Conversas de mulher

 Eneida


Conheço-a há pouco tempo, mas tenho por ela a maior das simpatias. É mulher vibrátil, inteligente, bonita e espirituosa. Fala-me de coisas belas e boas da vida, e outro dia subitamente perguntou-me se não cogito de fazer uma operação plástica facial, que acabe com as minhas rugas, devolvendo-me ao rosto a louçania de passadas eras.

Isso aconteceu num encontro de rua, banal encontro de duas mulheres, não fosse a longa explanação que dela ouvi sobre a técnica do rejuvenescimento. Citou nomes de mulheres nacionais e estrangeiras muito jovens hoje e que realmente conheci maduras quando eu era menina.

— Veja, por exemplo, a Marlene Dietrich...

Conta-me que essas operações já estão sendo feitas no Brasil, que antigamente, para desenrugar-se, a mulher precisava ir a Paris, Londres, Viena ou Nova Iorque, onde a operação, sendo a mesma, é inteiramente diferente quanto ao custo.

— Em nosso país há médicos especializados e competentes realizando a operação pelo preço baratíssimo de cinqüenta mil cruzeiros.

Assim ela fala e eu ouço encantada: convenhamos que tem razão ; a recuperação da mocidade, mesmo e apenas aparente, vale muito mais do que qualquer quantia.

A conversa. continuou, e ouvi então esta enorme revelação: o perigo, o grande perigo é que muitas mulheres, quando saem da casa de saúde despidas de rugas, trazem no rosto um ar de total imbecilidade. Por isso é importante — muito importante — saber o que tirar, qual a ruga ou grupo de rugas que devem permanecer. O médico, além de bom operador deve ser também um esteta e um psicólogo para não liquidar na máscara feminina a marca da personalidade conquistada através, de. anos vividos.

Como estávamos ambas apressadas — ela para continuar fazendo compras e eu para trabalhar, despedimo-nos. Sua frase final andou comigo pelas ruas, gravada em mim:

— Essa coisa está ficando tão comum e obrigatória que daqui a cinco anos ouviremos uma mulher dizer que está com hora marcada num médico: — "Hoje vou fazer minha operação plástica" — como hoje diz que tem hora marcada no cabeleireiro ou no dentista. Tiraremos rugas como tiramos sobrancelhas.

Não desaprovo essas operações nem nego às mulheres o direito de defender e conservar a beleza, mas depois dessa conversa pensei. um pouco nas minhas rugas, pobres rugas que jamais serão desfeitas e que até aquele momento não tinham vivido um minuto sequer em minhas cogitações. Cinqüenta mil cruzeiros. Com eles, se os tivesse, quantos meses passaria em Paris? Ou viajaria o Amazonas? Que livros compraria?

As rugas de minha testa apareceram cedo. Depois li que elas são o prêmio concedido, a partir dos dezoito anos, às pessoas que costumam se preocupar com problemas seus e do mundo. Quantas preocupações tive, ainda menina., com a.s definições, os problemas da Metafísica, os sentimentais e mesmo os políticos. Quantas rugas criei as poucas vezes que votei?

Operando minhas rugas, eu poderia depois pensar sem que outras rugas nascessem, ou a operação me proibiria, cassaria meu direito a pensar? A quem estaria enganando sem rugas. a mim ou aos outros? E se depois da operação plástica eu ficasse com uma cara imbecil se bem que formosa ? Se eu me procurasse e não me encontrasse Pensei em minha mãe muito jovem ensinando que o importante: é ter sempre saúde mental, física e moral. Pensei em George Sand dizendo: — "Quando me examino vejo que as duas químicas paixões de minha vida foram a maternidade e a amizade." Com essas duas paixões quantas rugas terão nascido naquela tão fabulosa mulher?

De qualquer modo, cumprimentemo-nos: dentro em breve, neste país, com as operações plásticas a preço módico — cinqüenta mil cruzeiros — não mais haverá brotinhos, balzacas ou coroas. Infelizmente a divisão de classes continuará por algum tempo, e por isso no Brasil, daqui a pouco só serão velhas as mulheres trabalhadoras como eu e centenas de outras, e as mulheres operárias, aos milhares.

Manteremos as rugas: elas contam nosso destino.



ENEIDA de Moraes nasceu em Belém do Pará no dia 23 de outubro de 1904. Jornalista, escritora, foi uma das mais profundas conhecedoras do carnaval brasileiro. Formada em odontologia, logo trocou seu consultório para se tornar colaboradora em jornais e revistas. A paixão pelas letras levou-a a organizar grupos de escritores para discutir literatura em vários cantos do Brasil. O ano de 1929 marcou a estréia como autora, com o volume de versos "Terra Verde".

Três anos depois ela entra na militância política. Presa em 1935, por defender principalmente a inclusão social, é mandada para a Casa de Correção do Rio. Sua passagem por lá despertou a curiosidade do escritor Graciliano Ramos. Preso, também, por causa de suas idéias políticas, ele indagava aos amigos “...quem é aquela mulher de voz forte e poderosa". O interesse se transformou em admiração e rendeu a Eneida a imortalidade no livro “Memórias do Cárcere.”

Mesmo tendo passado por tantos percalços, a autora não perdia seu encantamento pelo carnaval. Dizia ela: "É no carnaval que todas as fronteiras sociais desabam — pretos, brancos, cafuzos, caboclos, todos em confraternização durante o reinado momesco". Essa festa e suas mudanças estão registrada no livro "História do Carnaval Carioca", que virou leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais sobre a folia.

Foi homenageada pela Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro, que, em 1984, teve como tema do samba enredo "Eneida, Amor e Fantasia". Em Belém, o Império de Samba "Quem São Eles?" dedicou também a ela o samba-enredo

A autora faleceu em abril de 1971, na cidade do Rio de Janeiro.

Alguns livros publicados:

"Terra verde"
"O Quarteirão, Paris e outros sonhos"
"Sujinho da Terra"
"Cão da Madrugada"
"História do carnaval carioca"
"Aruanda".


A crônica acima foi extraída do livro “Aruanda”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1957, pág. 145, em mais uma colaboração do “Rato de Sebo” João Antônio Bührer.

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