O centaurinho feio

Fortuna


Quando nasci, duas mães se engalfinharam, discutindo de qual eu era. Levado a um juiz repetente de Salomão, ele arbitrou que eu fosse cortado ao meio, não esclarecendo, porém, se no sentido horizontal ou longitudinal. Esta inepta intervenção felizmente não se consumou, porque as duas senhoras se mantiveram imperturbáveis, assim demonstrando, cada uma, que eu era filho da outra.

Havendo o juiz me mandado andar, trotei alegremente até a mocidade, quando caí sentado de amores por uma cadeira, que me levou todo o dinheiro em ingressos ao seu camarote. Era uma cadeira de pernas cruzadas, que sentada comigo ficava, mas não dava jeito de deitar. Devido a esse seu obtuso angulo puritano, acabei na lona: dando voltas no picadeiro cercado de exemplares bípedes variados. Cada noite de função a cadeira estava com um.

Tive também um caso com uma mesa, que eu julgava de cabeceira, mas era de botequim, onde vivia de equilibrismos com sua perna realmente única.
Desencantado das minhas afinidades eletivas, busquei o esquecimento chamando irmãos os animais. Dizia — Meus irmãos centauros!

Mas na verdade me sentia filho único, pois os sinais particulares que os tornavam excepcionais eram um certo ar animal, enquanto que eu sou todo lado humano.

Minhas pernas são perfeitamente normais como os braços da deusa hindu, dentro da sua espécie. Pelo outro lado, não me adorna vestígio de rabo e a maior prova de que me encontro no mais alto grau da escala evolutiva é de que no lugar disso sou provido de pudor.

Incapaz de andar de pernas nuas como impudentes cavalos não-motores, afinal realizei o meu sonho: hoje sou o perfeito garoto-propaganda de um paletó — o complemento ideal para a sua gravata — e duas calças de oito vincos permanentes e à prova de caimento.

— Próxima atração: comercial do perfeito garoto-propaganda do terno de uma calça e dois fundos. (Fundo musical).


Reginaldo José de Azevedo
Fortuna, segundo Millôr Fernandes em "Retratos em 3 x 4 de alguns amigos 6 x 9" (1969), "tem trinta e poucos anos de altura, a personalidade dele mesmo, riso hipotético, traço desconfiado e é tarado por coisas que detesta. Perfeccionista nato, entre suas descobertas estão o furo da rosca, o oco exterior e a moeda sem coroa. Profundo humorista, fica triste sempre que o levam a sério; acha que nunca foi tratado com a hilaridade que merece." O autor faleceu precocemente no dia 05-09-1994. No 22º. Salão de Humor de Piracicaba, realizado em 1995, foi criada e concedida a Medalha "Reginaldo Fortuna" aos maiores destaques do humor da cultura do país, entre eles os cartunistas Jaguar, Claudius, Ziraldo e Millôr Fernandes; o palhaço Arrelia e a comediante Dercy Gonçalves.


Texto extraído do jornal "
O Pasquim", edição nº. I — Rio de Janeiro, 26-06-1969, pág.19.

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