Breve romance de sonho

Eustáquio Gomes


Era no tempo em que ainda existiam as lojas Mappin, isto é, não faz muito. Marco, um estudante de filosofia, estava recebendo a visita da mãe, que viera de longe para vê-lo. Nesse dia levou-a ao Mappin para que ela comprasse uma blusa. Já começava a fazer frio. Enquanto a mãe percorria a seção de roupa feminina, deslizando em câmera lenta de ilha em ilha, com a firme intenção de percorrer todo o arquipélago, Marco foi sentar-se numa cadeira e abriu um livro.

Na cadeira vizinha estava sentada uma moça que também lia um livro. Observou-a de soslaio. Tinha o rosto ovalado, os olhos eram verdes e os cabelos escuros desciam até os ombros. O tecido da blusinha fina colava-se ao tronco frágil e delicado que no entanto descrevia um harmonioso percurso até os quadris fortes e destes para a solidez das coxas ocultas pela saia estampada. Marco levou um pequeno susto quando viu a capa do livro que ela segurava: era o mesmo que ele lia, isto é, a maravilhosa novela de Arthur Schnitzler Breve Romance de Sonho. Teria ela visto o filme de Stanley Kubrick?

A quem ela espera?, perguntou-se. Logo teve a resposta. Um homem se aproximou, entregou-lhe qualquer coisa em silêncio (um silêncio pesado, distante) e afastou-se de novo em direção aos provadores. Casada, concluiu Marco. Seja como for, em que página do livro ela se encontra? Esticou os olhos e descobriu que na página 85. Não teve dúvida de que ela terminaria de lê-lo aquela noite mesmo, recostada num travesseirão, enquanto o marido, bem, o marido se ocupava de outra coisa num outro aposento. Desejava que assim fosse e envergonhou-se disso.

Se está na página 85, refletiu Marco, então seus olhos já percorreram aquele trecho que os dele já haviam percorrido com uma emoção agravada pela imaginação:

— "Ele hesitou um instante; depois, fez como ela queria, deitando-se a seu lado. Cuidou, porém, para não tocá-la. (...) Ficaram ambos em silêncio, deitados de olhos abertos, sentindo a proximidade e a distância um do outro".

Teria ela sentido o mesmo que ele? Pareceram absortos na leitura durante quinze minutos. Mas demoravam muito a passar de uma página a outra. Na verdade, conjeturou Marco, observavam-se sem se olharem. Teve certeza disso quando ela repentinamente virou-se para ele e, deixando claro que havia notado a coincidência dos livros, sorriu-lhe. Mas não disse nada e fingiu voltar à leitura. Ao fim de dez minutos o marido retomou e chamou-a à parte. Ela deixou o livro sobre a cadeira e acompanhou-o. Parecia irritado e insatisfeito com alguma coisa, talvez com as camisas que provava, nenhuma delas boa o suficiente para ele. Quando o marido se afastou, ela levantou ostensivamente os olhos para o teto e suspirou. É coisa antiga, concluiu Marco. E viu-a acomodar-se outra vez na cadeira, com uma graça de gazela, e reabrir o livro. Pobrezinha, pensou.

Nesse ínterim a mãe de Marco reapareceu e chamou-o. Havia escolhido uma blusa que não lhe caía bem, e Marco teve trabalho para convencê-la disso:

— Está grande nos ombros, mãe.

— Mas eu sou apenas uma viúva, disse a mãe.

— Por isso mesmo, brincou Marco. Quando voltou para a sua cadeira, a moça estava de pé mirando-se num espelho. Tinha ouvido a conversa e sorria. Juntou os cabelos para trás e passou-lhes uma presilha. Estava agora com o pescoço à mostra e Marco pensou que era para ele. Teve então a idéia maluca de passar diante do espelho e encará-la de frente, quase não acreditando no que fazia. Ela notou o estratagema e ao vê-lo passar pareceu acompanhá-lo com os olhos interessados. Marco sentiu o rosto queimar de excitação. Vagaram então pelo arquipélago, em linha paralela ou de costas um para o outro, como estudando o terreno. Voltaram quase juntos para as cadeiras e tomaram a abrir os respectivos livros.

Pensou em lhe dirigir a palavra nestes termos: "O final é surpreendente". "Não me conte", ela diria. E ele: "Acha que a fantasia de Frigolin é real ou imaginária?". Mas não chegou a dizer nada. O marido estava outra vez de volta e passou por ela como um cometa, convocando-a com um movimento de cabeça. Ela levantou-se e seguiu-o. Marco viu-os se afastarem em direção à saída e previu que, chegando à porta, ela voltaria a cabeça e sorriria de novo para ele. Mas não o fez. Perdeu-se na multidão do shopping.

Tarde da noite, na pensão onde tinha um quarto, enquanto via a mãe reforçar amorosamente um dos botões da blusa nova, Marco notou que seu exemplar do Schnitzler tinha uma página dobrada ao meio. O que era estranho, pois não costumava dobrar páginas de livros. Observou melhor e constatou, aterrado, que aquele exemplar não era o seu. Tinha havido uma troca. Tanto haviam se levantado e sentado que tinha havido uma troca. Foi quando, entre a capa e a folha de rosto, encontrou um diminuto cartão de visitas. Leu: Alicia Ferreira de Oliveira Paniagua. E embaixo, acrescentado à mão: alicia@butterfly.com.br. E mais abaixo um número de telefone.


Eustáquio Gomes
nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular, de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido, está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground" (Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado" (poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos" (ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995), "O Mapa da Austrália" (romance, 1998) e "A Febre Amorosa: Romance Bandalho" (romance, 2001) .

Aos domingos escreve no suplemento "Metrópole" do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), de onde extraímos esta crônica.

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