Lua cheia

Helena Vasconcelos


Fui feita em noite de lua cheia, está tudo escrito no céu, basta consultar as cartas, não há engano possível. Aconteceu neste mesmo quarto, neste mesmo leito, lua tão grande assim nunca fora vista! Foi assunto de conversas por tudo e por nada, parecia o fim, tanta beleza não podia ser deste mundo. A luz entrava a jorros pela janela aberta, os amantes estavam desatentos, nada viam, não olhavam um para o outro, fechavam as pálpebras com força, cegos, entrelaçados num abraço indissolúvel, a cama desfeita, o chão inundado de claridade; não ouviam, não davam pela lua nem pelos gritos dos animais noturnos não sentiam o vento, que tudo abrasava; demasiado juntos, demasiado expostos, sem o refúgio da escuridão.

Fui feita do sal das lágrimas, do gosto amargo do suor, do agasalho do riso, do desconcerto brutal dos gestos. Eles, nem por um momento se lembraram de mim. O luar, esse, espreitava.

Nasci assim, curiosa do mundo, enrolada como um bicho-de-conta, mal amanhada, sem freio nem mestre. Na minha casa entrava a espuma das vagas e os espelhos devolviam-me o olhar, na superfície mate do sal. Nasci do nada, no meio de nada. Este corpo que é o meu, é apenas isso, um corpo.

Manias, só manias, desde o princípio. Uma completa e devastadora solidão. O desejo de descobrir o que estava mais além, longe do que fica bem dizer que está bem. Uma vontade de pertencer a alguém, sem levar adiante tanto atrevimento. No mesmo lugar, armada em dura, feita de aço, antes quebrar que vergar. A mesma lua, desafiadora de perigos, do perigo maior do amor. (A luz doce quando nada nos separava; o negro da escuridão, quando me vi só.)


*
As vozes chegam-me aos ouvidos, num murmúrio, abafadas pela porta do quarto:

“Por que espera ela? Se isto continua, ainda ficamos sem casamento…!”

Não há esconderijo no silêncio, as palavras jorram de outras bocas, ininterruptamente, incitam-me, empurram-me:

“Vai, vai , que bela estás, ele espera-te, vai...”.

Ordens e mais ordens. Não é possível fugir. Nenhum abrigo. Quero gritar e não posso, da minha garganta não sai qualquer som. (A minha cabeça coroada de flores, o meu corpo envolto num tecido de vento que estremece ao menor movimento, náufragos num mar revolto...) .

Um homem não é desculpa para nada, não serve de álibi. Um homem, seja ele qual for, santo ou guerreiro, demônio ou ermita não é nada, nem princípio nem fim. É apenas o que é, um homem.

Do outro lado da parede, a mesa está vergada com o peso de iguarias, as travessas deixam marcas profundas na toalha imaculada. Os cheiros quentes enfraquecem as pernas e fazem a cabeça andar à volta, os odores frios são cortantes como o vento do norte, as fatias douradas refulgem na luz, há patos inteiros, a pele como laca antiga, bolinhos de cristal, queijos leitosos e macios como luas, terrinas fumegantes com carnes tenras e picantes, peixes rosados de olhos glaucos, cardumes de lagostas agressivas como soldados em batalha.

“Por que não sai ela do quarto?” dizem as vozes, “ de que tem medo, ele ama-a tanto, é tão terno, olhem que belo par!…”


*
Que sabem as vozes das rotas do amor? Como podem falar assim, do que nem eu conheço? De paixão sim, que assim nasci, paixão que não esqueço, paixão perigosa, nefasta, insustentável. De amor se fala agora e nada sei.

O meu noivo irrompe pelo quarto, olhar feroz, mão estendida num gesto imperativo, sem margem para dúvidas. Olho o espaço que já não me quer, o espelho alto onde me revejo uma ultima vez. A luz branca invade tudo, para lá dos vidros o jardim escurece envolto em sombras. Na clareira, desenham-se formas fantásticas, tufos, espirais, estrias, rastos de lua.

Estendo o braço e avanço com o meu vestido de espinhos, o corpo em fogo, o coração a latejar, os teus olhos cegos cravados nos meus. Longe vão as noites em que suspirávamos um pelo o outro neste mesmo leito, entrelaçados, impossível separarmo-nos, a minha mão na tua, a tênue claridade a iluminar o teu perfil ardente.

Devagarinho, fecho a porta atrás de mim.


Helena Vasconcelos nasceu em Lisboa, Portugal. Foi para a Índia com quatro anos e, desde então, nunca mais parou de viajar. Formada pela Faculdade de Letras; em Filologia Germânica pela Universidade Clássica Lisboa e em História de Arte na Escola Arco, Lisboa, tem como ocupações principais escrever, ler e viajar. É atualmente, e desde o primeiro número, colaboradora permanente da revista ELLE portuguesa. Colabora com o "Jornal Público" desde a sua fundação – suplemento cultural Y - tendo também trabalhado no jornal "O Independente". Promove ações de Formação na área de apoio e divulgação à Leitura em Bibliotecas Municipais, orientando Comunidades de Leitores em Bibliotecas e, desde há cinco anos, na Culturgest, em Lisboa. É promotora e dinamizadora de “Os Clássicos na Gulbenkian”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; organizou os ciclos de conferências da Feira do Livro de Lisboa de 2004 e de 2005 (com Paula Moura Pinheiro). Escreveu sobre Arte em vários jornais, catálogos e revistas da especialidade, dos quais se destacam Neue Kunst in Europa (Alemanha), Juliet (Itália). Publicou um livro de contos em 1988 “Não Há Horas para Nada” (Ed. Relógio D’Água) que recebeu o Prêmio Revelação do Centro Nacional de Cultura. Publicou “Mário Eloy. O Pintor do Desassossego”, Ed. Caminho. Contribuiu com “short stories” para várias revistas portuguesas e estrangeiras. Criou e dirige a revista on-line "Storm-Magazine. O lugar da cultura" - www.storm-magazine.com.


O texto acima foi extraído da revista "Storm-Magazine" do mês de março de 2007, gentilmente remetida pela autora.

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