Zum-Zum
Geir Campos
Ela tem dois amigos, dirá um.
Ele é um amigo do casal, dirá
Outro. E o que é dito aqui faz eco lá,
E a cada voz amplia-se o zunzum.
Diz-que-diz-que é a maneira mais comum
de se fingir que entende o que não dá
Para entender e assim não chegará
A entendimento verdadeiramente algum.
Quem quiser sobre nós saber ao certo
O que de fato existe, chegue perto
E espie bem, sem medo ou preconceito:
Dois homens há de ver e uma mulher
E o bem que cada qual aos outros quer
Num exemplo de amor quase perfeito.
Vigília
Geir Campos
Não, meu amigo, não precisas ter
nenhum cuidado: havendo o que cuidar,
cuidarei eu constantemente a te poupar
coitas que vão teu coito arrefecer.
Coitado de quem deixa a noite ser
vinda fora de tempo e de lugar
sombreando as alturas do prazer
com rasteiras tribulações do lar.
Antes que venha a noite, vai o dia
mostrando os horizontes de alegria
que tem a palmilhar no corpo dela:
são costas, são gargantas, são colinas
toda uma geografia em que te empinas
enquanto pelo teu meu amor vela.
Geir Campos nasceu em São José do Calçado (ES) no dia 28-02-1924. Foi
piloto da marinha mercante e ex-combatente civil na Segunda Guerra Mundial. Formou-se em
Direção Teatral (FEFIERJ-MEC, Rio), mestre e doutor em Comunicação Social pela Escola
de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual foi professor.
Sempre engajado nas lutas de seu tempo, foi um dos fundadores do Sindicato dos Escritores
do Rio de Janeiro e da Associação Brasileira de Tradutores, hoje Sindicato Nacional dos
Tradutores, de que foi presidente. Em 1962 candidatou-se a vereador na cidade de Niterói,
mas foi derrotado.
Jornalista, colaborou no "Diário Carioca", "Correio da Manhã",
"Última Hora", "O Estado", "Diário de Notícias",
"Para Todos", Letras Fluminenses", "Jornal de Letras" e no jornal
"A Ordem", de sua terra natal.
Radialista, apresentou na Rádio MEC, por mais de 20 anos, o programa "Poesia
Viva".
Foi diretor da Biblioteca Pública Estadual de Niterói (1961-1962), transformando-a em um
centro cultural. É de sua autoria, juntamente com Neusa França que fez a música
, a letra do hino oficial de Brasília (DF).
A vida de Geir parece ter sido
sempre ligada ao livro. Filho de pai dentista e mãe professora, estudou como interno no
Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, o que deve ter fortalecido sua relação com a
cultura escrita. De bom leitor passou a estudioso de línguas e literaturas. Morando em
Niterói (RJ) desde 1941, logo conheceu os jovens do Grêmio Literário Humberto de Campos
e a livraria-engraxataria Mônaco. Tornou-se uma espécie de guru na vida literária da
cidade, orientando os escritores interessados em conhecer as novas tendências
literárias, nacionais e estrangeiras. Trouxe para autografar nas reuniões matinais do
Grupo de Amigos do Livro, presidido por Sávio Soares de Sousa, na então já Livraria
Ideal, nomes como Astrojildo Pereira e Moacyr Félix, seu amigo da vida inteira.
Começou a escrever, em 1940, contos e poemas
originais ou traduzidos, que foram publicados na imprensa. Em 1950, seu primeiro livro de
poesias, "Rosa dos Rumos", foi publicado. Depois vieram "Da profissão do
poeta", Canto claro & poemas anteriores", "Operário do canto",
"Cantigas de acordar mulher", "Metanáutica" e "Canto de
Peixe", dentre outros. Sua bibliografia inclui livros de contos, peças teatrais,
obras de referência, literatura infanto-juvenil, ensaios e teses. Incluído pela crítica
na famosa "Geração 45", que renovou a poesia brasileira, ao final dos anos
cinqüenta já havia publicado nove livros de poesia, tendo recebido, em 1956, o Prêmio
Olavo Bilac da Prefeitura do Distrito Federal por "Canto Claro & Poemas
anteriores". Exímio tradutor, verteu para o Português obras de Rilke, Kafka,
Brecht, Shakespeare, Herman Hesse, Walt Whitman e Sófocles. O ensaio "Carta aos
livreiros do Brasil", obteve menção honrosa no concurso ao Prêmio Monteiro
Lobato, promovido pela Academia Brasileira de Letras. Publicou significativa obra
ensaística sobre tradução, que até hoje é fonte de referência para os interessados
no assunto.
Fundou, com Thiago de Melo, em 1951, as Edições Hipocampo, que revolucionou as artes
gráficas no Brasil. Foram publicados textos poéticos, em prosa e verso, de autores
consagrados e novos, todos ilustrados primorosamente por grandes artistas. Os livros eram
compostos tipograficamente, diagramados pelos próprios editores e impressos após o
expediente da gráfica de fundo de quintal, em Niterói, dirigida por Antonio Marra e
Armando Cabral Guedes. O processo de acabamento era feito na casa onde Geir residia,
com a colaboração de toda a família. Dobravam-se as capas em forma de envelope, onde se
inseriam as folhas soltas. Com tiragens médias de 116 exemplares, em dois anos foram
feitas 20 edições, que incluíam nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília
Meireles, Manuel Bandeira, Iberê Camargo, João Guimarães Rosa, Fayga Ostrower, Santa
Rosa e Darel Valença.
Dele falou Aníbal Bragança, professor do Departamento de Comunicação
Social da Universidade Federal Fluminense e doutor em Ciências da Comunicação
pela ECA/USP, autor, com Maria Lizete dos Santos, de "Geir Campos - O poeta, o editor
& a Carta aos livreiros do Brasil", de onde extraímos os dados acima: "Geir
Campos não foi apenas um artesão da palavra e um operário do canto. Esteve em todas as
frentes de ação pelo fortalecimento do livro, como editor, como bibliotecário, como
tradutor, como líder da categoria, como professor e como autor. Autor, diga-se, de uma
obra sólida e múltipla, rica e diversificada, que marcou a literatura brasileira da
segunda metade deste século".
Geir Campos faleceu no dia 08 de maio de 1999, aos 75 anos, em Niterói
(RJ).
Os sonetos acima fazem parte do "Cantar de Amigo ao outro homem da mulher amada"
e foram publicados com ilustrações de Juarez Machado, na revista "Ele Ela",
edição de julho de 1980. Constam, também, da "Antologia Poética
Geir Campos", Léo Christiano Editorial Ltda Rio de Janeiro, 2003,
págs. 364 e 375.
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