Conversa de mulheres
Eustáquio Gomes
Esgueirei-me por trás de um armário e fiquei de butuca, ouvindo a conversa delas. Como
um gato (ou um rato?) consegui me encaixar entre o armário e umas embalagens de
computador vazias, pondo-me à escuta. Apenas um biombo nos separava. Talvez estivessem
assim tão alegres apenas por causa de seus computadores novos. Mesmo sabendo que a firma
não pagava hora extra, tinham ficado até mais tarde com a desculpa de configurar
programas. De repente, minha chefe saiu-se com esta:
Se ela quer dar em cima do meu
marido, tudo bem, eu até compreendo. Mas em cima do Haroldo? Ah, isso eu não vou
suportar!
Risos. Conversa boa, aquela. Acho que
conheço esse Haroldo. Alguém comentou algo que não compreendi bem, mas que pelo jeito
era uma confissão íntima. Risos cochichados. Houve protesto. Uma gordinha arisca, que
chamarei dona Pintassilgo, disse:
Não vou nessa de intimidade com
mulheres. A gente começa fazendo grandes revelações e termina trocando abobrinhas.
Havia diálogos paralelos, o assunto não
se estabilizava. Mas parecia que havia ali um eixo: maridos. Eu as conhecia bem: algumas
eram casadas, outras separadas e casadas de novo, e só uma delas, pelo que sei, era
solteira. E mesmo assim só em tese (ou tesão, como queiram).
Sou de opinião que a gente pode
até enganar o marido, mas faltar com o respeito, não disse uma que tem voz de
araponga (não me perguntem como é voz de araponga). No que teve a concordância da
magricela de nariz pontudo e fino:
Claro, é preciso manter nossos
casos dentro do mais elevado padrão moral.
E não devem ser muitos. Dois,
três no máximo. Mais do que isso é sacanagem sentenciou a araponga.
Minha chefe suspirou:
Bom, antes à tarde do que nunca.
Mais risos. De repente, com o tumulto, a
conversa se tornou confusa, fragmentada. Ouço o estampido de uma garrafa que se abre:
cerveja? champanhe? refrigerante? Não deixam por menos, essas esforçadas operárias da
era digital.
O que você faz para chamar a
atenção de um homem? quis saber minha chefe.
Bom, eu levanto as pestanas
respondeu a araponga.
As pestanas? E funciona?
Claro que sim. É quase como se
você levantasse a saia. Pode esperar de volta um olhar derretido como mel num prato de
waffles.
Mais tumulto verbal. Quando a situação
voltou ao normal, dona Pintassilgo estava em plena campanha contra o casamento:
Não me adaptei. Acho que não
sirvo para me acasalar em cativeiro.
Concordo. Casando, você troca a
atenção de muitos pela desatenção de um só.
Araponga evidentemente era do time das
casadas. E como era também do time das balzaquianas, sua experiência valia muito.
Querem saber qual o segredo do meu
casamento? Nós jantamos fora duas vezes por semana. À luz de velas. E voltamos sempre
tarde. Ele sai às quintas, eu aos sábados.
A magricela queixava-se do marido:
Me chama de fria.
Diz a ele que não existe mulher
fria, só mal esquentada.
Palavra de araponga. Cuja experiência
era realmente grande: revelou que, quando morava na Argentina, foi casada com um inglês.
E como era ele? perguntou
minha chefe.
Nada mau. Toda noite eu me
fantasiava de Ilhas Malvinas e ele me invadia na base do Exocet.
Pois meu marido, disse a
magricela, só foi bom na lua-de-mel. Tão bom que a certa altura tive de interromper tudo
e aplaudir de pé. Foi o meu erro.
Por quê?
Nunca mais repetiu a proeza. Em
compensação, ontem comemoramos nossas bodas de lata.
Bodas de lata. Como é isso?
Dez anos comendo enlatados.
E por aí seguiu a conversa, cheia de uma
verve que nos homens é rara. Infelizmente não posso relatá-la inteira, pois não tomei
notas e minha memória é fraca. Devia ter gravado, pois assim aprenderia um pouco mais da
psicologia feminina. Quando elas apagaram a luz e se foram, saí da minha toca. A sala
emanava uma sensualidade perfumada. Procurei o comutador e logo vi o livro sobre a caixa
de uma CPU. Folheei-o a esmo e encontrei aqui e ali vestígios da espirituosidade delas.
Era uma coletânea de frases e ditos célebres recolhidos por Ruy Castro. Imaginei que
elas o liam como se fosse um jogral, e para quem? No dia seguinte, ao cumprimentar minha
chefe, descobri tudo. Ela piscou para dona Pintassilgo e sorriu com ar de mistério:
Sabe o que eu faço com meninos
bonitos e abelhudos? Primeiro resisto aos avanços deles, depois bloqueio sua retirada.
E lançou o corpão à minha frente,
impedindo que eu passasse. E riu como uma valquíria. Com o que absolutamente não me
importei, pois nós, os boys da firma, estamos preparados para tudo. Mas que minha
chefinha é gostosona e danada de sapeca, lá isso é.
Eustáquio Gomes nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas
Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra
dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de
bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se
Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os
modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem
publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os
paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios
internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu
uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em
jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da
capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também
na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e
em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que
está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular,
de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais,
entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a
maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido,
está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground"
(Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre
Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado"
(poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de
Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio
biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos"
(ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um
Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995),"O Mapa
da Austrália" (romance, 1998) e "A Febre Amorosa: Romance Bandalho"
(romance, 2001) .
Aos domingos escreve no suplemento "Metrópole" do jornal "Correio
Popular", de Campinas (SP), de onde extraímos esta crônica.
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