Minha Nova Namorada
Fernando Sabino
Tenho a informar que arquivarei a partir de hoje, espero que para todo o sempre, esta
máquina de escrever na qual venho juntando palavras como Deus é servido, desde que me
entendo por gente.
Não a mesma, evidentemente. Ao longo de
todos estes anos, da velha Remington Rand no escritório de meu pai, passei pela
Underwood, a Olympia, a Hermes Baby, a Hermes 3.000, a Smith Corona, a Olivetti, a IBM de
bolinha, algumas de mesa, outras portáteis ou semi-portáteis. Todas mecânicas, com
exceção desta última, que é elétrica.
Pois agora aqui estou, pronto a me passar
para algo mais sério, iniciar uma nova aventura amorosa. Sim, porque segundo me ensinou
minha filha, que entende de ambos os assuntos, os computadores e as mulheres têm uma
lógica que lhes é própria e que devemos respeitar. Pois vamos ver como esta computa - e
nem o palavrão contido em seu nome sugere-me outra coisa senão que se trata de minha
nova e casta namorada.
Assim como para o homem tudo se ilumina
na presença da mulher amada, para o escritor este invento é uma forma igualmente
luminosa de realizar a sua paixão pela palavra escrita. Não é uma simples máquina de
escrever, que funciona como intermediária entre o escritor e a escrita, às vezes se
tornando um obstáculo para a criação literária. Ao contrário, o computador estabelece
uma surpreendente intimidade com o texto do momento mesmo de sua elaboração. Permite
emendas, acréscimos, supressões, transposições de frases e parágrafos com uma
velocidade milagrosa. Deve ter alguém lá dentro comandando tudo, provavelmente uma
mulher, uma japonesinha, na certa. Ela dá instruções, chama nossa atenção se
esquecemos de ligar a impressora, conversa com a gente: "Operação incorreta. Tente
de novo". E quando dá certo: "Operação executada com êxito". Só falta
acrescentar: "Meus parabéns. Eu te amo!"
Escrever, que durante tantos anos
constituiu um tormento para mim, passará a ser um caso de amor. Nunca mais olharei sequer
para a máquina de escrever. Serei radical: ou entregar-me a este conúbio com o
computador, no suave embalo de suas teclas e no luzente sortilégio de suas letras, ou
regredir à solidão do celibato, em companhia da austera e rascante pena de pato.
Imagino só a felicidade de Tolstoi, se
pudesse ter escrito todo a "Guerra e Paz" com a mesma facilidade com que passei
a escrever esta crônica no computador.
Pois então lá vai:
O melhor de um computador está nisso: poder
torocar uma palavra a vo tade, mudar de idéia sem mudar o papel
Sem usar o papel. Uma das vantagens do
computador é poder corrigir tuDO o fimmmm. Nã precisa de-
caneta
Máquina de escrever e canheta já eram. Num com puta dor o
sonho de um escritor se realiza: o da perfeição absoluta de uma
semntença, graças à facilidade em, mudar palavras, cortar, acrescen
tar. O sonho do escritor e de toda a humanidade
O SONHO DA HUMANIDADE DE ATINGIR A
PERFEIÇÃO
atingir a perfeição
A perfeição que a humanidade sonha em
atingir Sonha atingir
Que o homem sonha alcançar conseguir realizar
Muita gentye fica admirada ao percebner a
facilidade com que
Muita gente se admira com a facilidade
Muitos leitores se admirão com a aparente facilidade com que
escreverei fraes quae perfeitas escrevo
sentenças textos quase per-
feitos depois que abandonei troquei a
máquina de escrever esta sim
uma engenhoca de tração animal por esta fabulosa invençção
esta prodigiosa admirável estupenda
assombrosa espanto-
sa m,iraculosa, extraordinária maravilhosa
até pa-
rece que os sinônimos fabulosa ocorrem com mais faci-
lidade sem precisar consultar dicionários d
sinônimos,
Desde que é mais fácil revisar e editar um
texto computado? Compu-
torizado computadorizado do que escrito a mÁQUINA OU A MÂO
torna muito
extremamente difícil impossível parar de revisae-
editarosuficiente para resultar çuma frase
legível
quanto mais uma crônica sobre a nova namoraddaPOISStãa pois
então vai assim meso!!!#@@@***boa x.sorte
procês...
Texto extraído do livro "No Fim dá Certo", Editora Record - Rio de
Janeiro, 1998, pág. 106.
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sobre o autor em "Biografias".
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