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?Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

 

Viagem de bonde
Por Rachel de Queiroz



Era o bonde Engenho de Dentro, ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, empurrando sempre encaixa. O que provou ser otimismo, porque talvez encaixasse metade ou um quarto de pessoa magra, e a alentada senhora que se guindou ao alto estribo e enfrentou a plataforma traseira junto com um bombeiro e outros amáveis soldados, dela talvez coubesse um oitavo. Assim mesmo, e isso prova bem a favor da elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar. E tratava de acomodar-se gingando os ombros e os quadris ? direita e ?esquerda, quando o bonde parou em outro poste, o soldado repetiu o tal slogan do encaixe, e foi subindo — logo quem! — uma baiana dos seus noventa quilos, e mais uma bolsa que continha o fogareiro, a lata dos doces, o banquinho e o tabuleiro. E aquela baiana pesava os seus noventa quilos mas era nua, com licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava mesmo era aos cem. E esqueci de dizer que junto com ela ainda vinha uma cunhãzinha esperta que era um saci, que se insinuou pelas pernas do pessoal e acabou cavando um lugarzinho sentada, na beirinha do banco, ao lado de uma moça carregada de embrulhos e que assim mesmo teve o coração de arrumar a garota. Também o diabo da pequena conquistava qualquer um, com aquele olho preto enviesado, o riso largo de dente na muda.

Esqueci de falar que tudo isso se passava no carro-motor. No reboque, atrás, a confusão parecia maior. Muita gente pendurada entre um carro e outro, e havia um crioulo de bigode ?Stalin, muito distinto, tinha cara de dirigente no Ministério do Trabalho, que muito sub-repticiamente viajava sobre o pino de ligação entre os dois carros ou, para dizer melhor, com um p?na sapata do carro-motor e o outro na sapata do reboque. E quando o condutor aparecia para cobrar a passagem, se era o condutor da frente ele punha os dois pés no reboque, e se era o condutor do reboque que vinha com o "faz favor" ele então executava o vice-versa. Sei que não pagou passagem a nenhum dos dois e devia fazer aquilo por esporte; não tinha cara de quem precisa se sujar por cinqüenta centavos; esporte, aliás, que todo o mundo aprova e aprecia, pois quem ?que não gosta de ver se tirar um pouco de sangue ?Light? E a?o bonde andou um bom pedaço sem que ninguém mais atacasse a plataforma. A turma que chegava, ocupava-se agora em guarnecer os balaústres, formando com os pingentes uma superestrutura decorativa. Mas, alcançando-se o abrigo defronte ?Central, quase chegou a haver pânico. Porque no momento em que a multidão da calçada assaltava o veículo, a baiana quis descer, e não era façanha somenos desalojar aquela massa da pressão onde se encastoara, sem falar na pressão de baixo para cima feita pelos que tentavam subir, contra quem pretendia descer. Mas afinal j?a baiana aterrissara na calçada e o vácuo por ela deixado era instantaneamente ocupado com uma violência de sorvedouro, o condutor tocara o seu tintim de partida, quando ressoaram uns gritos agudos cortando o ar abafado. Era o pequeno saci de olhos pretos a clamar que o povo subindo não a deixara descer. E a tensão geral explodiu em cólera e ternura, e todo o mundo tocava a campainha, alguns confundiam, puxavam a corda do marcador de passagens, o condutor vendo isso pôs-se a imprecar em puro linguajar da Mouraria, uma voz berrava: — j?se viu que brutalidade, impedir a criança de descer; a baiana, em terra, chamava a filha com voz macia, o motorneiro, para ajudar e mostrar que não tinha nada com aquilo, desandou a tocar aquela espécie de sino que fica embaixo do p?dele. E enquanto os passageiros compassivos desembarcavam a garota, um senhor, que vinha em p?no meio dos bancos, pôs-se a declamar que era assim mesmo, que motorneiro, condutor e fiscal, em vez de se aliarem com o povo, não passavam de uns lacaios da Light, mas quando chegasse na hora de pedir aumento de ordenado haviam de querer que a população ajudasse com aumento nas passagens. O povo ?que ?sempre o sacrificado. E o condutor a?se enraiveceu também, e começou a convidar o homem para a beira da calçada, e o senhor disse que não ia porque não se metia com estrangeiros, e um engraçadinho deu sinal de partida e o motorneiro (que j?estava por demais chateado) partiu mesmo, deixando o condutor em terra, vociferando; s?foi dar pela falta quando chegou com o carro bem defronte do sinal; parou então, e enquanto o condutor corria o guarda começou a apitar, que o bonde tinha parado no meio da luz verde aberta para os carros em direção contrária; parecia o dia de juízo, o bonde parado, os automóveis buzinando, o guarda apitando e sacudindo os braços, o pessoal do bonde rindo que era ver uns demônios. Afinal o bonde partiu, tudo pareceu acalmar um pouco, mas aquele senhor em p?que xingara os pobres empregados da Light de lacaios do polvo canadense mostrou que era homem afeito a comícios, não se dava de uma interrupção tumultuosa. Estava acostumado a falar at?em meio da fuzilaria, assim que ele disse. E que isso tudo acontecia porque o Governo promete mas não cumpre o dispositivo constitucional — sim, meus senhores, constitucional! — da mudança da capital da República. Imagine que delícia o Rio ficar livre de toda a laia dos burocratas, dos automóveis dos políticos e dos políticos propriamente ditos. Imagine, o Getúlio em Goiás e com ele a alcatéia dos lobos, os cardumes de tubarões, os rebanhos de carneiros! Isso aqui ficava mesmo um céu aberto. Pelo menos um milhão de pessoas iria embora, e que maravilha o Rio com um milhão de vagas nos transportes, um milhão de vagas nas residências, um milhão de bocas a menos, para comer o nosso mísero abastecimento! As favelas se acabam automaticamente, o arroz baixa a quatro cruzeiros! Saem a Câmara e o Senado, e os Ministérios com todas as suas marias candelárias. Pensando nos ministérios — ser? apenas um milhão de gente que nos deixa? Calculando por baixo, talvez saia mais de um milhão! O que vir?em muito boa hora, pois no Rio sobram uns dois milhões!

E a?o bonde inteiro aplaudiu, cada qual s?pensava na vaga a seu lado. E, se aquele bonde fosse maior, talvez nesse dia, no Rio de Janeiro, houvesse uma revolução. Talvez o povo do Rio de Janeiro desse ordem de despejo para o seu Governo, lhe apanhasse os trastes, lhe apontasse a estrada, que ?larga e vai longe. Mas, feliz ou infelizmente, o bonde era pequeno e, apesar de conter tanta gente, não dava nem para um bochincho. E o Governo, pensando bem, também ?de carne como nós — e s?um coração de ferro tem coragem de deixar este Rio, assim mesmo apertado, superlotado, sem comida, sem transporte, sem luz e sem água. Como disse um paraíba que vinha junto com o soldado:

— Qual, se no céu faltasse água ou luz, por isso os anjos haveriam de se largar de l? Céu ?céu, de qualquer jeito...

(Rio de Janeiro, março 1953).


Texto extraído do livro “O Melhor da Crônica Brasileira – 1”, Jos? Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 53.


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Ilustração: Bira Dantas


Nasci em São Paulo, moro em Campinas. Trabalho com ilustrações e charges desde 1979. Fui desenhista da revista em quadrinhos "Os Trapalhões" (Bloch) de 80 a 82 e intercalador de desenho animado no Estúdio Briquet (Bond Boca) em 85, quando fiz parte da AQC (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de SP). Colaborei em revistas como Pântano, Tralha, Porrada, Megazine, Bundas, Em Ação (Caterpillar), EATON, IBM, 3M, Rockwell Fumagalli, apostilas do Anglo e jornais como Retrato do Brasil, Folha da Tarde (SP), Diário do Povo (Campinas), Pasquim21 e jornais Sindicais. Ilustrei livros pra Ed. Atual (O Caderno de Perguntas de Rebecca) e pra Ática (Curso de Inglês) através da Agência de Design e Editoração Grafos.

Sou professor de charge, cartum e caricatura na Escola de Arte Pandora, em Campinas.


SALÕES DE HUMOR


Desde 1985 tenho sido selecionado em Salões de Humor Nacionais: Piracicaba, Ribeirão Preto, Araras e Santo Andr?(SP); Belo Horizonte e Caratinga (MG); Rio e Volta Redonda; Piau? Pernambuco; Porto Alegre, Lageado e Univates (RS); Unacom (DF) e Internacionais: Rússia, Ir? Chipre/Turquia e Carquefou (França).

PRÊMIOS:

Em 1986, recebi o primeiro prêmio em caricatura, no IV Salão sobre Desenho de Humor de Belo Horizonte, organizado pela Sociedade Mineira de Engenheiros; Em 92, recebi menção honrosa na IV Mostra de Humor de Araras (SP); Em 98, no Salão Nacional de Humor sobre fiscalização dos Gastos Públicos (UNACON de Brasília), prêmio Júri Popular-Internet; Em 2000, duas menções honrosas em caricatura no Salão de Ribeirão Preto (SP); 2002: diploma de mérito "Zumbi dos Palmares" concedido pela Câmara dos Vereadores de Campinas/SP pela produção de um gibi sobre a vida de Zumbi; 2003: 19o Prêmio Ângelo Agostini, como melhor cartunista do Brasil em 2002 e primeiro lugar em Caricatura no Salão de Humor do Chipre Ramiz Gökçe; 2004: prêmio Ângelo Agostini de melhor cartunista e menção honrosa em Cartum no Salão de Volta Redonda.

(Campinas, 16 de novembro de 2004)

E-MAIL: biradantas@globo.com.br

 

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