Oração Carioca

Helena Ferraz
(Álvaro Armando)


Pai nosso, tenha piedade
Da nossa bela cidade
Que já foi maravilhosa,
E agora, pobre coitada!
Vive suja e maltratada
E muito pouco cheirosa.

Qualquer ponto onde se saia,
É pequena sapucaia,
Construída com capricho.
Qualquer terreno baldio
Que se preze, aqui no Rio,
É depósito de lixo.

Veja, Senhor, nossa mágoa:
Nas bicas, não temos água.
Mas se do céu a água cai,
A enchente a cidade arrasa:
Não se volta para casa,
Ou de casa não se sai!

Os ônibus andam cheios.
Não têm lugar, não têm freios
Que não fazem falta, não.
Ninguém morre antes da hora
E quem vai morrer agora
Já tomou seu lotação...

Temos as praias mais belas
Com esgotos dentro delas,
Largando um cheiro tremendo.
E os morros mais verdejantes
Com seus pobres habitantes
Fingindo que estão vivendo.

Em milagres já não cremos.
Impossíveis não queremos,
Nem fantasias também.
Dê-nos, Senhor, quase nada:
Carne barata, morada
E o pão nosso em dia. Amém.


Como nos tempos de George Sand e de George Eliot, Helena Ferraz escrevia com o pseudônimo de "Álvaro Armando". Sua natureza satírica lhe impôs essa necessidade e ela escolheu um masculino, que mais justificaria a agressividade, composto com os nomes de seus filhos. Filha de Bastos Tigre, revelou talento incontestável, começando como colaboradora do pai na coluna "Pingos e Respingos", no jornal "Correio da Manhã", e depois, em "O Globo", com coluna própria, intitulada "Na boca do Lobo". Cultivava o humorismo ao gosto popular, com verdadeiros achados satíricos em versos, como o acima, extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira", Ed. Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957, pág. 382, organizada por R. Magalhães Júnior.

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