A um livreiro que havia comido
um canteiro de alfaces com vinagre
Gregório de Mattos e Guerra
Levou um livreiro a dente
De alface todo um canteiro,
E comeu, sendo livreiro,
Desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
A quem disso o quer taxar;
Antes é para notar
Que trabalhou como um mouro,
Pois meter folhas no couro,
Também é encadernar.
Gregório de Mattos e Guerra (1633/1696), o Boca do Inferno, nascido na Bahia, foi
o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética.
Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra.
Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a
proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu
a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao
Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na
Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos
satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal.
Texto extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por
R.Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 09.
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