A língua girava no céu da boca
Carlos Drummond de Andrade
A língua girava no céu da boca. Girava!
Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu,
ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e
doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva
no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O
sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.
Extraído do livro "O amor natural", Editora Record Rio de Janeiro, 1992,
pág. 29.
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