittfaire, aeroplano que derrotou o alemão na guerra, em
razão de que continha o segredo da bomba atômica - em inglês, espeito-faire, bomba
atômica. Essas coisas, quem sabe esperanto sabe. Nesse dia de Estólei Mattos, Gilmar
pegou dois pênaltis, naturalmente porque a bomba atômica também fez efeito nele, isto
devido que ele sempre se vestiu à inglesa e isto influi. O alemão ganhou em cinqüenta e
quatro porque primeiro quebraram a canela do grande Purcas e também o cabeceador deles,
se não me engano Costas, ainda estava zonzo com o roubo do leise e explicaram a ele que
iam mandar o time todo para a Libéria, que é para onde eles mandam time russo que perde
na copa. Toda copa tem um time russo na Libéria, só não teve nesta última, porque os
russos não foram para a Argentina, menos porque não concordam com o governo da
Argentina, que dizem que não pode ver um russo que não meta logo na cadeia por questão
de prevenção, do que porque nenhum jogador de lá quer ir para a Libéria. O que mais se
joga na Libéria é futebol. No inverno, faz frio que as partes de baixo vão
encristalando, encristalando que quebra tudo igual a pedra. Razão por que o russo fugido
fala fino, senão repare. No verão, faz um calor péssimo e eles todos andam de camelo.
Para conhecer essas coisas todas, é preciso ter viagem. Ou então ler e prestar atenção
nas conversas ilustradas. O homem da Hungria não é russo, mas tem bastantes russos no
lugar onde eles moram, de forma que, quando eles dizem quero me mudar, vem o russo e diz
não muda nada aí. Tudo isso são políticas internacionais. O russo que marcou Garrincha
em cinqüenta e oito está na Libéria até hoje e conta o povo que todo mundo que passa
cospe na cara dele.
Aliás, deles, porque quem marcou Garrincha foram sete e todos os sete estão lá com o
povo todo cuspindo na cara deles e dizendo tavares-tavares, que é mais ou menos vá
sentar num birro de chuteira na língua deles. Pelo menos dois eu sei que botaram para
marcar Garrincha de sacanagem, porque todo mundo sabia que não podia ser, mas os outros
cinco o pessoal de lá botou na esperança. Tinha uma medalha de heróis do socialismo
para quem marcasse Garrincha e segurasse, mas ninguém ganhou.
Essas coisas eu estou falando para
mostrar que não desconheço o que estou falando, quando estou falando sobre o futebol ou
sobre esse problema ocorrido com os americanos e os japoneses. O time aqui forma no
dabliú-mê, o povo aqui ainda não adotou essas viadagens, aqui é um goleiro, dois
beques, três ralfes e cinco linhas, como sempre foi. Então nós alinhamos Chupeta,
Cremildo e Didi. Poroba, Bertinho e João Baguinha. Geraldo Tuberculoso (conhecido pelo
vulgo de Tubério, mas ele não gosta), Pingüim, Delegado, Jonga, Digaí e Honorino, este
na reserva de qualquer posição, ou então se resolvessem fazer baba de doze. Tem
criticas porque nesse time escalamos dois tuberculosos, que são Geraldo Tuberculoso, como
o nome indica, e João Baguinha, que pegou a tuberculose e o apelido pela mania de ficar
catando baga de cigarro no chão e fumando. Mas Geraldo é amarelo assim mas é o diabo
com a bola e é aporrinhado e ponta-direita necessita ser aporrinhado. E João Baguinha é
o tipo do tuberculoso diferente, nem dá sinal, e além do mais eu quero ver esse bom
daqui que não tem doença, se fosse assim não jogava ninguém. Tem também um que é
avariado da idéia, que é Digaí, que ficou meio abestalhado porque dizem que não comia
em pequeno, mas para mim foi alguma pancada que o pai dele deu na moleira dele, o velho
só vivia melado. Digaí tem esse apelido porque ele tinha um papagaio que ele vivia
querendo ensinar e tanto disse diga aí ao papagaio que o bicho só dizia diga aí. Ele
acabou se acostumando com esse apelido de Digaí, mas, quando está jogando, o povo grita
"diga aí, louro!" e aí ele se reta e fecha pelo meio igual a um inglês e
chuta tudo que estiver na frente. Considero um jogador de valor.
Então recebemos aqui a visita de uns homens do governo. No começo, todo mundo pensou que
eles tinham vindo para uma dessas eleições modernas, que eles se sentam lá dentro e
depois saem dando risada e dizendo: "Fulano tá eleito". Mas não era isso, era
uma coisa do ministério. Dá-se mais ou menos que esse ministério vai fazer umas
pesquisas para ver se não temos uns metais, na certa a mesma coisa que fizeram a umas dez
léguas daqui e agora lá está entupido de americanos e japoneses, não deram emprego a
ninguém e ainda botam para fora todo mundo que encostar, está uma novidade. Para não
dizer que não fizeram nada, botaram um lugar que você pode ir arrancar o dente, se o
dente doer, assim mesmo só nas sextas e sábados, no resto da semana você pode chiar à
vontade que ninguém tira seu dente. Estamos acordados para essas pesquisas, mas ninguém
pode fazer nada, é tudo povo do sul do país e ainda mais tem os americanos.
Naquelas conversas, o prefeito, que vive dizendo que aqui vai entrar dinheiro que nem
ladrão acaba, quando acharem os metais, mas todo mundo está sabendo que o prefeito é
meio aluado, por isso mesmo que deu para prefeito, disse que ia dar um almoço para a
comitiva e ia fazer um jogo de futebol. O nosso time é por nome São Lourenço, mas está
sem camisa, desde quando Aurélio alfaiate se mudou daqui e levou as camisas, que eram
tudo dele. Também só quem tem chuteira é Digaí, inclusive faz questão de usar sempre
e ninguém consegue que ele tire. Ele diz que está dentro da regra. Mas então o prefeito
explica que arranja os equipamentos com os gringos da mineração e de fato arranja.
Digaí não gostou que todo mundo agora tivesse chuteira, mas foi obrigado a se conformar.
Quiseram até mudar o nome do São Lourenço para Brasil, levando em conta que o jogo ia
ser contra os estrangeiros, mas ninguém ia envergonhar o santo numa hora dessas, por
sinal podendo também envergonhar o Brasil, ficando assim mal com os dois.
Então permaneceu São Lourenço mesmo e no dia do jogo Arnaldino atendeu uma grande
encomenda de foguetes para o prefeito e mais dois que o time se cotizou, esses dois sendo
marcados um para a entrada do time e outro para o caso de vitória. Para o almoço o time
não foi convidado, mesmo porque tivemos que almoçar bem antes do jogo, para não dar
congestão. Teve arroz e carne, uma festa completa, embora com uma certa preocupação da
maior parte do time, visto que a maioria é de capinadores da prefeitura e, se o prefeito
já não paga a ninguém desde março, veja-se como vai ser depois dessas despesas de
almoço, inclusive ele mandou buscar uns matos especiais para servir ao povo da comitiva e
esses matos são tudo os olhos da cara. Também ninguém capina mais, justiça seja feita,
mas também contamos com os jegues, que fazem um serviço mais ou menos, só não fazem no
meio das pedras. Está uma situação assim - nem ele paga nem ninguém capina, ainda se
aqui se comesse capim como o pessoal da cidade até que ia ser melhor. Para quem viu o
almoço do prefeito, estava tudo nojentíssimo, até papas brancas tinha misturado com os
bifes e a mulher de Antenor da Bodega, que é vereador, ficou com vergonha de comer na
frente daquele povo todo, também a mulher de Antenor - cala-te, boca, mas por aí se vê
que quem nasce para vintém nunca chega a derréis, não estou dizendo nada.
Os gringos chegaram de uniforme vermelho e o São Lourenço entrou de camisa amarela e
calção variando um pouco, porque o prefeito esqueceu de pedir calção também, mas é
mentira que Poroba jogou de cueca, isto espalham os que não se conformam com a vitória,
os entreguistas. Esses calções a maior parte nós conseguimos quando passou uma gente
aqui do programa da rua do lazer, mas ninguém ligou para a rua do lazer, que aqui
qualquer uma é, e então eles deixaram esses calções aqui, uns dois ou três já tendo
virado calçolas, pois o que tem de mulher descalçolada nestas bandas é mais do que
abóbora quando a terra baixa molha, e o marido se torna desassossegado se a mulher está
desprevenida, não fica bem. De forma que esses calções do lazer umas mulheres pegaram e
usaram de calçolas e já estavam acostumadinhas, teve dificuldades na coleta.
A situação do time não ficou boa logo na saída, porque, se você já viu japonês
fazendo qualquer coisa, você sabe como é. Japonês, você diz uma coisa a ele, ele
acredita. Então esses japoneses acreditavam em todas as coisas que diziam a eles e ai
saiam todos de bolo, menos o goleiro que também era japonês, e quatro americanos que
também estavam jogando. Os americanos davam bicudas. Porém eram bicudas de americanos,
cada bicuda da porra. Chupeta dá na direita para Cremildo, com aquela intenção de que
ele devolva, que é para execução das piruetas que fazem os profissionais, nisso quando
seu Cremildo escorrega, porque não está acostumado com chuteiras e ai chegam uns
duzentos mil japoneses, tudo chutando para a frente, tudo zumbindo e dando uns grunhidos
de japoneses. Um japonês adentra a grande área, gritando como uma jega deflorada, com
outro japonês um de cada lado e prepara a zorra para cima de Chupeta, que essas alturas
está xingando a mãe de Cremildo, que é irmã da mãe dele e isso já rende
complicação na família, porque Nascimento, marido da irmã da mãe dele, era
bandeirinha e passou o resto do jogo dizendo se aquele filhodaputa não fosse goleiro toda
vez que ele pegasse na bola eu marcava ofiçáide. Nisso chega seu Didi, que era beque
porque tinha as canelas grossas e tinha quebrado a clavícula de Caetano com uma
calcanhada e nem conversou: caiu de dois pés no joelho do japonês. O japonês apagou,
porque, se você nunca viu um elefante, você nunca viu Didi, e então o japonês deu
aquele uai de japonês, cambalhotou três vezes e caiu parado. Nisso seu Cremildo, que
ficava desresvalando nas chuteiras, levanta a cara e passa um japonês na carreira e dá
um chute na cara de Cremildo, que mais que depressa corre atrás do japonês e, não tendo
como pegar, pega o japonês pelas pernas e dá uma dentada nele, no que o japonês se vira
e dá um golpe de jojitso em Cremildo e Cremildo quase ficou sem nariz, quando bateu numa
jaqueira que está assim do lado do campo, todo mundo conhece. João Baguinha quis puxar
as pernas do japonês que Didi tinha acertado, mas chegou um americano e segurou João
Baguinha pelo cabelo e parece que ia até dar uma bicuda em João Baguinha, quando
entraram no campo o prefeito e a comitiva e então tudo se organizou, mais ou menos com
meia hora de trabalho. Teve um americano que ficava dando sorrisos o tempo todo e abrindo
os braços, porém foi vaiado.
Quando chegou o fim do primeiro tempo, a situação não estava boa para a nossa
agremiação, apesar, verdade seja dita, de que não se usou qualquer daquelas armas
secretas, que se saiba. O juiz marcou pênalti na jogada de Didi contra o japonês e
Chupeta defendeu, nem ele até hoje sabe como. Mas eu sei e Bertinho, chamado Bertinho
Pinico, por ter umas manchas na cara escritinho aquelas manchas de ferrugem que dá em
pinicos velhos, também sabe, porque foi Bertinho quem encarcou a bola na marca, afundando
bastante, de maneira que o americano que cobrou o pênalti deu uma bicuda para o chão.
São recursos do jogador de experiência e Bertinho já jogou até em Alagoinhas, quanto
mais. Mas assim mesmo os gringos enfiaram dois na gente, um de japonês e outro de
americano, sendo que nesse Chupeta quase sai de baixo, porque o americano chutou que
parecia que queria lançar um satélio no espaço, só que esse satélio ia na direção
de Chupeta, como de fato foi. Se tivesse rede, furava.
Tubério, que não estava bem, por causa da marcação homem a homem do beque americano,
nós substituímos por Honorino, com a missão de chegar na linha de fundo e centrar para
Jonga ou Delegado subirem na cabeçada, visto que a zaga americana não sabia cabecear e
sempre metia a cara na bola e relava o nariz todo e a zaga japonesa gostava de meter a
mão na bola, quando ela subia demais. O problema era o goleiro japonês. O homem era o
cão, o que tinha de pequeno tinha de abusado e só ia na bola fazendo ará-ará e outros
gritos, com a cara de quem pretendia esfarelar a bola com os dentes, espantava bastante o
atacante. Delegado quis mandar pegar um cachorro dele para a torcida iscar no japonês,
mas não foi possível, mesmo porque esse cachorro, que se chama Menezes, em homenagem a
um coletor que teve aqui, tinha sido preso por pedido do prefeito, pois esse Menezes não
somente se ousa com todas as cachorras como também com qualquer perna que aparece e,
quando o dono da perna não deixa, ele morde. Então não ficava bem para o bom nome da
cidade soltar Menezes. A tática resolvida foi que Jonga e Delegado somente um subia de
cada vez, o outro procurando ficar em cima dos pés do goleiro, para não deixar que ele
subisse. Possa ser que o japonês não fosse gostar, mas ninguém estava disposto a tomar
lavagem daqueles gringos, o metal é deles, mas o futebol é nosso, é a lei da vida.
O time deles entrou também com uma modificação, que foi outro japonês no lugar do que
Didi tinha acertado, que estava todo triste junto da comitiva, com o joelho maior do que a
cabeça. Eu disse a Didi que não se animasse, que não ficasse quebrando os joelhos todos
do adversário, a não ser quando fosse por providência, que aí todo mundo entende. Pois
então Honorino começou a correr pela ponta direita. Honorino não tem assim um controle
de bola muito bom, mas ele é especialista em dar um chutão para a frente e sair atrás
da esfera galopando acelerado e depois centra. Nessa posição, ele só sabe fazer isso,
quer dizer é melhor do que Gil. Honorino então deu uma porção de corridas, mas nem
Delegado nem Jonga estavam acertando direito a pisar nos pés do goleiro. Jonga chegou na
beira do campo e me disse que o desgraçado ficava sapateando e, quando subia, espalhava
os joelhos para os lados e que se ele, Jonga, ainda tivesse dentes, já tinha perdido
todos das caqueradas do japonês. Nessa hora foi que nós resolvemos que, quando o goleiro
fosse subir, Jonga metia o dedo por debaixo dele, tendo para nós que nem japonês, nem
americano, nem ninguém - talvez o francês, que é o povo mais descarado - ia tolerar que
enfiassem o dedo nas partes traseiras, isso assim de repente dá um sobressalto em
qualquer homem. O jogo até que tinha facilitado, porque Pingüim caiu dentro da área
quando ia passar pelo americano que abria os braços e o americano pensou que tinha matado
Pingüim e aí largou a bola para ver, quando que Pingüim se levanta ligeirinho e marca o
São Lourenço! O goleiro ficou retado, porque o americano atrapalhou na hora da defesa,
mas esses problemas de brancos eles resolvem lá entre eles mesmos e Pingüim ainda
sacudiu a camisa na direção do americano, essa gente miúda gosta muito de pirraçar.
Mesmo assim estamos perdendo e Honorino já vai dando sinal de que não agüenta mais
correr e na defesa temos grande pressão japonesa, no mesmo jeito, tudo de bolo.
Felizmente, Cremildo já tinha tido permissão do juiz para jogar sem chuteira e cada
pontapé que ele dava com aqueles cascos que Deus lhe deu espalhava diversos japoneses e
descontrolava o ataque estrangeiro. Poroba também aprendeu a escorar as bicudas dos
americanos. De vez em quando, o americano acertava a bicuda em cheio e Poroba calçava e
subia com bola e tudo. Mas escorava e esse é o heroísmo do atleta brasileiro, porque,
depois do jogo, Poroba passou muito tempo com zumbido nos ouvidos, dos solavancos que ele
levava, toda vez que escorava uma bicuda.
Está se vendo que a situação não era boa, mas podia ser notado que o japonês do gol
estava cada vez mais aporrinhado com as dedadas de Jonga, inclusive porque Delegado
também tirava suas tasquinhas de vez em quando. O japonês fez diversas caretas e foi
piorando depois do gol mais sensacional da tarde, que foi Digaí, que até agora não
tinha pegado na bola. Digai pegou a bola solto na ponta esquerda, porque um beque
americano foi rebater de primeira e ela espirrou para o lado e o americano ficou
carrapeteando sem entender nada. Digai ficou até meio sem graça e começou a dar com o
canto do pé na bola, doido para aparecer alguém para receber um passe, mas - é por isso
que eu digo, torcida vale muito - todo mundo começou a gritar digai, louro, digai,
louro!" e Digaí ficou mais do que emputecido. Até hoje eu fico pensando se Digai,
que o nome cristão é Juvenal mas só a mãe dele chama ele de Juvenal, acha que aquela
gritaria toda vem do goleiro, porque ele parte para cima do goleiro. Quem já quis segurar
um maluco atacado sabe como é para segurar Digaí, precisa um destacamento de homens
dobrados e mesmo assim com uns porretes. Então seu Digaí faz uma diagonal pelo bico da
área e um japonês que cercou ele tomou uma peitada que até hoje aquele japonês não
compreendeu e, quando chega bem no bico da área, seu Digaí me dá um cacete que quase a
bola fica encaixada no ánglio superior direito da trave do japonês, mas não ficou:
bateu no ánglio, voltou, bateu na cabeça do japonês e entrou e sacudiu o véu da noiva,
só que não tinha véu, mas também não tinha noiva e gol do Brasil! Carlito Bofe, que
estava tomando conta do foguete da vitória, não agüentou e soltou a pamonha,
catapriutabum! Marcador igualado e Digai abraçadíssimo e perguntando cadê meu papagaio,
cadê o papagaio, me dê meu papagaio. Esqueci de dizer que o papagaio de Digai é finado,
porque ele enchia a boca de água e barrufava o papagaio para ele aprender a falar, de
sorte que deve de ter afogado o bicho numa certa feita dessas; ou então matado de
defluxo.
Mas o empate não serve a quem defende o seu país, mesmo quando ele empata a gente.
Honorino já está botando os bofes pela boca, mesmo porque, agora, além do americano
está um japonês marcando ele. Não pegam, mas chateiam, inclusive japonês não cansa,
todo mundo sabe disso. Mas como ninguém marcava João Baguinha, que até agora não tinha
feito nada a não ser reclamar do juiz e correr para abraçar quem fazia gol, a redonda
acabou sobrando para ele na intermediária dos gringos e ele aí deu um esticão para
dentro da área, uma coisa linda, que só se acredita que foi João Baguinha porque se
viu. O goleiro deles sai e arma o bote, mas nisso Delegado vem de lá e enfia o dedo na
bunda do japonês e o japonês não quis acordo. Revirou o corpo e deu uma pezada na cara
de Delegado que Delegado nem catou ficha. Caiu inteiro no meio da área. Temos aí um
pênalti claro, mas o japonês avançou para o juiz e disse ele mete dedo no meu trazezo,
ele mete no meu trazezo, isto seu Delegado todo estatelado no gramado, com um lado da cara
inchado e fazendo careta com o outro. João Baguinha, que era especialista nisso, veio
logo esticar as pernas de Delegado, mas ele só se levantou quando disseram que iam
aplicar uma injeção e assim mesmo estava meio bambo. Então o juiz botou Delegado para
se perfilar assim com as mãos nas costas e disse seu Delegado, o senhor dá a sua palavra
de honra de esportista? Dou sim senhor, disse Delegado. O senhor, disse o juiz, dá sua
palavra de honra de esportista como não meteu o dedo no traseiro do goleiro adversário?
E Delegado não era besta de dizer que não dava, senão depois do jogo ele ia ver onde a
gente socava a honra de esportista dele, honra é a da pátria amada que ali a gente está
defendendo, eles levam o metal mas não levam a flâmula. Aí o juiz apontou para a marca
do pênalti e o japonês quase vira um baiacu de tanto inchar as bochechas, sabe-se que o
japonês e o chinês são os povos de maior capacidade de inchar as bochechas. Eu adentrei
o tapete verde, com a finalidade de declarar que o São Lourenço não aprovava o tumulto
e que ou respeitavam o juiz ou eu tirava o time do campo e considerava o jogo ganho e aí
não me responsabilizava pela conduta dos meus atletas, que era tudo rapazes de sangue
quente. Eu sei que acabou Cremildo se dirigindo para a marca penal e a última coisa que o
japonês viu foi o pé de Cremildo se levantando, porque se tem uma coisa que Cremildo
sabe fazer, essa coisa é dar um porrete fixe, desses que a bola entorta. Tive que dar um
esporro em Carlito Bofe, porque ele já tinha gasto nosso foguete no gol de empate e o
jogo terminando e o time todo se fechando na defesa. Didi aprendeu que, se batesse os pés
na frente do gringo que estava com a bola, o gringo se assustava pensando que Didi ia dar
um chute nele e soltava o esférico. Vitória do Brasil, ninguém envergonhou a pátria.
Muita gente pergunta se, em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem,
igual aos gringos vivem? Isso demonstra ignorância, porque se sabe que ao gringo
interessa mais mostrar que a raça deles é melhor, por isso que Hitler mandou matar todos
os alemães que não ganharam nas olimpíadas, para não envergonhar a raça. Daí se vê
que, ganhando no futebol, a melhor raça somos nós.
Este texto, escolhido para figurar entre "Os 100
melhores contos de humor da literatura universal", livro publicado pela Ediouro
Publicações - Rio de Janeiro, 2001, seleção de Flávio Moreira da Costa, foi publicado
no "Livro de Histórias", Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1981, pág. 59.
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