O falso poema de Borges
Eustáquio Gomes
Vá lá que você não goste de ler poemas; pouca gente gosta. Não é um defeito
irreparável. Mas daquele poema póstumo de Borges, ah, desse você iria gostar.
Intitula-se "Instantes" e começa assim:
Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Nunca tive o impulso de levar um poema no bolso, como se faz com os documentos e
retratinhos de família, mas esse eu levaria sim. Arrependi-me de não tê-lo recortado
daquele jornal onde um dia o li, encantado mas distraído, como se poemas assim houvesse
por aí aos quilos. Tinha-me agradado sobretudo aquele trecho em que Borges dizia:
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro
sem uma bolsa d'água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Mais tarde andei procurando esse poema nos livros e antologias de Borges, mas não o
encontrei em parte alguma. Lembrava-me vagamente de um ou outro verso assim ou assado, em
que o poeta dizia que se tivesse a chance de começar de novo "correria mais riscos,
viajaria mais, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos
problemas imaginários".
Outro dia descobri que o meu mestre e amigo Isolino Siqueira leva há anos o mesmíssimo
poema dobrado na carteira, como um talismã, uma oração. Vez por outra o desdobra e lê.
Segundo me disse, seu verso preferido é aquele que reza:
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Naturalmente, fiquei contentíssimo por ele ser devoto de Borges e ainda mais por
reencontrar o poema. Concordamos nisso: aquele era o ponto alto do poeta argentino. Desta
vez não deixei passar a ocasião: pedi o recorte emprestado e tirei uma cópia.
E agora esta: uma notícia de jornal pretende que o poema não é de Borges, que se trata
de uma falsificação, que Borges nunca o escreveu e que seu verdadeiro autor é uma certa
Nadine Stair. Minha primeira reação foi de ceticismo, recuso-me a crer nisso. Mas o
jornal diz que a própria viúva de Borges é que veio a público denunciar a fraude:
Borges não só não seria o autor do poema como tampouco seria capaz de silogismos tão
simplórios. Embasbaquei. Vá lá que não estejam ali os tigres, os labirintos e os
espelhos. Mas mandar o poema assim ao limbo da mediocridade, isso me parece um pouco
demais.
Procuro o Isolino para desabafar:
Logo agora que estava me acostumando sem os sapatos.
E ele, imperturbável:
Para mim não faz a menor diferença. Vou continuar a levar o poema na carteira.
Não só ia continuar agindo assim, como o leria com fé toda vez que lhe desse na telha.
Do contrário teria de voltar à velha conduta de não correr riscos, de nunca subir uma
montanha, jamais nadar num rio. Depois de refletir um pouco, sou obrigado a concordar com
ele. Sim, talvez seja melhor preservar a ilusão de vir a ser um alpinista ou de poder
nadar contra a corrente a sacrificar-se em nome da verdade literária. Portanto, abaixo
Borges! Viva Nadine Stair.
Mas quem diabo é Nadine Stair?
Eustáquio Gomes nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de
Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra
dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de
bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se
Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os
modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem
publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os
paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios
internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu
uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em
jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da
capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também
na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e
em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que
está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular,
de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais,
entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a
maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido,
está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground"
(Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre
Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado"
(poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de
Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio
biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos"
(ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um
Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995), "O Mapa
da Austrália" (romance, 1998) e "A Febre Amorosa:
Romance Bandalho" (romance, 2001) .
Aos domingos escreve no suplemento "Metrópole" do jornal "Correio
Popular", de Campinas (SP), de onde extraímos esta crônica.
Para quem não conhece, o
"Releituras" reproduz abaixo o polêmico poema:
Instantes
Se eu pudesse
novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo.
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