Divisão
Sérgio Porto
(Stanislaw Ponte Preta)
Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É
claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as
arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado : as árvores, a vista do morro, até a
algazarra das crianças lá embaixo, na praça. 0 resto dos moveis são tão
poucos! podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.
A vitrola esta, tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao
desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais
tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos
técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.
Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as
canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe
para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles
que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e
honesto.
Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo
ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a
juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo
toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos,
portanto. E conseqüentemente com a estante também.
Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o
cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois
chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique
com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do
que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos
de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com
barro presta. Nem o homem.
Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem
destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste
nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.
Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com
estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza,
eu guardarei a minha.
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) A casa demolida Editora do Autor, Rio
de Janeiro, 1968, pág. 201.
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