O desbunde
Adélia Prado
Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou
melhor, um derrière esplendido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações.
Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele
tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua
em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e
escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo
preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali,
não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os
tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me
escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar
de segredos tão excitantes. O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava,
"não salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda
como o Calixto chamou ela naquele dia gostou. Casaram e tiveram pencas de
filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto
pra ele. Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a
tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do
tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base.
Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A
Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um
menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que
não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e
murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem
filosofante sobre as agruras do corpo.Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e
eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do
escritório eu tive, medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma
cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência.
Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido
dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa.
Imagina o risco que eu corri.
Adélia Prado - Filandras - Editora Record -Rio de Janeiro, 2001, pág. 51.
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