Dois Entendidos
Fernando Sabino
Dizem que tem uma memória extraordinária e sabe tudo sobre futebol. Suas lembranças
desafiam contestação.}
Um dia, porém, viu-se numa reunião em que se achava outro com igual prestígio. E os
dois acabaram se defrontando:
Você se lembra da primeira Copa Roca disputada no Brasil? - perguntou-lhe o outro.
Se me lembro.
E disse o dia, o mês e o ano.
Fazia um calor danado.
Isso mesmo: um calor danado. Lembra-se da formação do time brasileiro?
Quem é que não se lembra?
Cantou para o outro o time todo. O outro ia confirmando com a cabeça. Fez apenas uma
ressalva quanto ao extrema-esquerda.
Eu sei: mas estou falando o time titular. Agora vou lhe dizer os reservas.
Declamou a lista dos reservas, e sugeriu, por sua vez:
Você naturalmente se lembra da formação do time argentino.
O outro embatucou: o time argentino? Não, isso ninguém era capaz de dizer.
Pois então tome lá.
E recitou o time argentino. O outro, meio ressabiado, procurou recuperar o terreno
perdido:
Para nomes não sou muito bom. Mas me lembro que o goleiro argentino segurou um
pênalti. - Um pênalti mal cobrado, foi por isso: faltavam sete minutos para acabar o
jogo.
O outro, como que ocasionalmente, disse quem cobrara o pênalti, fazendo nova investida:
E lhe digo mais: o juiz apitou quinze "fouls" contra nós no primeiro
tempo, dezessete contra eles. No segundo tempo...
Está aí; isso eu não sou capaz de garantir. Tudo mais sobre o jogo eu lhe digo.
Aliás, sobre esse jogo, ou qualquer outro que você quiser, de 1929 para cá. Mas essa
história de número de "fouls". . Como é que você sabe disso com tanta
certeza?
Sei tornou o outro, triunfante porque fui o juiz da partida.
Com essa ele não contava. O juiz da partida.
Como é mesmo o seu nome?
Ficou a rolar na língua o nome do outro.
Você tinha algum apelido?
O outro deu uma gargalhada:
Juiz, com apelido? Naquele tempo eu já me fazia respeitar.
Sei, sei e ele sacudiu a cabeça, pensativo.
Engraçado, me lembro perfeitamente do juiz, não se parecia com você.
Chamava-se... Espera aí: se não me falha a memória...
Ela costuma falhar, meu velho.
Ao redor a expectativa dos circunstantes crescia, ante o duelo dos dois entendidos.
...o juiz era grande, pesadão, anulou um gol nosso, houve um começo de sururu...
Emagreci muito desde então. E anulei o gol porque já tinha apitado quando ele
chutou. Houve realmente um ligeiro incidente, mas fiz valer minha autoridade e o jogo
prosseguiu.
Você já tinha apitado...
Já tinha apitado.
Os dois se olharam em silêncio.
Quer dizer que quem apitou aquele jogo foi você - recomeçou ele, intrigado.
Fui eu. E lhe digo mais: quando Fausto fez aquele gol de fora da área...
Já na prorrogação.
Na prorrogação: quiseram protestar dizendo que ele estava impedido...
Não estava impedido.
Eu sei que não estava. Tanto assim que não anulei. Mesmo porque, a regra naquele
tempo era diferente.
Nem naquele tempo nem hoje nem nunca aquilo seria impedimento. Se o juiz me anula
aquele gol...
...teria que anular também o primeiro gol dos argentinos...
...que foi feito exatamente nas mesmas condições.
Calaram-se um instante, medindo forças. Mas o outro teve a infelicidade de acrescentar:
Mesmo que o bandeirinha tivesse assinalado...
Ele saltou de súbito, brandindo o dedo no ar:
Já sei! isso mesmo! Você não foi juiz coisa nenhuma! Você era o bandeirinha! Me
lembro muito bem de você: era mais gordo mesmo, todo agitadinho, corria se requebrando...
Tinha o apelido de Zuzú.
O outro não teve forças para negar e se rendeu à memória do adversário. Mesmo porque,
encafifado, fazia uma cara de Zuzú.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio
de Janeiro, 1965, pág. 60.
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