Sobre o amor
Ferreira Gullar
Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta:
quando pronunciasse eu te amo , mentindo, o gatilho disparava e elas
explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma
enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos
a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que
não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa
mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer
acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é
mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.
Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos.
Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical falo do amor-paixão
e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa
ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento:
fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando
alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.
O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição,
anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor
institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas
pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver
juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem
social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e
abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos
maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à
pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o
casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar
nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar
filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria
vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções
e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.
Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou
à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas
com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o
vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta
vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos
bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas
respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa
inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas
dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventUra sonhada, o amor louco, o
sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério - o assim
chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa
espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para
curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz
e volta ao bife com fritas.
Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos
teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um
ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo
o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber
que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição
máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da
relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la
enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é
necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços,
querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta
realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá
estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio
se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.
A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade.
Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso
inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho:
homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis
senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua
vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para
chegar. Ele se assusta: mas então está tUdo acabado? Não era verdade o sonho? E assim
é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a
felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível
continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo
normalmente.
Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guardaroupa, a cômoda, a
camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da ausência do sonho, que é
agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a
gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já
não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia,
na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias
do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de
sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que
te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se
dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma
vez e habituarse? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes
gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E
chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como
outra qualquer.
E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que,
subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou
fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era
lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama era regular, mas no papo um saco, e
mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!...
Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e
nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
O texto acima foi extraído do livro "A estranha vida banal", editora
José Olympio - 1989, e consta da antologia "As 100 melhores crônicas
brasileiras", Editora Objetiva, pág. 279 - Rio de Janeiro - 2005,
organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.
Saiba tudo sobre Ferreira
Gullar e sua obra em "Biografias".
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