A "Notre-Dame" de V. Hugo

Gonçalves Dias
Pitões, 1844


Satanás passeando — veio um dia
ao mundo sublunar e viu criada
a formosa Esmeralda — doce fada,
vivo sonho de viva fantasia.

Ora o diabo tem queda para a ironia.
— Hei de pregar, disse ele, caçoada
no padre eterno, que não sabe nada,
se não sabe o que é bom em poesia.

Falou desta maneira o Sr. Diabo,
escoucinhando no ar, com um jumento,
coçando a fula orelha e alçando o rabo.

E foi o resultado deste evento
parir ao Quasimodo — que no cabo
com o anjo do Senhor fez casamento.


Antônio Gonçalves Dias (1823) nascido em Caxias, no Maranhão,  é considerado uma das grandes figuras da poesia brasileira, famoso pelos seus poemas de feição indianista. Além de poeta, foi dramaturgo de talento, deixando entre outras obras o drama "Leonor de Mendonça", representado por muitos anos com com grande êxito. Foi também historiador e etnógrafo, tendo merecido a honra de ser enviado pelo governo imperial do estrangeiro em missões de grande importância cultural. O poeta faleceu no naufrágio do navio "Ville de Boulogne", nas costas do Maranhão, a 03 de novembro de 1864 . Sua musa não foi apenas romântica. Feriu também a nota satírica. Foi um dos autores brasileiros que Camilo Castelo Branco relacionou no seu "Cancioneiro Alegre". É o patrono da cadeira nº 15, da Academia Brasileira de Letras, que teve Olavo Bilac como o primeiro ocupante.


O poema acima foi extraído do livro "Humor e Humorismo - Poesia e Versos", Ed. Brasiliense - São Paulo, 1961, pág. 78, seleção, notas e comentários de Idel Becker.

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