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Arnaldo Nogueira Jr



Eustáquio Gomes

 


Eu e o general

Eustáquio Gomes


Lula, um perseguido político do fim da ditadura militar, andou por aí elogiando os militares. Seja lá qual for seu propósito, deve saber o que diz. Ou, ao menos, o que quer. No que me toca, nunca tive problemas com a dita cuja. Lamento não poder carregar o talismã da perseguição política, como tanta gente adora fazer, para depois terminar elogiando Fidel Castro. Ou o general Médici.

Só uma vez, para ser franco, me defrontei com um general de verdade. A história se tomou célebre em certos círculos pelo desfecho que teve. Já contei esse episódio uma vez, vou contar de novo. Mandaram-me ao antigo Hotel Terminus para entrevistar um general. Era um general do Alto Comando que viera para um curso da Adesg. Perdoem-me ter esquecido o nome desse general, mas este era um tempo em que ainda existia o Hotel Terminus, cursos da Adesg eram notícia e eu, ah, jovem e inocente demais para achar o presidente Médici um grande sujeito.

O general me recebeu no saguão, impecavelmente fardado, muito simpático. Subi um lance de escada e caminhei sobre uma passadeira creme. Embaixo haviam estendido um tapetinho vermelho que me pareceu um despropósito, já que hospedavam um revolucionário do 31 de Março.

— De onde é você, rapaz? perguntou.

— De Minas, general.

Ele riu do mal-entendido: na verdade queria saber o jornal que pagava meu salário. Mas aproveitou a deixa e enveredou pela geografia das Gerais, que deu mostras de conhecer bem. Eu lhe disse o nome do povoado onde nascera, a região, a "metrópole" mais próxima.

— Ah, conheço. Fui comandante em Bom Despacho.

Então estávamos de acordo. A entrevista foi uma baba: ele ditava, eu anotava. Na verdade até preferia que fosse assim, pois estava cansado e tinha pressa de voltar à redação, onde me esperava um trabalho insano. Além disso eu tinha arranjado uma namorada e não conseguia pensar em mais nada. Muito menos em cursos da Adesg. De resto o general limitou-se a ler para mim uma série de princípios e aforismos que sacou de uma pasta, contando que eu os reproduziria no jornal. Vendo que dali não saía coelho, apanhei minha papelada e os folhetos todos, estendi a mão ao general (ou bati continência?) e saltei os degraus que me separavam do tapetinho vermelho.

Foi a minha desgraça. Logo vi que o tapetinho se deslocou de onde estava, comigo em cima dele, e começou a viajar no chão encerado. Como nas histórias de Malba Tahan, lá fui eu entre as nuvens de Pendjab, só que em direção à porta do Hotel Terminus, pesada em seus arabescos de vidro grosso, com arame treliçado no meio. Tive tempo de decidir qual parte do meu corpo jogaria contra a porta, e escolhi o ombro direito. Quando bati contra o vidro, tive a impressão de que todo o prédio havia estremecido. Foi um barulhão indecente. O vidro trincou de alto a baixo e eu, em vez de cair, subi meio metro.

Enquanto eu parava no ar, quase como o Dadá Maravilha, o danado do tapetinho deslizou de volta a seu lugar primitivo. De modo que desabei sobre o chão liso como quiabo. Minha papelada voou em todas as direções: anotações, aforismos patrióticos, conceitos revolucionários. Patinei, levantei-me às tontas, tomei a escorregar. Quando consegui finalmente ficar de pé, minha camisa estava rasgada e o ombro sangrava. No topo da escada, o general via a cena com estupefação, de punhos cerrados.

Uma multidão juntou na calçada, do lado de fora, atraída pelo estrondo. Julgaram que era uma briga no saguão do hotel. Ouvi comentários do tipo:

— Foi jogado na porta com um soco!

— Foi o milico! Eu vi!

— Isso é abuso de autoridade! Bater num menino!

Tentei esclarecer que não, que eu fora vítima de minha própria imprudência, que era dado a trapalhadas como aquela. Em vão: logo toda a avenida comentava que um repórter fora espancado por um general no saguão do Hotel Terminus, mas que naturalmente o jornal não ia dar uma linha sequer a respeito, etc. etc: Detalhes eram acrescentados à história a cada minuto (e depois, a cada dia ou semana) inclusive um que me atribuía uma brava reação contra o general, que escapara pelo elevador.

Anos mais tarde, quando fui trabalhar na Bosch, um gerente a quem fui apresentado me cumprimentou nestes termos: "Satisfação de conhecer o homem que atravessou a porta do Terminus". Moacyr Castro é outro que nunca deixa essa história cair no esquecimento. Sempre que pode conta-a aumentando o enredo. Eu mesmo já não sei o que é verdade e o que é invenção. Fui incorporando a fantasia dos outros e agora é tarde para reconstituir o que de fato aconteceu.

Há apenas alguns anos, numa conversa com estudantes de jornalismo,um deles sugeriu que eu falasse de minha "resistência ao regime"

— Nunca resisti ao regime, protestei.

— Como não? E o caso do hotel?

— Que caso?

— O dia em que você derrubou um general com um direto no queixo.

Portanto, a partir de agora, eu sou o homem que derrubou um general com um direto no queixo.

(Adesg - Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra N.E.)


Eustáquio Gomes
nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular, de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido, está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground" (Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado" (poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos" (ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995),"O Mapa da Austrália" (romance, 1998) e "A Febre Amorosa: Romance Bandalho" (romance, 2001).

Crônica publicada no caderno "Metrópole" do jornal Correio Popular - Campinas (SP), de 08-09-2002, pág. 46.

 

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