O homem que roubou a torre Eiffel

Graham Greene


Não foi tanto o roubo da torre Eiffel que me criou dificuldades, mas sim colocá-la de volta antes que alguém notasse. Devo afirmar, sem falsa modéstia, que o plano foi muito bem arquitetado. Vocês podem imaginar o que me custou — uma frota de caminhões enormes para carregar a torre até um daqueles campos planos e desertos que se vêem a caminho de Chantilly. Lá a torre podia facilmente ser colocada na horizontal. Durante a viagem, em uma manhã nevoenta de outono, havia bem pouco tráfego, e o pouco que havia era insignificante. Ninguém que tentou ultrapassar meus 102 caminhões de seis rodas notou que eles eram unidos entre si pela torre, como as contas de um colar: Os carros particulares chegavam a fazer menção de ultrapassar, mas quando os motoristas dos Fiat e Renault viam aquela fila de caminhões à frente, desistiam e conformavam-se em seguir a procissão. Por outro lado, os carros que vinham em sentido contrário tinham a estrada toda para eles: meus caminhões transformaram o trajeto Chantilly—Paris em uma longa estrada de mão única. Os carros passavam a toda velocidade e nem tinham tempo de notar que a torre estava apoiada sobre cada caminhão da corrente, como numa espécie de berço de centenas de metros de comprimento.

Tenho muito carinho pela torre, e fiquei feliz em vê-Ia, depois de tantos anos de guerra, cerração, chuva e radar, em repouso. No primeiro dia da mudança caminhei ao seu redor, de vez em quando tocando um dos suportes: o quarto andar parecia um pouco desconfortável no pedaço que passava por cima de um afluente manso e lamacento do Sena, então coloquei-o mais à vontade. Depois voltei para sua sede original — ainda temia que alguém notasse. Os grandes blocos de concreto estavam lá, sem nada em cima. Lembravam tanto túmulos, que alguém já havia deixado um maço de flores para os heróis da Resistência. Um táxi parou trazendo os últimos turistas da estação antes de, como andorinhas, rumarem para oeste com a chegada do inverno. O homem estava com uma garota e cambaleava um pouco ao caminhar. Curvou-se para ver as flores e ao endireitar-se ficou vermelho nas bochechas lisas e empoadas.

— É um memorial — disse.

Comment? — perguntou o motorista de táxi.

A garota acrescentou:

— Chester, você disse que poderíamos almoçar aqui.

— Não estou vendo torre nenhuma — disse o homem.

Comment?

— Veja bem — tentou explicar, gesticulando para dar maior ênfase —, você nos trouxe para o lugar errado. Fez um esforço. — Ici n 'est pas la Tour Eiffel.

Oui. Ici.

Non. Pas du tout. Ici il n 'est pas possible de manger.

O motorista saltou do carro e olhou ao seu redor. Fiquei um pouco nervoso, com medo de que desse pela falta da torre, mas ele voltou para dentro do carro e virou-se para mim dizendo, melancólico:

— Vivem mudando o nome das ruas.

Falei com ele em tom confidencial.

— Eles só querem almoçar. Leve-os ao Tour d'Argent. — Partiram satisfeitos e o perigo passou.

Obviamente havia sempre o risco de que os funcionários chamassem a atenção do público, mas eu havia pensado nisso. Eles recebiam semanalmente e quem seria bobo de admitir que seu local de trabalho desapareceu antes de esperar a semana terminar e ver se o dinheiro entrou normalmente? Os cafés das redondezas tornaram-se o grande ancoradouro dos funcionários da torre, mas todos evitavam sentar na mesma mesa de seus colegas de trabalho para não dar margem a conversas constrangedoras. Identifiquei um boné de uniforme por bistrô em uma área de uma milha quadrada: cada homem passava as horas de seu expediente sentado tranqüilamente a uma mesa de bar, tomando uma cerveja ou um pastis dependendo do salário, levantando pontualmente para bater o ponto da saída. Não me pareceu que estivessem perplexos com o desaparecimento da torre. Era algo que podia ser convenientemente esquecido, como o imposto de renda. Melhor não pensar a respeito: se pensassem, alguém poderia esperar que tomassem uma providência.

Os turistas, obviamente, representavam o perigo maior. Aviões noturnos alegaram nevoeiro baixo, e o Ministério do Ar solicitou o "comentário" do Ministério das Relações Exteriores sobre várias reclamações de interferências no radar — um novo dispositivo russo na guerra fria. Mas logo espalhou-se a notícia, entre guias e motoristas de táxi, de que quando um turista pedisse para ver a torre Eiffel a melhor coisa a fazer era simplesmente levá-lo ao Tour d' Argent. A gerência do lugar não decepcionava, e a vista, nesses dias de outono, também era ótima, de modo que os turistas assinavam o livro de clientes a tanto por cabeça. Eu costumava ir para lá ouvi-los.

— Eu imaginava que era mais, como dizer... metálica — disse um deles. — Achei que dava para ver através dela.

— Expliquei-lhe que isso se aplicava perfeitamente ao estabelecimento em que se encontrava.

Férias nunca duram para sempre, e uma manhã, enquanto rodeava a torre aplicando um pouco de cuspe e polidor aos suportes, concluí que ela precisava voltar a funcionar antes que os empregados sentissem falta de seu salário. Só me restava esperar que, algum dia, ela encontrasse outra pessoa que, como eu, lhe desse a chance de passar uma temporada no campo. Garanto que não há risco nenhum. Ninguém em Paris admitiria que a ausência da torre passou despercebida por cinco dias — assim como um homem apaixonado não admitiria não ter notado a falta da amante.

Mesmo assim devolver a torre não foi fácil, tendo sido obrigado a lançar mão de alguns truques a fim de desviar a atenção das pessoas. Para facilitar, encomendei a um conhecido, que fazia figurinos teatrais, alguns uniformes da polícia, das Gardes Mobiles, das Gardes Républicaines e da Académie Française. Planejei uma reunião de poujadistes, uma rebelião de argelinos e um discurso pela morte de um crítico de teatro obscuro, que um amigo meu fez "disfarçado" de Ministro da Educação. Digo disfarçado, mas na verdade não havia a menor necessidade de mudar de nome, nem de cara, visto que ninguém lembrava quem ocupava essa pasta no gabinete de Monsieur Mollet.

Os turistas tiveram a última palavra e, curiosamente, enquanto admirava minha amada torre, que parecia dar piruetas na névoa da manhã, de volta a seu lugar, vi o mesmo americano chegando de táxi com a mesma garota. Ele olhou rapidamente ao seu redor e disse:

— Aqui não é a torre Eiffel.

Comment?

— Ah, Chester — disse a garota —, onde é que nos trouxeram desta vez? Eles nunca acertam. Eu estou morrendo de fome, Chester. Estou sonhando com aquele Sole Délice que comemos.

Eu disse para o motorista:

— É o Tour d'Argent que eles querem — observei-os partir. A coroa para os heróis da Resistência havia murchado, mas eu peguei uma flor seca e desbotada, coloque lapela e acenei para a torre. Não ousei ficar mais tempo Poderia ficar tentado a roubá-la de novo.


Graham Greene nasceu em 1904, na Inglaterra. Era tímido, sensível, e preferia a leitura aos esportes. Seu pai, diretor da escola onde estudava, o atormentava por isso, o que fez com que tentasse várias vezes se suicidar. Aos quinze anos de idade, após abandonar a escola, foi mandado para um psiquiatra, em Londres, que o incentivou a escrever. Estudou história contemporânea no Balliol College e, depois, foi para a universidade. Lá conseguiu alguma experiência trabalhando como editor do Oxford Outlook e foi também onde passou a se interessar por política, depois de se filiar ao Partido Comunista, segundo ele mesmo, por diversão.

Escreveu seu primeiro romance antes de se formar.Trabalhou no Times, em Londres, como editor assistente, em 1926. Casou-se com Vivien Dayrell-Browning. Escreveu seus primeiros romances políticos, "The Episode", que foi rejeitado pelos editores, e "The Man Within", que foi publicado com sucesso — o que levou Greene a ter que tomar uma decisão na vida: continuar a carreira de editor no Times, que ele adorava, ou se tornar um escritor. Optou pela segunda, mas quase teve que voltar atrás depois do fracasso dos dois romances que vieram a seguir, "The Name Of The Action" e "Rumor At Nightfall". Viveu um bom tempo com o dinheiro de adiantamentos dos editores e como crítico literário do Spectator. Dizem que as pressões por dinheiro fizeram que ele escrevesse "Stamboul Train" — um romance "escapista", com a intenção de agradar o público.

Mas a partir de "Stamboul Train", nunca mais teve que se preocupar se seus livros eram categorizados como "diversão" ou "sérios". Além de escrever resenhas de livros, passou a escrever sobre cinema e começou a escrever roteiros para filmes, sendo o mais famoso deles a adaptação de "The Third Man" ("O Terceiro Homem").

Viajou pelo mundo e, durante a Segunda Guerra trabalhou para o Serviço Secreto Inglês em Serra Leoa.
Com "The Power And The Glory" (O poder e a glória), considerado seu melhor romance, Greene recebeu o prêmio Hawthornden.

As constantes viagens, que serviam de combustível para seus livros, continuavam: foi ao Vietnam durante a guerra na Indochina, ao Quênia durante o levante Mau Mau, à Polônia stalinista, à Cuba de Castro, e ao Haiti de Duvalier.

Depois da publicação de "The Quiet American" (O americano tranqüilo), o autor foi acusado de ser anti-americano.

Sua vida pessoal também foi cheia de notoriedade: o sucesso financeiro depois da metade dos anos 60 permitiu que ele pudesse viver confortavelmente em Londres, Antibes e em Capri. Ele teve várias amantes e confessou ser "um péssimo marido" — separou-se da mulher ainda em 1948, mas nunca divorciou-se dela. Nos últimos anos de vida, viveu em Vevey, na Suiça, com Yvonne Cloetta.

Faleceu no dia 3 de abril de 1991.


Outras obras:

O décimo homem

Expresso do Oriente

Fim de caso

O homem de muitos nomes

Nosso homem em Havana

O poder e a glória

O americano tranqüilo

Reflexões

Um lobo solitário

O amante complacente

O coração da matéria

O galpão do jardim

O condenado

Os farsantes


Texto extraído do livro “A última palavra”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1995, pág. 48, tradução de Raffaella de Filippis.

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