Questão de gênero

Eustáquio Gomes


Dercy Gonçalves, que envelhece sem perder seu ar de adolescente peralta, já era mais que octogenária quando aceitou ser madrinha de uma turma de formandos da Unicamp. Meia hora antes da solenidade, toca o meu telefone. Era uma das moças encarregadas da organização da cerimônia.

— Estamos com um problema e pensamos que poderia nos ajudar.

O problema era uma dúvida gramatical:

— Sabe nos dizer qual é o feminino de patrono?

— Não será patronesse? — arrisquei, já certo de que falara bobagem.

— Patronesse é organizadora de festas — disse ela decepcionada. — Se a mulher vai ser homenageada, não pode estar organizando a própria festa.

— Espera um pouco. Vou consultar o Aurélio.

— Não adianta. Já consultamos.

Nesse caso, peço um tempo e desligo. De fato os dicionários não esclarecem grande coisa a respeito. O Aurélio informa que "patrono" é substantivo masculino, mas não diz se tem feminino. "Patronesse", por outro lado, não aparece como feminino de coisa alguma. Etimologicamente, "patrono" parece vir de "pater" (pai); feminino, se houvesse, deveria vir de "mater" (mãe) — e chegaríamos então ao correspondente "matrona".

— Não pode ser — disse a mim mesmo, horrorizado. — A Dercy vai matar uma dessas moças.

Penso em tirar da novela das oito alguns lingüistas de minhas relações, mas sinto-me pouco à vontade: há algo de descortês nisso de fazer perguntas léxicas à queima-roupa. Mesmo especialistas podem ser apanhados de surpresa. A coisa tende a parecer golpe baixo.

Neste ponto bato na testa e me lembro: o Sizenando Ferreira! Pois o Sizenando é professor de português num cursinho da cidade e, pelo que sei, grande devoto dos mistérios da língua.

— Patrono? — repete ele. — No fundo você quer saber se é um substantivo de dois gêneros, um epiceno ou um vacilante.

— Sei lá, Sizenando. Quero saber é se patrono tem feminino.

De repente lá vem ele com as suas contra-perguntas safadíssimas:

— Soprano, por exemplo, você sabe de que gênero é?

Saio pela tangente:

— Depende do sexo do artista.

— Gênero vacilante. Tanto pode ser "o" como "a soprano", embora se recomende o masculino. E jabuti, sabe o feminino de jabuti?

Vacilo e me calo. Ele informa que é jabota.

— E o feminino de javali? — prossegue.

— Nesse caso, deve ser javota.

— Ah, ah, caiu como uma perdiz, cujo masculino aliás é perdigão. E a fêmea do javali é a gironda, que também responde por javalina.

Procuro não dar importância a essas demonstrações do Size, pura pedanteria dele, que parece pretender ir adiante sem tocar no cerne do problema:

— O feminino de cupim é arará, sabia? O de rinoceronte é abada e o de sandeu, sandia. Entendeu, sandeu? Nesse caso, qual será o masculino de sardinha?

Digo o que espera que eu diga — "sardeu!" — só para ouvir sua risada:

— Ah, ah, ah! É como se você falasse "o pulgo" em vez de "a pulga". O maestro Benito Juarez...

— O maestro Benito fala "o pulgo"?

— Não creio. Eu só estava perguntando se o maestro Benito Juarez é quem vai reger o hino nacional.

— Naturalmente, e daí?

— Pois se no lugar dele estivesse uma mulher, seria uma maestrina.

Depois dessa, mando-o coçar os pulgos da gironda e contar outra ao marido da episcopisa, isto é, ao bispo. E desejo que os ararás ataquem seus dicionários e suas gramáticas. Depois, ou a linha caiu ou ele depositou de mansinho o telefone no gancho. Devia ter razões para isso. Tenho certeza de que também não sabia o feminino de patrono.

Não sei como se arranjaram as moças. Mas fiquei sabendo que, em seu breve e contundente discurso, Dercy Gonçalves falou mal dos políticos e concitou os jovens formandos a serem pessoas decentes. E disse que em Brasília estão jogando cocô na bandeira brasileira. Nada de extraordinário, pensei: receio que tenhamos feito o mesmo com a língua portuguesa.


Eustáquio Gomes
nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular, de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido, está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground" (Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado" (poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos" (ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995), e "O Mapa da Austrália" (romance, 1998).

Aos domingos escreve no suplemento "Metrópole" do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), de onde extraímos esta crônica.

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