Um amigo em talas
Graciliano Ramos
O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha
costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem
importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de
gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou
desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do
gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe
faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos
tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente
desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na
cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o
que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma
grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e
trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou
meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente
daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não
foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: "Intelectual
desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos,
roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral
Júnior: "Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas:
dêem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Dêem-me trabalho." E,
catalogando as suas habilidades: "Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais,
psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências.
Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Dêem-me trabalho pelo
amor de Deus ou do diabo."
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o
pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei
publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente
solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não
as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as
mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de
terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na
redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior
oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias
policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem
regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está
impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas
entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes
anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais,
dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz
de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas
necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a
propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
Com este texto, extraído do livro "Linhas tortas", Editora Record - Rio de
Janeiro, 1983, pág. 125, homenageamos o autor na passagem dos 50 anos de seu falecimento.
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